Em 1988 eu tinha 13 anos. Não era
muito de ver tv, gostava mesmo era de ler de Kafka a Bárbara Cartland passando
por aqueles faroestes pequeninos e clássicos brasileiros. Eram esses os canais
de informação: pouca tv, ler o jornal (meu pai assinava o Diário do Nordeste) e
divagar pensando nos paqueras.
No colégio, estava na 8a série, preocupada com Química e Física.
Amava as aulas de História. E era lá que eu acompanhava a Assembléia
Constituinte. O professor (ou em 1989? quem manda não ter memória boa?) passava
atividades, fazia a gente ler sobre, realizar trabalhos em grupo, essas coisas.
Era colégio de freira, mas os tempos eram outros, havia uma empolgação no ar
com o tema, liberdade, igualdade, as campanhas da fraternidade falavam de
racismo, crítica ao poder da mídia, exclusão social. E a Constituição se
apresentava ali como uma promessa de colocar o Brasil no caminho de ser um
lugar melhor pra mais gente.
E, um dia, meu pai chegou em casa com ele, aquele livrinho de
capa predominantemente verde. Comprou? Ganhou? eu nunca soube. Sei que passou a
fazer parte da estante e eu, que lia tudo, até aquelas páginas iniciais das
listas telefônicas (não os nomes das pessoas, gente!), li também o livrinho
todo. E ele me emocionou, apesar das frases complexas, das promessas
incompletas, da linguagem em juridiquês.
Hoje tenho 43 anos e nos 30 que se passaram entre um momento e
outro, tive vislumbres de que poderíamos percorrer aquele caminho que
mencionei. Participei da implantação de conselhos municipais, fiz planejamento
com federação de associações comunitárias, dei assessoria a conselhos
escolares, vi a formação de agentes comunitários de saúde, o SUS se
solidificar, vi o Bolsa-Família dar estabilidade e possibilidades a uma grande
parte da população, passei em um concurso público em uma Universidade Federal no
interior do Nordeste, vi o acesso ao ensino superior se ampliar, lutei, vi,
senti, me alegrei. Esperancei.
Hoje me assalta uma tristeza enorme e uma raiva impotente do que
se está fazendo com a Constituição de 88. Opa, não, uma tristeza enorme e uma
raiva impotente com tudo que estão fazendo conosco ao vilipendiarem a
Constituição de 88. A precarização do SUS, do trabalho, da vida. Os olhos
compridos pra cima da educação, querendo privatizar tudo. A qualidade de vida
dos idosos ameaçada e as pessoas em situação de vulnerabilidade, desassistidas.
Eu não sou uma pessoa especialmente sabida. Não tenho sólida
formação política, não sei fazer sofisticadas análises de conjuntura. Tenho
este apego ingênuo a coisas como democracia, liberdade, vida humana e uma surpresa
estarrecida que não seja o banal pra todo mundo.
Olho a imagem abaixo e fico pensando no que se perdeu e me
perguntando quanto tempo, quanta luta, quanta dor, quanta morte será preciso
não para alcançar o bom - que nunca tivemos, sabemos todos - mas pelo menos o
vislumbre de uma estrada em direção a.
Eu não sou das que sentem saudades da juventude ou algo assim.
Mas volta e meia eu vou lá e dou uma espiada no texto Dela, mesmo moribunda...
dou um suspiro sempre que passo pelos artigos 5 e 6. Minha querida Constituição
de 88.





