quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

É preciso alguma paixão


Eu não aguento mais a burrice. Stálin com dois prêmios Nobel da Paz, me abana, pelamor.

O clip Daniela Mercury + Caetano é uma lindeza. E eu choro de soluçar.

Como disse o Wagner Moura, acabou a verdade. Não a Verdade de V maiúsculo que quem acha que tem todas as respostas abana na cara alheia (pelo contrário, essa se alastra entre os X#@%&##@ (insira aqui a palavra que você pensou). A verdade que vem da reflexão sobre fatos e eventos. As pessoas não se questionam, não ponderam. Na voz do Rogerinho: cabô, verdade, cabô, cabô. E isso me deixa angustiada.

Nota técnica com mudanças na Política Nacional de Saúde Mental e eu entre a imensa tristeza e a raiva avassaladora. Recuamos pros anos 80 ou pior. Tenho nem o que dizer, é um desprezo pelo conhecimento, pela ciência e um enorme descaso com a vida das pessoas.

Ninguém pode dizer que eles não estão tentando cumprir - e rápido - grande parte do que prometeram. Educação Moral e Cívica ressurgirá, gravação de aulas nas escolas públicas, nota técnica regredindo a atenção à saúde mental pra época pré reforma psiquiátrica, o pacote do Moro liberando tortura e assassinato por parte de policiais, a reforma da previdência junto com os cortes no bolsa família acelerando o retorno da miséria, censura velada a bens culturais e antagonismo explícito com a mídia, moralismo nos órgãos que deveriam promover a igualdade... Só ficou faltando a parte do combate a corrupssaum, mas, sei lá, seguindo o exemplo da ditadura militar vai ver que a máxima é: o que os olhos não vêem, o coração não sente.

Neste momento estou muito apaixonada pelo chefe dos bombeiros. E pelo capitão. E pelo tenente #vadiatambémnasséries. O chefe tá meio com a vantagem pela química sensacional com a Vic.



Shonda consegue criar universos que me conquistam (tirando aquele chatice que é Scandal). Gosto daquelas séries que eu posso até esquecer o que aconteceu mas que me faz sentir saudades dos personagens e é exatamente assim que estes universos de Shonda me ganham.




Pois é, eu enchi o post de homem gostoso porque... eu quis.

Consegui ver todos os concorrentes ao Oscar de Melhor Filme (ainda faltam alguns pra completar as categorias principais como melhor ator e tal). Fica assim meu coração:
1. Infiltrado na Klan
1. Roma
3. Green Book
4. A Favorita
5. Pantera Negra
6. Nasce uma Estrela
7. Bohemian Rhapsody
...e Vice, nem devia estar na brincadeira (okay, Bohemian também não, foi uma homenagem legal mas é um filme bem marromeno, né).

Tenho férias em abril, não tenho dinheiro em abril pois recebi e gastei o dinheiro das férias em janeiro. Quero ver pessoas amadas (mas) também quero ver o mar (mas) quero conhecer lugares novos (mas) quero reencontros (mas) quero descanso (mas) quero boteco e baladinha (mas) quero ficar só (mas) preciso de gente (mas) quero ficar com a família (mas) quero ir ver ozamigos (mas) quero viajar pelo Brasil (mas) quero sair e respirar américa do sul. 

Ou seja.

E tem comida que acalanta. Linguiça com batata ao molho. Daí coloca em cima daquele arroz soltinho, amassa a batata, tudo meio fumegando e manda ver. É pior que amendoim, enquanto tiver eu tenho vontade de ficar comendo.

O barulhinho da chuva às vezes me dá vontade de chorar.

Não sei como dizer sem machucar (e ao fim e ao cabo nem sei direito a quem machuca) mas entre nós há mais que fuso horário e geografias.


Não é nada, não é nada mas agora tenho uma fonte, uma poltrona azul e uma luminária amarela. E muitas cartas fora do envelope.

Sim, ainda tenho coisas por dizer.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

As regras do jogo ou política, literatura e outras coisas que me afetam



Uma tristeza grande que eu tenho é que eu devo me aposentar mal, mas um tanto de gente que eu gosto, nem isso.

Vivemos em um país que fez uma opção clara pela crueldade, o descompromisso com a vida humana, que escolheu a mediocridade, a violência e a exclusão. Eu tenho dificuldade até de respirar.

Não é só quem elegeram pra presidente – já seria vergonha o bastante – mas todo um projeto sustentado por legislativo, judiciário, governadores e tudo. Driblo a angústia com cerveja, mar e amores, mas tá difícil manter a ginga e o preparo físico que isto demanda.

Ninguém me demove da idéia de que enquanto estivermos atrelados à pauta corrupssaum só perdemos e recuamos. O debate, penso eu, deveria ser sobre projeto de país, de mundo, de futuro, sobre políticas públicas, sobre o papel do Estado, sobre controle social, sobre organização popular. Não estou defendendo o "rouba mas faz" ou achando que se deve ignorar processos ilícitos, mas entender que é para além do punitivismo moralista que estão as questões que transformam estruturas.

Tem aquele best seller do Jeffrey Archer, A Filha Pródiga. É a história filha de um imigrante polonês rico, Florentyna, que decide entrar para a vida pública e vai de congressista até, bom, quem quiser, lê o livro. Tem algumas coisas que me emocionam, que nem quando vejo West Wing ou escuto a Erundina falando. O serviço público, que coisa comovente.

Uma casa é um sumidouro. Agora há torneiras pingando.

É legal ter uma planilha, desde que comecei a usar passei a equilibrar melhor as contas. Facilita porque tenho salário fixo, não posso fazer coisas extras pois dedicação exclusiva. Não vai ter mais, é isso, se vira. Faço a lista das despesas fixas, a projeção daqueles meio variáveis no valor mas constantes na existência e bola pra frente. A desvantagem: é dia 05 e eu sei exatamente pra onde vai cada moeda que ainda tem no banco até a entrada do próximo salário. Não posso nem pedir uma pizza, daqui até fechar a próxima fatura do cartão, o que só acontece dia 05 do mês que vem. Neste ínterim, se não posso pedir pizza que dirá ir a Fortaleza ou me preparar direitinho pra receber família no Carnaval.

Gostaria de ser mais sofisticada mas estou ansiosa pelo retorno dos episódios de Station 19.

Foi uma viagem maravilhosa, meu Tour Sudeste. Rendeu abraços, um delicioso licor, um anjinho de cabeça quebrada, muitas risadas, promessas de reencontro, belezas até onde a vista alcançava - e além. Mas nos 45 do segundo tempo perdi meu kindle. Deixei naquele bolso na frente da poltrona do avião (quem mandou ficar lendo ao invés de dormir e babar, como em toda viagem). Sinto saudades da sensação de ter uns trezentos livros à mão.

Status laboral: abraçando o mundo com as pernas, um passo maior que as pernas, pernas pra que te quero.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Canoa e outros bairrismos




Eu frequento Canoa Quebrada desde o comecinho dos anos 90 (posso ter ido, devo ter ido, na década de 80, mas como criança, só me interessava o banho e o peixe) e confesso que é dolorido ver algumas mudanças. A Broadway com sua rua de barro e inúmeros bares onde se dançava de tudo (reggae, forró, rock, pop, mais forró, brega, cada um no seu estilo, menos o bar do meio que era uma mistura de muitos estilos) tornou-se uma rua de calçamento com lojas e mais lojas e onde não há loja são restaurantes de donos italianos, portugueses e sei lá mais qual nacionalidade (nada contra, adoro uma pizza, mas, poxa). Quando não tem aquela insuportável “música ao vivo”.

Eita, então se acabou tudo, pode-se pensar numa primeira pisada. Rá, bobinhos. Canoa tem alguma coisa mágica que não se deixa vencer. Algumas coisa boêmia e inclusiva. Resistente. Não há desigualdade, apropriação, capitalismo, turismo predatório que lhe roube isso (ou ainda não teve, né). Canoa permanece uma vila de festa e riso e diversidade e encanto e encontro noite adentro, ainda tem na rua de um tudo, hippies e suas pulseirinhas, casais com filhos, velhinhos, maconheiros animados, gente muito emperiquitada, gente de japonesa, gente jogando capoeira, gente bebendo caipirinha, gente beijando gente, gente, gente, gente.

A combinação de sons e pessoas e afetos é mágica na Canoa noturna e, tão mágica quanto, é a combinação de cores na Canoa que acorda, azul, azul, azul, laranja, amarelo, avermelhado e sei lá de que cor é o mar que mergulha na gente e a gente se encontra nele. O mar de Canoa é uma celebração.

Há praias na praia Canoa. Há praia pra quem vai pra ver, pra quem vai pra sentir, pra quem vai pra lembrar, pra quem vai pra descobrir. Tem praia pra quem nada, quem surfa, quem voa, quem durma. Tem praia para os madrugadores, para os de ressaca, praia para as famílias, para os solitários, praia para os amantes e para os grupinhos ruidosos. Tem praia pra quem vem no ônibus de turismo passar o dia e tem praia para quem veio de férias, esqueceu da volta e foi ficando já faz anos. Tem praia para o dono da pousada que deixa tudo aberto e vai cedinho mergulhar e para o garçom que começa cedo, larga às 17hs e já fica boiando. Tem praia para os de primeira viagem e para os que não conseguem deixar de voltar lá, deixaram o umbigo, talvez. Há praias na praia de Canoa digo eu, mas não se engane, não são lugares diferentes, é no mesmo lugar e quase sempre ao mesmo tempo, é que Canoa se faz do jeito que precisamos dela, quando dela precisamos.

É preciso um certo fôlego, não apenas pelas falésias mas pra viver todas as horas e formas de Canoa. Quando sozinha, tenho uma rotina: praia cedinho, água de coco, depois cerveja, pastel, cerveja, tira-gosto. Esquentou? Sobe. Tira um cochilo. Acorda para o fim da tarde, pode rolar outro mergulho pra deixar um certo sal na pele mesmo depois do banho, pôr-do-sol, alguma merenda, com sorte, tapioca e café.  Banho bem banhado, descanso na rede de pé pendurado só vendo o tempo até a rua chamar ou a fome apertar. Jantar. Bater perna prum lado e pro outro até dar liga em algum bar. Senta e bebe. De frente pra rua, claro, que o melhor de Canoa são as gentes. Paquera, se for dia de. Espera a madrugada pra sentir aquele prazer de voltar por vielas adormecidas. E cedinho, tudo de novo: praia, banho, sono, lanche, praia, banho, rua, janta, festa.

Perto de muita água tudo é feliz. Eu sou.



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De tanto ouvir falar, cogitei, algum dia, quem sabe, férias em Morro de São Paulo. Fui olhar as fotos e ponderei que Camocim tá de bom tamanho pra mim.

Aqui vizinho tem outras praias de estilo totalmente diferente como Tremembé e Redonda, em Icapuí. Praia pra deixar o vento sussurrar histórias perdidas, deixar o tempo desenhar na pele e esquecer, um pouquinho, que viver dói.

Eu tenho dificuldade de apreciar as praias de outros lugares, estados, países, é fato. Um tanto porque não sou mulher de natureza, outro tanto porque fui mal acostumada com o litoral diverso do Ceará.


quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Moinho






Eu não sou muito boa nesse negócio de lidar com seres vivos.
 
Um dos cactos deu até uma florzinha, mas todo dia olho pras plantas meio ansiosa meio surpresa de ainda estarem resistindo.
 
Brinks, ainda adoro a cozinha.

Eu gosto das coisas que são bonitas para mim. E da coleção do Freud.

Estou inclinada a abrir mão do ceticismo e acreditar que o mundo acabou em 2012 mesmo.

Uma vontade: reler tudo que já li. Pelo menos os que ainda tenho em casa. Realidade: reempilhar de tempos em tempos, chorar um pouco folheando um ou outro, passar a semana espirrando.

Eu não tenho falado muito do crime que aconteceu em Brumadinho porque realmente não consigo. Cada pessoa é um mundo e me dói sua não mais existência material de uma forma aguda, especialmente porque não tenho nenhum conforto de fé, paraíso, reencarnação ou qualquer consolo transcendente. Lembro quando houve o massacre de Eldorado de Carajás e eu me refugiei no quarto e só chorava e chorava e chorava.

E na mesma lógica de cada pessoa um universo, logo a seguir vem a crueldade acintosa de proibir o Lula de ir velar o parente.

O mundo é um moinho, bem disse o Cartola.

Eu sempre achei que Heitor era o verdadeiro herói da Ilíada (e da Guerra de Tróia de maneira geral).

Eu escuto o Chico cantando "eu faço samba e amor até mais tarde" e fico pensando se meu tempo passou ou nunca existiu.

E tem aquela frase da Marguerite Duras sobre ter que escrever pra sentir que viveu de verdade (ou algo assim, não vou procurar agora). Euzinha pensava que sentia assim mas suspeito que as coisas realmente importantes e que quero manter vívidas eu tenho um certo pudor de compartilhar.

Daí, escrevo, são quase verdades quase mentiras e nem eu nem elas sabemos onde está a fronteira. Ou se há.

Eu acho bonitinho quando você ri e seu olho fica miudinho e um monte de risquinhos dão vislumbres das histórias que são suas e gosto quando o riso vai virando outra coisa, meio quente meio fome e aí eu já não tenho tempo de achar mais nada e apenas me perco mesmo.

Vejo as pessoas reclamando e penso: ain, que gente reclamona. Daí eu gargalho porque, né, eu sou chata demais. O mundo tentando se comunicar, abrir canais e eu pentelhando: nhé, não gosto de tumblr; nhé, não gosto do medium; nhé, não gosto de newsletter. A verdade é que eu gosto de boteco com mesa na calçada o que, na versão internética, é o superado blog. Só no blog, como no boteco, tem batuque que você não precisa acompanhar, muita conversa atravessada, você comenta atrasado e ninguém estranha e às vezes passa um desconhecido e te dá um abraço. Por isso fica a dica: Central do Textão.

É difícil respirar, mas ainda conseguimos fazer, de uma terça, domingo. E no sábado dormirei ouvindo o mar.A beleza do escritório: vou terminar este post, desligar o computador e subir só com livros pro quarto #nãomaisnotebooknacama


domingo, 6 de janeiro de 2019

Tomate seco, Finitude, Fé, Dias Melhores - e aquele quando maroto

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Você já viu o Rogerinho encerrando um programa do Choque de Cultura? Pois é assim que penso na vida e sua finitude: “cabô, cabô, cabô o programa”. Eventualmente dá pra passar uma mensagem final, enganar um pouquinho e se estender nos créditos, mas, é isso, cabô.... corta, Simone.

Eu não acredito em céu, inferno, reencarnação, vida após a morte, ressurreição, espírito, alma, deuses, divindades. No contraponto, eu sou encantada com rituais e manifestações religiosas várias. Tem pouca coisa na vida mais bonita que tirar um reizado. Não que eu me considere superior ou mesmo “fora a parte”. Sei bem demais que meus valores humanistas e liberais ocidentais tem imbricada relação com o cristianismo (embora os cristãos não os pratiquem com regularidade e tal). Liberdade, igualdade, fraternidade e penduricalhos variados, inclusive o meu antropocentrismo, tudo é oriundo deste caldo civilizacional que tem o cristianismo na lista dos ingredientes principais.

Entretanto tenho sorte suficiente pra, deste combo, ter escapado da Culpa (aquela maiúscula, judaico-cristã, relativa à moralidade, olha o pelo crescendo na mão, menino! fecha as pernas e olha como se senta, menina!). A culpinha, a neurótica, parente da maiúscula, tenho, como não, inclusive me apego, neurose é uma estrutura ok pra se viver com ela.

É isso, não sou de fé e religião, não estou fora do seu alcance.

Modi quê tô falando nisso? É que ontem eu estava assistindo “Selma”* e pensando no quanto a religião e a religiosidade são escorregadias na hora de tacar um rótulo. Ninguém pode contestar o estrago que a religião está fazendo no Brasil, fez no Irã e por aí afora. Uma merda. Ou nem isso, porque não serve nem de estrume. E, no entanto. Frei Tito. Dom Oscar Romero. Irmã Dorothy. O Martin Luther King. Eles não eram quem eram apesar da religião e da sua fé, mas por causa dela. Quando Martin Luther King convocou a Marcha, em Selma, grande parte das pessoas brancas mobilizadas eram religiosas (inclusive o que foi espancado até a morte pela KKK, um pastor branco de Boston).

Às vezes eu sinto, sim, falta do consolo que a fé, qualquer fé pode oferecer. E sinto saudades do tipo de vínculo que participar de igrejas e afins proporciona (não que seja exclusivo, em associações e cooperativas e assins assins também pode rolar, mas a minha experiência na Pastoral da Juventude do Meio Popular foi muito inspiradora, apesar da minha ausência de crença, a não ser, claro, aquela da canção: "fé na vida, fé no homem, fé no que virá...").

O fim dos anos 90. Toda a década seguinte. Agora vai.

De certa forma minha pollyanice compensava a falta de fé, vai dar certo, vai ser melhor, é mais lento do que eu desejaria, mas vamos indo. Qual o quê. Que enorme balde de água gelada. Desde o golpe eu me sinto andando em areia movediça. E sentindo coisas que não me são próprias. Raiva. Muita raiva. Desprezo, um enorme e crescente desprezo por muita, muita gente. E isso não me faz bem, eu gosto tanto de gostar de gente.

Eu ainda estou aqui,ainda o riso, a esperança, o bem querer, a busca pela igualdade, a sensibilidade ante a injustiça, ainda tanto, ainda muito. Mas também aqui a sensação de que o que eu tinha pra ver de bom, de avanço, de transformação pra melhor, eu já vi e já vi retroceder. E que, sim, dias melhores virão, mas eu não estarei neles.

"nenhum homem, nenhum mito, ninguém ache que pode deter este movimento. nós proibimos, pois sabemos que é essa escuridão que mata o melhor que há em nós e os melhores de nós (...) Vocês podem perguntar quando nos livraremos da escuridão. Digo hoje a vocês, irmãos e irmãs, apesar da dor, apesar das lágrimas, nossa liberdade logo estará sobre nós (...) quando seremos livres? em breve, muito em breve, porque nenhuma mentira pode viver para sempre"



* Selma é um filme bom com atuações excelentes. Daqueles que esfregam na nossa cara que a dor é nossa, é de agora, de ontem, de hoje, de ainda. 


** Quem inventou o tomate seco, meu muito obrigada. 


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