quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Moinho






Eu não sou muito boa nesse negócio de lidar com seres vivos.
 
Um dos cactos deu até uma florzinha, mas todo dia olho pras plantas meio ansiosa meio surpresa de ainda estarem resistindo.
 
Brinks, ainda adoro a cozinha.

Eu gosto das coisas que são bonitas para mim. E da coleção do Freud.

Estou inclinada a abrir mão do ceticismo e acreditar que o mundo acabou em 2012 mesmo.

Uma vontade: reler tudo que já li. Pelo menos os que ainda tenho em casa. Realidade: reempilhar de tempos em tempos, chorar um pouco folheando um ou outro, passar a semana espirrando.

Eu não tenho falado muito do crime que aconteceu em Brumadinho porque realmente não consigo. Cada pessoa é um mundo e me dói sua não mais existência material de uma forma aguda, especialmente porque não tenho nenhum conforto de fé, paraíso, reencarnação ou qualquer consolo transcendente. Lembro quando houve o massacre de Eldorado de Carajás e eu me refugiei no quarto e só chorava e chorava e chorava.

E na mesma lógica de cada pessoa um universo, logo a seguir vem a crueldade acintosa de proibir o Lula de ir velar o parente.

O mundo é um moinho, bem disse o Cartola.

Eu sempre achei que Heitor era o verdadeiro herói da Ilíada (e da Guerra de Tróia de maneira geral).

Eu escuto o Chico cantando "eu faço samba e amor até mais tarde" e fico pensando se meu tempo passou ou nunca existiu.

E tem aquela frase da Marguerite Duras sobre ter que escrever pra sentir que viveu de verdade (ou algo assim, não vou procurar agora). Euzinha pensava que sentia assim mas suspeito que as coisas realmente importantes e que quero manter vívidas eu tenho um certo pudor de compartilhar.

Daí, escrevo, são quase verdades quase mentiras e nem eu nem elas sabemos onde está a fronteira. Ou se há.

Eu acho bonitinho quando você ri e seu olho fica miudinho e um monte de risquinhos dão vislumbres das histórias que são suas e gosto quando o riso vai virando outra coisa, meio quente meio fome e aí eu já não tenho tempo de achar mais nada e apenas me perco mesmo.

Vejo as pessoas reclamando e penso: ain, que gente reclamona. Daí eu gargalho porque, né, eu sou chata demais. O mundo tentando se comunicar, abrir canais e eu pentelhando: nhé, não gosto de tumblr; nhé, não gosto do medium; nhé, não gosto de newsletter. A verdade é que eu gosto de boteco com mesa na calçada o que, na versão internética, é o superado blog. Só no blog, como no boteco, tem batuque que você não precisa acompanhar, muita conversa atravessada, você comenta atrasado e ninguém estranha e às vezes passa um desconhecido e te dá um abraço. Por isso fica a dica: Central do Textão.

É difícil respirar, mas ainda conseguimos fazer, de uma terça, domingo. E no sábado dormirei ouvindo o mar.A beleza do escritório: vou terminar este post, desligar o computador e subir só com livros pro quarto #nãomaisnotebooknacama


domingo, 6 de janeiro de 2019

Tomate seco, Finitude, Fé, Dias Melhores - e aquele quando maroto

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Você já viu o Rogerinho encerrando um programa do Choque de Cultura? Pois é assim que penso na vida e sua finitude: “cabô, cabô, cabô o programa”. Eventualmente dá pra passar uma mensagem final, enganar um pouquinho e se estender nos créditos, mas, é isso, cabô.... corta, Simone.

Eu não acredito em céu, inferno, reencarnação, vida após a morte, ressurreição, espírito, alma, deuses, divindades. No contraponto, eu sou encantada com rituais e manifestações religiosas várias. Tem pouca coisa na vida mais bonita que tirar um reizado. Não que eu me considere superior ou mesmo “fora a parte”. Sei bem demais que meus valores humanistas e liberais ocidentais tem imbricada relação com o cristianismo (embora os cristãos não os pratiquem com regularidade e tal). Liberdade, igualdade, fraternidade e penduricalhos variados, inclusive o meu antropocentrismo, tudo é oriundo deste caldo civilizacional que tem o cristianismo na lista dos ingredientes principais.

Entretanto tenho sorte suficiente pra, deste combo, ter escapado da Culpa (aquela maiúscula, judaico-cristã, relativa à moralidade, olha o pelo crescendo na mão, menino! fecha as pernas e olha como se senta, menina!). A culpinha, a neurótica, parente da maiúscula, tenho, como não, inclusive me apego, neurose é uma estrutura ok pra se viver com ela.

É isso, não sou de fé e religião, não estou fora do seu alcance.

Modi quê tô falando nisso? É que ontem eu estava assistindo “Selma”* e pensando no quanto a religião e a religiosidade são escorregadias na hora de tacar um rótulo. Ninguém pode contestar o estrago que a religião está fazendo no Brasil, fez no Irã e por aí afora. Uma merda. Ou nem isso, porque não serve nem de estrume. E, no entanto. Frei Tito. Dom Oscar Romero. Irmã Dorothy. O Martin Luther King. Eles não eram quem eram apesar da religião e da sua fé, mas por causa dela. Quando Martin Luther King convocou a Marcha, em Selma, grande parte das pessoas brancas mobilizadas eram religiosas (inclusive o que foi espancado até a morte pela KKK, um pastor branco de Boston).

Às vezes eu sinto, sim, falta do consolo que a fé, qualquer fé pode oferecer. E sinto saudades do tipo de vínculo que participar de igrejas e afins proporciona (não que seja exclusivo, em associações e cooperativas e assins assins também pode rolar, mas a minha experiência na Pastoral da Juventude do Meio Popular foi muito inspiradora, apesar da minha ausência de crença, a não ser, claro, aquela da canção: "fé na vida, fé no homem, fé no que virá...").

O fim dos anos 90. Toda a década seguinte. Agora vai.

De certa forma minha pollyanice compensava a falta de fé, vai dar certo, vai ser melhor, é mais lento do que eu desejaria, mas vamos indo. Qual o quê. Que enorme balde de água gelada. Desde o golpe eu me sinto andando em areia movediça. E sentindo coisas que não me são próprias. Raiva. Muita raiva. Desprezo, um enorme e crescente desprezo por muita, muita gente. E isso não me faz bem, eu gosto tanto de gostar de gente.

Eu ainda estou aqui,ainda o riso, a esperança, o bem querer, a busca pela igualdade, a sensibilidade ante a injustiça, ainda tanto, ainda muito. Mas também aqui a sensação de que o que eu tinha pra ver de bom, de avanço, de transformação pra melhor, eu já vi e já vi retroceder. E que, sim, dias melhores virão, mas eu não estarei neles.

"nenhum homem, nenhum mito, ninguém ache que pode deter este movimento. nós proibimos, pois sabemos que é essa escuridão que mata o melhor que há em nós e os melhores de nós (...) Vocês podem perguntar quando nos livraremos da escuridão. Digo hoje a vocês, irmãos e irmãs, apesar da dor, apesar das lágrimas, nossa liberdade logo estará sobre nós (...) quando seremos livres? em breve, muito em breve, porque nenhuma mentira pode viver para sempre"



* Selma é um filme bom com atuações excelentes. Daqueles que esfregam na nossa cara que a dor é nossa, é de agora, de ontem, de hoje, de ainda. 


** Quem inventou o tomate seco, meu muito obrigada. 


segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Em trânsito

Que eu me lembre, o único livro que eu abandonei foi Ulisses.

Falando em abandono, vez ou outra eu volto na cena pós capela-de-casamento de Cristina e Burke. É das cenas - e emoções - mais bem filmadas que eu já vi. Mas a cena que me toca mesmo, que é tão Cristina, vem no começo da temporada seguinte, quando ela fica sabendo que Burke pediu demissão, a forma como reage, aparentemente displicente, o corpo tensionando, ela se obrigando a continuar o que está fazendo. Olha, posso nem comentar. I'm fine. 




Tem dessas coisas que a gente não comenta porque nos deixa assustadoramente desnudos.

Eu tento resgatar o encanto de enviar cartas e afetos pelos correios mas o custo proibitivo e a demora inexplicável inibe os sentimentos.

luciana, luciana, nunca ligue no Telecine Cult, luciana.

Vi o primeiro episódio da série My Brilliant Friend e, como eu suspeitava, vou gostar um tanto. É filmada na Itália, com gente falando italiano, fala sério, como alguém pode não gostar? (mas, Luciana, você nem amou os livros! Amei mesmo não. Aliás, com Big Little Lies também foi assim – e eu amei a série, teci loas e tudo).

Pois se até hoje eu releio dedicatórias só pra ouvir o eco da voz do amigo dizendo Lucciana. 

Um dos poucos sonhos que tive e tenho é daqueles que nunca poderá ser realizado: dançar com Fred Astaire. Sempre que menciono isso eu me lembro e geralmente mais alguém corrobora, como muitos que trabalharam com ele mencionavam que ele era perfeccionista, exigente, difícil e talz. MAS. A gente vê ele dando uma voltinha na Audrey, na Rita, Ginger, Eleanor, Ann Miller, Cyd Charisse, Judy Garland, num cabide, numa capa, num chapéu e tudo, qualquer coisa, fica leve, gracioso, harmônico nos braços dele. Eu aguentaria, feliz, o mau gênio, pra ter três minutos disso.


Eu gosto de gente mas ando com muita preguiça das pessoas.


Somos em trânsito. Não mais, ainda não. O movimento é o que possibilita e é, também, o que impede. Com alguma sorte, cruzamentos. para quem acredita, as paralelas marcram encontro no infinito.


uma coisa realmente triste é não lembrar o sabor do seu beijo. eu lembro, sim, eu lembro, como você me fazia (me) sentir, lembro a sensação de desejo, ternura e aconchego, mas o gosto?  como era o gosto? 


Se a gente quisesse, se meu dinheiro desse.


Estou envelhecendo, né. Já suspiro, em pensamento, imaginando encarar aquela escada de casa daqui uns quinze anos. Não me atrai. Lavar três banheiros e um lavabo? Não quero. E, principalmente, suspiros, limpar os livros. Todos aqueles livros que se apegam à poeira com a mesma intensidade que eu me apeguei a eles. Ou mais. Estou envelhecendo, estou envelhecendo, estou envelhecendo, não quero magoar o joelho subindo escada, não quero escorregar lavando banheiro, não quero ter crises respiratórias limpando livros. Estou envelhecendo, tenho que começar por algum lugar a lidar com isso, daí resolvi doar mais uns tantos livros. Desapegar. Tá até na moda. Era pra ser mais fácil, viu. Tento estabelecer critérios: livros que consigo no kindle, os policiais, os que nunca reli, os que já reli bastante, os mais velhos, os menores, os maiores, os clássicos, só os de determinados autores de quem tenho muitos, só os de determinados autores que só tenho uma produção, estes, esses, aqueles, alguns, quais, quais, quais.


Eu sinto tanta falta do outono que até lixo no quintal me enternece:







segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Nunca é apenas


“Você só diz isso porque você é gorda”. Bom, eu sou mesmo, não pretendo deixar de ser e não vejo como um elemento da minha vivência poderia desmerecer um posicionamento meu sobre o assunto. Mas, olha, nem é “por isso”. Eu já tive, depois de ultrapassar 1,60m, ou seja, vida jovem e adulta, pesos variados, desde o 47 mais ou menos. Fotos minhas pós-gravidez chegam a ser meio assustadoras, de tão magra que eu estava. E sempre pensei essas coisas mesmas, com maior ou menor profundidade. Os argumentos podem ter melhorado, mas a sensação sempre foi a mesma.

um mundo em que uma criança que ainda nem aprendeu direito a falar "não se preocupe" já tem opinião sobre o que engorda é um mundo em que me custa muito viver (não coloquei nenhuma vírgula porque é bem difícil respirar mesmo, às vezes).

uma coisa que não faz sentido nenhum: perguntar se é namoro ou amizade. não são coisas excludentes, pô.

outra: dizer é "só" atração física. olha, atração física nunca é um apenas.

O Método Kominsky demanda um tubo de oxigênio e soro caseiro, a cada episódio. É uma Scania atrás da outra me atropelando, termino desidratada. A série entrega muito, eu me enterneço, rio e me deparo com meus medos, alegrias, angústias. É uma série madura, com temas delicados, diálogos inspirados e atuações envolventes. Envelhecer e sua beleza (a beleza é complexa). As perdas. A solidão. A amizade. A amizade, a amizade, a amizade.


Efeito colateral da estréia de Amiga Genial: enxurrada de expressões que me enervam, que nem esquedomacho, na minha TL. 

Ei, Luciana, você vai ver a série? mas não foi você que nem gostou dos livros? então, eu não achei os livros esta paçoca toda, mas eu li tudinho (eu leio até Sabrina se ainda cair na minha mão, gente, eu li Sidney Sheldon, leio demais a Ferrante). não considerei a tetralogia maravilhosa, achei ok. Vou ver a série, mesmo que seja bem fiel aos livros é outra linguagem - além disso  foi filmado na Itália, os atores são italianos, quem vai se desmanchar com o sotaque? o/

eu não sei paquerar. 

quem sabe eu mando uma garrafinha: pode ser ou tá difícil? ou o cartão da Renata Lins. 

eu gosto de mar. de boteco. de conversa sem rumo. de beijo na boca. gosto de gente. de prédios antigos. de fazer a mala. de comprar passagem. gosto de torresmo. de queijo, gosto muito de queijo. gosto de abraço, de contar história. de contar muitas vezes a mesma história. de ouvir. de abraçar. de fazer ciranda no terreiro, de fazer ciranda a beira mar, de fazer ciranda em reunião, aula, o que for. gosto de blusa decotada. gosto de batom vermelho - mesmo esquecendo de usar. gosto de cafuné. gosto de pele com pele. gosto de fresta, de brecha, de fenda, de deixar em aberto. gosto do quem sabe. gosto.

"tem que ter perna batendo com perna, 
coxa roçando com coxa, 
no umbigo e no pescoço, 
tem que ter um roça roça toda hora, 
um pra dentro outro pra fora, 
pra gente sentir o gosto"


segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Azul



Eu não encontro meu HD. Nem meu bom senso.

O amor é azulzinho. E a parede também.

A vida capricha na puxada de tapete.

Entreabrir a persiana ou escancarar a janela não faz diferença, será dia enquanto for e, depois, não mais. Vale o mesmo pro amor, acho.

Eu podia te fazer feliz, mas a felicidade não existe, escrevi em algum lugar e quase acreditei.

Eu sempre gostei da idéia de envelhecer. E tenho gostado do processo propriamente dito. Mas ninguém me avisou quantas saudades iam aparecer pra eu sentir. 

Todo amor acaba. Todas as pessoas morrem. A diferença entre a caixa de kleenex e o conto de fadas é o que chega primeiro. Final feliz é quando a gente morre antes do amor.

Sim, eu já escrevi tudo isso. Enquanto eu for em vazios, me ocupo como dá.

Quem eu fui continuo sendo, por isso copio e colo meu mal-dito.

Morangos. E mofados. Vontade de te mandar este livro, todo pintadinho com meus afetos.

Que jogão Boca X River. Futebol maior que avida, eu já disse? (post tão bom sobre a final, aperte aqui)

Parece que eu vou voltar pra Clarice.

Estamos brincando de cinema lá pelo FB. 10 filmes que me marcaram. Eu rio, claro. Eu nem sei dimensionar o lugar do cinema na minha vida. Como disse pra amiga, eu amo, amo, amo, todas as pessoas que fizeram todos esses filmes que me forjaram, que me sustentam, que me consolam, que me inspiram, que me nutrem. Todos estes filmes que iluminam minhas trevas, sim, mas que acolhem minhas sombras. Todos estes filmes que me completam, sim, sim, como não? e todos estes filmes que gritam minhas brechas. Filmes antigos, como eu nunca serei. Novinhos, como nunca fui. Meu amor pelos irmãos Lumiére e por todos que re-inventam o cinema cada vez que contam uma história.

Vai ter Toy Story 4 e eu nem duvido que vai ser maravilhoso.

2019 promete mazelas, tristezas, perdas, cansaço. Mas janeiro, ah, janeiro, meu janeiro será em abraços.

Eu queria ter te amado melhor, sabe. Não mais, não há régua ou balança para dimensionar bem querer. Eu não podia ter te amado mais, eu te amei inteira, eu te amei em cada linha escrita, eu te amei em cada livro ou disco enviado, eu te amei em lábios e pele e ânsia. Mas sim, eu queria ter te amado melhor.

Voltar para um abraço como quem atraca no cais. E deixar o lodo cobrir o casco.

Querendo trocar o nome do blog para "a coisa mais fina do mundo". Mentira, queria inventar blog novo, mas ninguém vai comigo, né? Se duvidar, nem eu.
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