Roma é o melhor filme do ano. Um bom filme não o é apenas pelo
que conta, mas pela forma como conta. Roma tem tudo: o mote (o afeto), a
mensagem (a crítica: luta de classes, denúncia do autoritarismo, racismo) e a
forma. E tem mais, aquilo que é intangível, uma beleza que é não pelo que
procura ser (como se a rua beale falasse...), mas pelo que toca em nós. Tem
magia. Roma tem silêncios. Tem vazios.
Tem abismos. Não é um filme em preto e branco, é um filme em cinza, porque é
assim que a vida é: ambígua. Não há saída fácil. Estamos desacostumados com
nuances, Roma nos joga no meio do que não é passível de julgamento, peso ou
medida.
Roma é incomensurável.
É um filme poroso (não encontrei palavra melhor) que nos convida
a ver com vagar, a sentir muito, a abrir mão de expectativas e ouvir e acolher
e nos permitirmos. Não consigo
compreender quem diz que não acontece nada ou que é um filme parado, ele tem
intensidade e angústia e rompantes de doçura que é outro jeito de dizer que ele
pulsa.
A cena em que o “dono” da casa estaciona o carro grande demais
praquela garagem já é um tapa na cara. Ou a forma como vamos sendo lançados na
década de 70, o pôster da Copa do Mundo, o massacre dos estudantes, tudo
irrompe e é submetido à premência do cotidiano. Como nós, que somos soterrados
por Brumadinho e o incêndio no Ninho do Urubu e continuamos dando aula,
cozinhando, parindo, trabalhando, vivendo.
Rico em metáforas e referências (os aviões o tempo todo nas
cenas, idas ao cinema) sem, no entanto, desvincular-se do simples e cotidiano.
Interpretações ricas e sensíveis. Não há extensos diálogos, mas as falas são
bem escritas, potentes e se encravam entre os gestos precisos, minimalistas e
ao mesmo tempo dramáticos e expressivos. E a fotografia, puta merda, a
fotografia desse filme, é instigante. A técnica, neste filme de Cuáron, não
existe por si mesma e não apenas está a serviço da narrativa, ela é a
narrativa. Por exemplo, a trilha sonora, não há música, a não ser que se esteja
numa festa, o resto é o som do cotidiano. Incomoda e inspira.
E tem a composição de Cleo. A história de Cleo. A vida de Cleo. Uma
hora Cleo existe, material, presente, amada, imprescindível pra vida das outras
pessoas, para a definição mesma de família. Em outras, some, é diluída,
esquecida, marginalizada. A presença da ausência de Cleo (ou a ausência de sua
presença) é o debate com que Roma nos compromete. Há quem diga que Roma é uma
carta de amor à empregada do Cuáron. E há quem minimize isso ou despreze como
se fosse impossível o amor e a desigualdade, a injustiça, a opressão. Pois digo
eu que o amor não só compreende tudo isso como ele é muito isso, tantas vezes.
Apagamos o outro para que ele seja apenas em nós. Filmar isso foi corajoso
porque não importa o que se quer dizer, o real irrompe e se revela.
É um filme sobre o particular, no que temos, cada um, de
universal. Ou é um filme sobre o todo no que se materializa em cada um? Roma é
sobre Cleo e sua vida limitada, marginalizada e desigual em e com uma família
que a oprime, predatória e é, também, a
narrativa de todos os lugares que se fizeram a partir da subjugação de seus
povos originários, calcando as relações no racismo e no genocídio sistemático. E Roma é sobre como o afeto se imiscui nestas relações.
Há um momento em que Cleo diz: “Olha só, gostei de estar morta”.
E isso é dolorosamente verdadeiro e se torna cinema não apenas pela verdade do
dito mas pela construção estética que enquadra, justifica e potencializa a fala. Cinema não é apenas o que se conta, mas o como, eu repito e por isso Roma, uma filme difícil de assistir, é o melhor filme do ano pra mim e, espero, pra os votantes da Academia.
PS. Mas, Luciana, e Infiltrado na Klan? Spike Lee não merece? Então, Infiltrado é Caminhando e Cantando, Roma é Sabiá.






