quinta-feira, 25 de abril de 2019

Pela rua virando lata


Nunca amei ninguém por causa da aparência, porque iria usar este critério condicionalmente logo comigo mesma?

As coisas mais permanentes da minha vida realizei de forma despreocupada, despretensiosa e completamente alheia a qualquer previsão de futuro: ter um filho e fazer o concurso para servidora pública.

Coisas interessantes no meu corpo: pulso, tornozelo, nuca, dedos da mão tortinhos e meus olhos, acho notável como eles contrastam com tudo mais sendo tão constantemente tristes.

Roupa de cama cheirosinha: sim, por favor.

Eu sempre fui de chorar fácil com filme, música, quadros, essas coisas. Mas o dia a dia tem me deixado em carne viva.

Uma coisa que sinto falta do outono é o striptease das árvores.

Eu gostaria de ter coisas antigas, um baú que foi da bisavó, uma cômoda que veio de geração em geração ou mesmo um vestido de festa, um blazer ou casaco da década passada que permanece valente no guarda-roupa. Meus tesouros da antiga mente: a louça da minha avó e um relógio que foi da mamys, mas perdi na festa de conclusão da oitava série. Minha cidade é daquelas que substitui bom ou melhor por "novo": posto sob nova direção, por exemplo, como se ser nova bastasse como garantia. Mas não é só isso. As coisas que duram costumam ser mais dispendiosas. Meus móveis nunca chegarão aos meus netos, eu os compro nas Casas Bahia ou, no máximo, na Etna. Minhas roupas não duram décadas no guarda-roupa não porque sou perdulária ou me preocupo com o modelito da moda, mas porque o que compro dura duas ou três dezenas de lavagens e já começa a descosturar, perder a cor, esgarçar. 

Durante a viagem eu quase me tornei religiosa e até fiz uma prece: papais do céu, que haja justiça social e o fim da desigualdade, mas caso não seja pra logo, me faça rykah.

Eu sou boa de trabalho, já rodei o Ceará fazendo três reuniões no dia; já dei aula horário fechado manhã e noite, escrevendo a dissertação; já trabalhei em dois ou três lugares ao mesmo tempo pra completar orçamento. Eu escrevo ou escrevia com certa facilidade. Tenho idéias. Tenho a mente organizada. Mas este trabalho me exaure. Eu gasto o dobro, o triplo de energia que outras pessoas gastariam pra fazer uma coisa simples como despachar um processo ou enviar um informativo. Eu sou péssima como coordenadora, não sei as resoluções decoradas, sempre prefiro decidir pelo bom senso e não pelas normas, tenho receio de tomar más decisões que afetem a vida de outros professores, acordo no meio da noite apavorada com medo de ter feito algo que prejudique algum aluno. Sempre acho que estou esquecendo alguma coisa - e é verdade.

O dinheiro acabou bem antes do mês. E é porque eu faço parte daquela ponta de cima da pirâmide. O Brasil é um país de sobreviventes.

Eu gosto da musiquinha dos Saltimbancos em que se canta: nós gatos já nascemos pobres, porém, já nascemos livres. Era bom se assim fosse. A liberdade não é um dado. É um horizonte. 

Chegar em casa e tirar tudo, tudinho, tomar banho e ficar andando pelada é das coisas mais eu que tem.

No natal eu ganhei uma nhoqueira da minha irmã. Ainda não usei. Vida, estou fazendo isto bem errado.

Luciana, se pudesse escolher, onde você viveria? Viveria de férias.




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