quarta-feira, 24 de abril de 2019

Lembra?


Eu leio todo, todo dia. Entretanto faz um tempão que li algum livro novo.

Às vezes tenho a sensação de que não sou capaz de aprender.

Mas ainda me anima ensinar. Ou mais exatamente: estar em sala de aula e facilitar uns percursos.

Status: empurrando com a barriga.

Um sono que não se acaba nunca (ou quase nunca, basta colocar o pé na estrada).

Sinto muita falta do tempo em que o Biscate era (quase) possível.

A solidão é fera, a solidão devora e não cozinha pra você.

Daí você liga a tv aleatoriamente e encontra John Wayne e Dean Martin e quase esquece de doer.

Não sei bem se o que você me oferece é memória ou promessa.

Já faz um bocado de tempo e já acordei ao lado de tanta gente mas ainda lembro do morno do teu peito feito travesseiro (e isso nem é pequeno já que eu não lembro de tanta coisa).

Aliás, há pouca coisa tão solitária como a paisagem da memória. Vastos espaços que percorremos sozinhos. Mesmo que a paisagem seja a mesma não há dois que a possam revisitar da mesma forma, ao mesmo tempo. Quanto tentamos compartilhar alguma lembrança sempre soa como aquele momento desconfortável em que alguém apresenta slides de fotos de viagem a uma platéia absorta no seu próprio e diverso sentir.

"Você lembra, lembra, naquele tempo eu tinha estrelas nos olhos, um jeito de herói...". Desculpa, do que você está falando mesmo? Não lembro não.

Sem me dar conta, perdi a conta dos dias que espero por dias melhores.






terça-feira, 23 de abril de 2019

Manda Nudes



Porque a verdade é que se a pessoa não se interessar/apaixonar/envolver por mim pelada, vestida é que ela não vai mesmo.

Eu conheço uma pessoa que tem uma amiga cuja irmã pagou uma viagem pra uma parente querida e foi tão maravilhosa que ainda não consegui escrever um post descrevendo.

Spoiler: eu mergulhei num vulcão.

O bom de ler a Fal é que parece que diminui o aperto no peito e eu consigo respirar sem ter que escrever já que a vida não tá deixando mesmo.

Por “a vida” entenda-se um tipo de trabalho que não sei e não gosto (não gosto porque não sei? Não sei porque não gosto?), pouco dinheiro (a viagem foi glamorosa mas o dia a dia, não) e um tanto de obrigações disfarçadas entre um monte de episódios bobos de séries mais bobas ainda.

Eu tenho essa tristeza de ter vivido os anos 90 (que nem foram esta garapa toda) e ver o moralismo vicejando hoje: ain, mas a Arya tão novinha pegar o moço sem nenhum sentimento, a cena foi seca, isso e aquilo, sei que lá.

Uma coisa que eu acho incompatível com a dignidade humana: bater ponto.

Se eu tivesse dinheiro viveria em nenhum lugar, seria turista na terra. A coisa mais tosca a meu respeito é que chamo de casa qualquer quarto de hotel.

Tá difícil ser eu sem reclamar de tudo - e eu nem tenho a voz da Gal pra dizer isso de um jeito encantador.

Sim, voltar das férias não é moleza, ainda mais quando o olho de um furacão que você não sabe lidar lhe espera, voraz.

Estou querendo trocar de casa, queria um visual novo pro blog, mas tenho medo de sair e as duas pessoas que me lêem não irem comigo. Por mais que eu escreva porque não consigo evitar, saber que alguém lê de vez em quando dá um morninho na alma.

A vida que nós teríamos tido.

Eu pensei que ao ir envelhecendo ia querer cada vez mais o que já tive, mas não tem sido assim, tenho desejado, cada vez mais, coisas que não só nunca tive, mas que não sei se tive ou não, coisas que não sei o que seriam... pode parecer poético ou mesmo trágico, mas é apenas uma forma muito difícil de decidir o que vai ser o jantar.

sábado, 23 de março de 2019

Só Dói Quando Eu Respiro


Não sou editável.

Vixe, uma viagem.

Pergunta, pô, que eu respondo.

Se é pra doer, saudade.

O corpo mandando mensagens e você desabilitando a notificação pra fazer de conta que não tá informada.

A gente pode ter LER só num dedo? (tentando digitar mais com o dedo do cotoco pra poder amenizar a carga do fura-bolo)

Seria bom se fosse tudo miudeza assim.

Tenho demandas modestas sobre este lance de morrer. E viver. Só queria que não doesse muito, que não demorasse demais mas também não fosse ligeiro a ponto de perder abraços.

"você precisa de alguém que te dê segurança, senão você dança". Ouvir verdades do Engenheiros do Hawai, a que ponto cheguei.

Na base: todo amor acaba, todas as pessoas morrem. Final feliz é quando a gente morre antes do amor.

"Todo mundo" fica morto de feliz com uma medalhinha em Olimpíada e desmaiaria de emoção com um Oscar, mas imposto é roubo, todo artista é vagabundo e se que ser atleta tente via meritocracia.

Vacina nos dois braços. Dia seguinte: ai. 







terça-feira, 12 de março de 2019

44, e aí

Amanhã (já, já, na verdade) faço 44 anos me sentindo muito menos eu.

A internet me deu muita lindeza. Me deu gente. Me deu amor. Porque eu gosto de festa, eu chamava para festejarem comigo e vocês vinham. Porque gosto de festa e não tenho vergonha na cara, pedia presentes e eles chegavam em forma de epitáfios, de fotos e de queridos textos. Lembro com carinho do Viver da Rita, o Envelhecer da Lu Guedes, dos Cotidianos do Rafael e da Teresa Font, da Memória da Raquel, da amizade da Joana, do texto surpresa da xará Luci, desta assombrosa finitude fora de época do Zé Navarro e da biscatagem inesperada da Renata Lins. 

Mas é 2019 e eu não consigo cantar a música do Gonzaguinha sem me sentir inquieta.

Quando eu viajo gosto de guardar uma cédula do país que visitei. Sei lá, dá aquela sensação de que vou voltar pra gastar aquele trocado.

44 anos e minha pia está uma bagunça.

Eu plantei uma árvore, eu escrevi um livro, eu tenho um filho. E, entretanto. Pois é, Freud é quem tinha razão.

Talvez eu goste tanto de Grey's porque também tenho narração em off, na vida. E, como o Kronk, improviso vez ou outra minha própria trilha sonora.

Eu ainda amo o mar.

44 anos e fico adiando a ida ao dentista.

Torresmo. Rede. Livro. Ventilador. Corleone. Panelada. Boteco. Cerveja. Cangote. Matera. Manteiga. Avião. Girassóis. Café. Preguiça. Sala de Cinema. Sushi. Flamengo. Mangueira. Nelson Rodrigues. Água.Colher de pau. Bethania. Hotel. Chuva de Bala. Cafuné. Marquesa. Ovo. Sertão. Vadiar. Gelatto. Sotaque italiano. Eletricidade. Dançar. Mercados. Banho de chuva. Mala. Conchinha. Lençol limpo. Frigideira. Blog. Caravaggio. Gaitada.

Mas posso entrar na piscina com as amigas brincando de fazer exercício só pra depois tomar café com bolo.

A verdade é que menos eu, mas ainda tem bastante. 



domingo, 24 de fevereiro de 2019

Oscar: Roma, o mais difícil, o mais bonito e o melhor filme

Roma é o melhor filme do ano. Um bom filme não o é apenas pelo que conta, mas pela forma como conta. Roma tem tudo: o mote (o afeto), a mensagem (a crítica: luta de classes, denúncia do autoritarismo, racismo) e a forma. E tem mais, aquilo que é intangível, uma beleza que é não pelo que procura ser (como se a rua beale falasse...), mas pelo que toca em nós. Tem magia.  Roma tem silêncios. Tem vazios. Tem abismos. Não é um filme em preto e branco, é um filme em cinza, porque é assim que a vida é: ambígua. Não há saída fácil. Estamos desacostumados com nuances, Roma nos joga no meio do que não é passível de julgamento, peso ou medida.

Roma é incomensurável.

É um filme poroso (não encontrei palavra melhor) que nos convida a ver com vagar, a sentir muito, a abrir mão de expectativas e ouvir e acolher e nos permitirmos.  Não consigo compreender quem diz que não acontece nada ou que é um filme parado, ele tem intensidade e angústia e rompantes de doçura que é outro jeito de dizer que ele pulsa.



A cena em que o “dono” da casa estaciona o carro grande demais praquela garagem já é um tapa na cara. Ou a forma como vamos sendo lançados na década de 70, o pôster da Copa do Mundo, o massacre dos estudantes, tudo irrompe e é submetido à premência do cotidiano. Como nós, que somos soterrados por Brumadinho e o incêndio no Ninho do Urubu e continuamos dando aula, cozinhando, parindo, trabalhando, vivendo.

Rico em metáforas e referências (os aviões o tempo todo nas cenas, idas ao cinema) sem, no entanto, desvincular-se do simples e cotidiano. Interpretações ricas e sensíveis. Não há extensos diálogos, mas as falas são bem escritas, potentes e se encravam entre os gestos precisos, minimalistas e ao mesmo tempo dramáticos e expressivos. E a fotografia, puta merda, a fotografia desse filme, é instigante. A técnica, neste filme de Cuáron, não existe por si mesma e não apenas está a serviço da narrativa, ela é a narrativa. Por exemplo, a trilha sonora, não há música, a não ser que se esteja numa festa, o resto é o som do cotidiano. Incomoda e inspira.

E tem a composição de Cleo. A história de Cleo. A vida de Cleo. Uma hora Cleo existe, material, presente, amada, imprescindível pra vida das outras pessoas, para a definição mesma de família. Em outras, some, é diluída, esquecida, marginalizada. A presença da ausência de Cleo (ou a ausência de sua presença) é o debate com que Roma nos compromete. Há quem diga que Roma é uma carta de amor à empregada do Cuáron. E há quem minimize isso ou despreze como se fosse impossível o amor e a desigualdade, a injustiça, a opressão. Pois digo eu que o amor não só compreende tudo isso como ele é muito isso, tantas vezes. Apagamos o outro para que ele seja apenas em nós. Filmar isso foi corajoso porque não importa o que se quer dizer, o real irrompe e se revela.

É um filme sobre o particular, no que temos, cada um, de universal. Ou é um filme sobre o todo no que se materializa em cada um? Roma é sobre Cleo e sua vida limitada, marginalizada e desigual em e com uma família que a oprime, predatória e é, também, a narrativa de todos os lugares que se fizeram a partir da subjugação de seus povos originários, calcando as relações no racismo e no genocídio sistemático. E Roma é sobre como o afeto se imiscui nestas relações.

Há um momento em que Cleo diz: “Olha só, gostei de estar morta”. E isso é dolorosamente verdadeiro e se torna cinema não apenas pela verdade do dito mas pela construção estética que enquadra, justifica e potencializa a fala. Cinema não é apenas o que se conta, mas o como, eu repito e por isso Roma, uma filme difícil de assistir, é o melhor filme do ano pra mim e, espero, pra os votantes da Academia. 


PS. Mas, Luciana, e Infiltrado na Klan? Spike Lee não merece? Então, Infiltrado é Caminhando e Cantando, Roma é Sabiá. 

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...