quinta-feira, 25 de outubro de 2018

A Gente Vai Levando


Tem dia que é aquele nó no peito? Tem. 
Tem choro fácil? Sim. 
Um certo receio, por mim, pelos amigos, pelos que lutam? Muito. 
Uma mágoa espantada dos que ignoram a crueldade? Ô.

Mas tem também esta campanha bonita, que emociona, tem gente oferecendo bolo e conversa na rua, tem gente cantando (#cirandeirasim) nas manifestações, tem abraço, tem acolhida, tem cuidado. E tem o Chico Buarque comovido. Resisto. Resistimos.


Claro que eu preferia estar no teu abraço. E cerveja gelada, acho que nos bastava um copo. #SaudadesBelchior.

Só pra saber tua boca outra vez na minha. Só pra saber minha pele esquentando a tua. Só pra saber se o seio cabe na mão, se a língua encontra o percurso, se os corpos se encaixam. Só pra saber se é memória, possibilidade ou delírio. Só pra saber.


estou cansada de lutar contra a Hidra de Lerna, a gente esclarece um ponto tem duzentos vídeos imbecis circulando chafurdando na merda da desinformação, aproveitando a formação política e cultural insuficiente , notícia distorcida, meias verdades, mentiras inteiras e as pessoas assistindo, repassando, assinando, sem ler um livro, um artigo científico, sem pensar criticamente, sem contextualizar, sem ver o processo histórico, nada. estou exausta da linguagem violenta, do desejo de aniquilação, da pulsão de morte batendo na porta. eu sou e serei resistência com meu corpo, meu discurso, minha presença, meu trabalho, meu sorriso, minha biscatagem. mas sou e serei onde e com quem eu possa existir. não vou mais tentar resgatar laços esgarçados, não vou mais ler e retorquir bobagens que qualquer busca no google e pensamento crítico poderia fazer rever. Não vou mais acolher o ódio.

Eu já disse mais de uma vez que perdi muito nestas eleições. Daí ontem li uma das coisas mais bonitas e confortadoras e era mais ou menos assim: nestes últimos dias de campanha perdemos mais uma coisa, perdemos o medo.

Enquanto houver Mangueira. Resisto. Resistimos:

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Da Cor do Tempo




O mundo caindo e tem gente pensando em beijo na boca. Eu, no caso.

Escrevi carta, envelopei desejos inconfessos.

Tem coisas que sei sem lembrar. Não tenho dúvida que o desejo vem com seu jeito de reclinar a cabeça enquanto eu falo. E como eu falo! eu sei, você sabe, você ri de mim, não, você ri comigo. Você sorri, não de todo, o riso chega mais aos olhos que aos cantos da boca. Você sorri, nem sempre pra mim, nem sempre por mim, mas sempre que sorri parece que o ar me falta. Era assim? Era, eu sei, sem lembrar.

Eu não consigo olhar tão pra trás, dói-me o pescoço com o torcicolo de bem querer a vida vivida. Mas praquela noite recente eu guardo o arrependimento de não ter sido em coragens.

“quero uma verdade inventada” – Clarice, aquela.

Escrevo, porque o que mais pode fazer quem tem o corpo no exílio? Eu podia sussurrar, mas tenho medo que alguém escute: teu abraço é minha pátria.

Eu faço de conta que disfarço enquanto anuncio anseios em enormes outdoors na beira da sua estrada.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

5 1/2 Poente

y se me olvido todo y la Sirena me recordó todos los sonidos.


A gente esquece. Ou pensa que. Parece até que nunca ouviu Bethânia cantando, “bate é na memória da minha pele”. De repente, um abraço. Tem gente que lembra de tudo. Eu, de quase nada, dito, feito, visto, ouvido. Mas não há olvido para as sensações. Há lembrança, e tanta, do que me fez bem. E ainda faz. Eu falo muito e há coisas que ainda não sei dizer. Talvez nunca saiba. Pode ser que não existam palavras para o que provavelmente nunca devesse ser. As cartas não são favoráveis. Ainda assim, o coração acelera e o sangue faz corar quando uma mensagem qualquer apenas é. Parece que foi ontem. Ou nem. Tanta coisa, tanta vida desde a última vez. Ainda se usava telefone. Uma frase assim quase cheira a guardado. Quase, não fosse a sensação de que agora, quem sabe. É como se. Podemos escanear o passado e trocar saudades. Como eu era no seu olhar? O que eu ainda sei: o conforto. O encaixe. Poder dizer. Rir. Tocar. Devia ter te tocado mais. Podia? Contato físico. Você gosta. Tão bonito apenas dizer: sim, eu gosto. Também eu. Gosto. Do contato físico, digo (e completo, só pra mim: do contato com você). Eu não me arrependo das grandes coisas, só das minhas pequenas mancadas. Podia ter sido mais eu e você. Mais cerveja, menos distração. Mais abraços. Muitos abraços mais. Estamos a uma língua de distância. Ou duas. Uma palavra bem dita e as lembranças que eu levaria na mala seriam outras? Ou não era nada disso, era apenas um isto, uma recordação bonita comprovada, uma gentileza, uma conversa fácil. Sempre foi fácil, com você. Eu suspiro. A gente (a gente sou sempre eu) esquece. Ou pensa que.  

não há vento favorável, eu sei. Porém durmo cantarolando: "mas se o destino insistir em nos separar, danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas, os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos, profetas, sinopses, espelhos, conselhos..."



sábado, 1 de setembro de 2018

Constituição de 88


Em 1988 eu tinha 13 anos. Não era muito de ver tv, gostava mesmo era de ler de Kafka a Bárbara Cartland passando por aqueles faroestes pequeninos e clássicos brasileiros. Eram esses os canais de informação: pouca tv, ler o jornal (meu pai assinava o Diário do Nordeste) e divagar pensando nos paqueras.

No colégio, estava na 8a série, preocupada com Química e Física. Amava as aulas de História. E era lá que eu acompanhava a Assembléia Constituinte. O professor (ou em 1989? quem manda não ter memória boa?) passava atividades, fazia a gente ler sobre, realizar trabalhos em grupo, essas coisas. Era colégio de freira, mas os tempos eram outros, havia uma empolgação no ar com o tema, liberdade, igualdade, as campanhas da fraternidade falavam de racismo, crítica ao poder da mídia, exclusão social. E a Constituição se apresentava ali como uma promessa de colocar o Brasil no caminho de ser um lugar melhor pra mais gente.

E, um dia, meu pai chegou em casa com ele, aquele livrinho de capa predominantemente verde. Comprou? Ganhou? eu nunca soube. Sei que passou a fazer parte da estante e eu, que lia tudo, até aquelas páginas iniciais das listas telefônicas (não os nomes das pessoas, gente!), li também o livrinho todo. E ele me emocionou, apesar das frases complexas, das promessas incompletas, da linguagem em juridiquês.

Hoje tenho 43 anos e nos 30 que se passaram entre um momento e outro, tive vislumbres de que poderíamos percorrer aquele caminho que mencionei. Participei da implantação de conselhos municipais, fiz planejamento com federação de associações comunitárias, dei assessoria a conselhos escolares, vi a formação de agentes comunitários de saúde, o SUS se solidificar, vi o Bolsa-Família dar estabilidade e possibilidades a uma grande parte da população, passei em um concurso público em uma Universidade Federal no interior do Nordeste, vi o acesso ao ensino superior se ampliar, lutei, vi, senti, me alegrei. Esperancei.

Hoje me assalta uma tristeza enorme e uma raiva impotente do que se está fazendo com a Constituição de 88. Opa, não, uma tristeza enorme e uma raiva impotente com tudo que estão fazendo conosco ao vilipendiarem a Constituição de 88. A precarização do SUS, do trabalho, da vida. Os olhos compridos pra cima da educação, querendo privatizar tudo. A qualidade de vida dos idosos ameaçada e as pessoas em situação de vulnerabilidade, desassistidas.

Eu não sou uma pessoa especialmente sabida. Não tenho sólida formação política, não sei fazer sofisticadas análises de conjuntura. Tenho este apego ingênuo a coisas como democracia, liberdade, vida humana e uma surpresa estarrecida que não seja o banal pra todo mundo.

Olho a imagem abaixo e fico pensando no que se perdeu e me perguntando quanto tempo, quanta luta, quanta dor, quanta morte será preciso não para alcançar o bom - que nunca tivemos, sabemos todos - mas pelo menos o vislumbre de uma estrada em direção a.

Eu não sou das que sentem saudades da juventude ou algo assim. Mas volta e meia eu vou lá e dou uma espiada no texto Dela, mesmo moribunda... dou um suspiro sempre que passo pelos artigos 5 e 6. Minha querida Constituição de 88.



quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Sou dessas mulheres que só dizem sim

"tomara a maior parte das coisas ser bonita
 e já lhes bastaria"

Porque tem dia, tem hora, tem dor, que pede um peito maior. Um cigarro pela metade. Um pouco de silêncio. Uma bebida quente. Algum azul. 

eu me sinto esquisita lendo as discussões de intenções de voto. se eu voto no Boulos, votaria no Freixo, na Helena Vieira, em quem quer que fosse do PSOL e que o partido indicasse pra concorrer à presidência. Se eu voto no Lula votaria no Haddad, na Gleise, no Olívio Dutra, em quem quer que etc. É por isso que não voto em Ciro e Marina no primeiro turno. É por isso que não entendo o incômodo com a estratégia do PT. 

eu sou inocente e tola o bastante pra ainda achar que não só não se governa sozinho como se deve governar a partir de plataformas, ideias e projetos construídos coletivamente e compartilhados ideologicamente. Sou inocente e tola o bastante pra ainda pensar que não devemos ter uma esquerda forte mas partidos de esquerda fortes - assim como fortes partidos de centro e de direita, com propostas claras, projetos de país bem estruturados pra que se possa votar e acompanhar as decisões políticas a partir das nossas utopias e anseios.

e, sim, eu tenho medo, mas mais do que e além do medo, eu tenho esperança. "fé na vida, fé no homem, fé no que virá". não porque naturalmente se evolua ou porque o ser humano é bom, mas confiança nas pessoas que conheço, que sonham, que lutam, confiança nas associações de moradores, nos conselhos, nos sindicatos, nas pessoas que vêem as outras pessoas como pessoas. 

O bom, o mau e o feio - e olha que beleza que era. Deve ser isso quando se diz: "ética e estética".


   

Cambia, todo cambia, escuto Mercedes Sosa e lembro, contente, da luciana que abraçava árvores, amigos e as possibilidades todas de vida. E o amor imenso pelas pessoas lindas que me inspiravam. Me abraçavam. E às árvores também, como não.

vou nem mentir: adoro minhas fotos de perfil do FB. 

Eu vi uma espécie de tutorial/reclamação/explicação sobre cafuné e cabelos crespos e só posso pensar que as pessoas não sabem fazer cafuné. Olha só, é como um mini cascudo, mas só com o polegar, não tem nada de nada com correr os dedos pelos fios de cabelo, pelamor.

Assisti o filme romance-água-com-açúcar-meio-comédia juvenil e, olha, tá dureza, tá difícil viver os tempos que correm, mas tem uns avanços sutis nas narrativas que até me dão vontade de suspirar de contente – e é o caso desse filme. Sim, é a mesma premissa de coisas como “namorada de aluguel”, mas não tem nenhuma modificaçãozinha que seja de uma pessoa por causa da outra, especialmente não tem modificação física/estética. Eles se descobrem, se curtem, se envolvem e isso é bom. Ponto. 

(melhor seria se ela tivesse vários relacionamentos com os vários moços das cartas, mas, né, não dá pro filme ser minha biografia, suspiros meus 16 anos) 

(sim, eu lembrei daquele beijo tão gentil)




Quem é o melhor personagem de Friends e porque é Ross presenteando Phoebe com a bicicleta - e não só comprou, né, a narrativa toda é muito fofa, amigável, enternecedora (não, isso não significa que ele é meu personagem preferido – alguém consegue ter um?, significa apenas que tem momentos que atropelam a gente feito um trator desgovernado e ver este episódio foi um bálsamo). 

Sim, seu moço, eu sei que podíamos ter sido felizes. Mas não acho triste pensar nisso. Acho bonito saber que tantas vidas que não vivi seriam boas como esta.

Faz dois anos que o estofo da Dilma me fez querer ainda mais ser uma pessoa melhor. 

Três coisas me são difíceis de entender e uma ignoro totalmente: o percurso da águia no ar, o caminho da cobra sobre a pedra, o trajeto da nau no mar e de qual versão de The Way You Look Tonight eu gosto mais.

Eu reciclo frases. Pior: eu repito.


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