Eu
frequento Canoa Quebrada desde o comecinho dos anos 90 (posso ter ido, devo ter
ido, na década de 80, mas como criança, só me interessava o banho e o peixe) e
confesso que é dolorido ver algumas mudanças. A Broadway com sua rua de barro e
inúmeros bares onde se dançava de tudo (reggae, forró, rock, pop, mais forró,
brega, cada um no seu estilo, menos o bar do meio que era uma mistura de muitos
estilos) tornou-se uma rua de calçamento com lojas e mais lojas e onde não há
loja são restaurantes de donos italianos, portugueses e sei lá mais qual nacionalidade
(nada contra, adoro uma pizza, mas, poxa). Quando não tem aquela insuportável “música
ao vivo”.
Eita, então
se acabou tudo, pode-se pensar numa primeira pisada. Rá, bobinhos. Canoa tem
alguma coisa mágica que não se deixa vencer. Algumas coisa boêmia e inclusiva. Resistente.
Não há desigualdade, apropriação, capitalismo, turismo predatório que lhe roube
isso (ou ainda não teve, né). Canoa permanece uma vila de festa e riso e diversidade
e encanto e encontro noite adentro, ainda tem na rua de um tudo, hippies e suas
pulseirinhas, casais com filhos, velhinhos, maconheiros animados, gente muito emperiquitada,
gente de japonesa, gente jogando capoeira, gente bebendo caipirinha, gente
beijando gente, gente, gente, gente.
A
combinação de sons e pessoas e afetos é mágica na Canoa noturna e, tão mágica quanto,
é a combinação de cores na Canoa que acorda, azul, azul, azul, laranja,
amarelo, avermelhado e sei lá de que cor é o mar que mergulha na gente e a
gente se encontra nele. O mar de Canoa é uma celebração.
Há
praias na praia Canoa. Há praia pra quem vai pra ver, pra quem vai pra sentir, pra
quem vai pra lembrar, pra quem vai pra descobrir. Tem praia pra quem nada, quem
surfa, quem voa, quem durma. Tem praia para os madrugadores, para os de
ressaca, praia para as famílias, para os solitários, praia para os amantes e para
os grupinhos ruidosos. Tem praia pra quem vem no ônibus de turismo passar o dia
e tem praia para quem veio de férias, esqueceu da volta e foi ficando já faz
anos. Tem praia para o dono da pousada que deixa tudo aberto e vai cedinho
mergulhar e para o garçom que começa cedo, larga às 17hs e já fica boiando. Tem
praia para os de primeira viagem e para os que não conseguem deixar de voltar
lá, deixaram o umbigo, talvez. Há praias na praia de Canoa digo eu, mas não se
engane, não são lugares diferentes, é no mesmo lugar e quase sempre ao mesmo tempo,
é que Canoa se faz do jeito que precisamos dela, quando dela precisamos.
É
preciso um certo fôlego, não apenas pelas falésias mas pra viver todas as horas
e formas de Canoa. Quando sozinha, tenho uma rotina: praia cedinho, água de
coco, depois cerveja, pastel, cerveja, tira-gosto. Esquentou? Sobe. Tira um
cochilo. Acorda para o fim da tarde, pode rolar outro mergulho pra deixar um
certo sal na pele mesmo depois do banho, pôr-do-sol, alguma merenda, com sorte,
tapioca e café. Banho bem banhado,
descanso na rede de pé pendurado só vendo o tempo até a rua chamar ou a fome
apertar. Jantar. Bater perna prum lado e pro outro até dar liga em algum bar.
Senta e bebe. De frente pra rua, claro, que o melhor de Canoa são as gentes. Paquera,
se for dia de. Espera a madrugada pra sentir aquele prazer de voltar por vielas
adormecidas. E cedinho, tudo de novo: praia, banho, sono, lanche, praia, banho,
rua, janta, festa.
Perto
de muita água tudo é feliz. Eu sou.
De
tanto ouvir falar, cogitei, algum dia, quem sabe, férias em Morro de São Paulo.
Fui olhar as fotos e ponderei que Camocim tá de bom tamanho pra mim.
Aqui
vizinho tem outras praias de estilo totalmente diferente como Tremembé e
Redonda, em Icapuí. Praia pra deixar o vento sussurrar histórias perdidas,
deixar o tempo desenhar na pele e esquecer, um pouquinho, que viver dói.
Eu
tenho dificuldade de apreciar as praias de outros lugares, estados, países, é fato. Um tanto
porque não sou mulher de natureza, outro tanto porque fui mal acostumada com o
litoral diverso do Ceará.









