Estou
tentando me convencer que o que vale é a experiência, o aprendizado, o
conhecimento construído porque ganhar dinheiro mesmo com meu doutorado parece
que é nunca.
E não
tem quem desate o nó que se ata, não consegui tirar um artigo que seja da bicha.
Pelejo, mas fico emperrada e só escuto o sussurro por dentro: ela ainda não
vale nada.
Eu sou capaz de pensar em dez filmes favoritos de faroeste sem nem respirar, se duvidar sou capaz de pensar dez só com o John Wayne.
Comprei
pastas, pastas coloridas. Agora vai.
Sou um
fracasso como mulher autônoma: não consegui montar meu apoio ergonômico, aka suporte
pra pés.
43 anos, já tá bom de começar a me endividar por razões mais maduras, né.
Faço longas cartas pra alguém.
Queria
estar falando ternuras. Entre sussurros de bobagens carinhosas: deixa eu ficar
no seu abraço. Queria escrever, como quem lança sementes em terreno fértil:
amor, desejo, ontem, sempre, quando, depois, agora, querido. Queria poder
tocar. Ignorar geografia e tempo, estender a mão, leve, fortuita e
delicadamente encontrar sua pele. E deslizar, como quem reconhece território
para nele fazer morada. Queria ouvir seu forasteiro gemido, porque a voz do
Outro é estrangeiro que às vezes faz morada. Queria não fazer planos,
descansando o amor na certeza de um agora. Queria dividir o travesseiro.
Encaixar minha coxa na sua. Queria era cuidar de miudezas: pão, cebola, café,
alimentar o corpo, saciar o desejo. Enfileirar cervejas, esse cruzamento de
estradas que somos. Queria era facilitar sua vida. Cantar, como o Chico, que
ajeitava o meu caminho para encostar no seu. Queria era passar estações,
reclamar do frio, reclamar do calor, celebrar as mudanças com você. Queria ver
a lua. As luas. Minguante a cheia, deixar a vida fazer seu ritmo em uma cama
compartilhada. Queria era dividir sonhos. Segurar na mão. Saber do trabalho. Fazer
álbuns. Enfileirar poentes. Queria era mergulhar no mar e lamber o sal no seu
pescoço. Entrelaçar dedos. Rir junto, olho brilhando. Queria abraçar com fome,
desabotoar camisa, acordar a tua vontade. Queria ser repouso, depois. Alegria,
durante. Queria era lhe ver cochilando no meu ombro. Queria diminuir
distâncias. Fazer pontes. Não posso. Escaneio memórias, rabisco perguntas. E conjugo futuros dos pretéritos.
Status: reescrevendo textos, quero mais é uma realidade inventada #claricefeelings
Status: reescrevendo textos, quero mais é uma realidade inventada #claricefeelings





