quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Walk tall, Torres


A gente pensa que não sente até sentir a lágrima quente salgando a ponta da língua.

Eu sempre digo que não dá pra saber qual a melhor opção, qual o caminho certo, porque a vida é o que se faz ao ser e não uma prova de vestibular com questões de múltipla escolha. Nem sempre é fácil saber o que eu sei.

Eu sempre gostei de homens que fumam. Um excesso de Bogart na adolescência, talvez. O certo é que a fumaça na varanda sombreada assombra minhas madrugadas vez em quando. Ou isso ou essa tosse é doença.

Queria fazer o escritório. Arrumar os banheiros. Viajar. Odeio que a minha vida seja em conectivos de ideias alternativas e não conectivos de adição.

Ando tão cheia nem sei de quê que ando igual ao Benito, não trabalho porque tenho que me divertir, não me divirto porque tenho que trabalhar. As horas vão escorrendo entre os inertes dedos e o dia passou sem eu fazer dele ou nele o que quer que seja.

Propondo um novo tempo verbal: o futuro mais-que-perfeito.

Vai, menino, que eu não posso viver uma vida por você.

Agosto, o mês que nem começou direito e eu já sei que só vou torcer pra que acabe logo.

Não tenho mais esperança que aconteça, mas eu já quis muito ser uma pessoa mais legal pra ter mais gente gostando de mim. Eu, por exemplo.

Então a dor do parto é assim.

Aquele pedido encarecido aos cientistas: uma lente de óculos que não suje.

Eu poderia ter te amado se soubesse como.

Já gastei todas as palavras. Ficam os assombros.

O mais bonito na minha vida, neste momento, são as gemas laranjinhas de uns ovos caipiras com manteiga e sal.

É tanta entrelinha que já penso em com elas fazer um bordado. 



terça-feira, 31 de julho de 2018

O Sertão da Gente Minha



Pois lá tem minha gente. Abraço que chega meio de lado. Sorriso que nem precisa de dente.  Açude. Garrafa de feijão enchendo um quarto. Memória em hipérboles de deixar meu riso ainda mais solto. Carne torrada. Fogão a lenha. Jogo de baralho. Pé descalço. Anos que nem parecem ter sido mas foram muitos e doloridos. Cartão de aposentado pra um, 3 doses de cachaça por dia pra sustentar as pernas do outro que pega num pega os cem anos. Conversas. Apostas. Ausências. Leite da vaca – e se você faz a piadinha de que sempre é da vaca não sabe mesmo do que estou falando. Gema tão laranjinha que parece pintada com giz de cera. Galinha no terreiro, capote solto além da cerca. Uma pessoa que passa pra agradecer um favor antigo e toma um café. Uma buzinada na estrada pra saudar. Outro que compra fiado uma garrafa de vinho de 5 reais. Uma rede na varanda. Vento na varanda. A vida na varanda. Antena. Celular sem sinal. Cafuné. Caçar cabelo branco. Jerimum caboclo. Pizza, viva. Crianças. Casa nova. Concurso, moto, trabalho. Formaturas e orgulho. Azulejo. História de trancoso. Onça, alma, adevogado, paquera, madrinha, festa de são Gonçalo, barca de noé. A arte de contar, se alguém pensa que já viu, se não for esta, foi muito pouco quase nada. Gente de toda idade passando em moto, chega dá aperto no peito. Mãe Bia, Capazorelha, O Vó, Pai Sal, gente que já não está mas é como se. "Manel, qué casar com uma santa?". Relógio de ouro. Parede que fala, boneca que dança ao som de palmas, calça rasgada num susto, bolsinha perdida e achada, "vestigar". Um passado dolorido, mas também bonito. Um presente bonito, mas também dolorido. Eu fui. Fui? Lá chegando, já estava. Pois lá tem minha gente. 



Lamento um bocado não morar perto de vocês e poder sentar num boteco e contar todas as histórias dos meus tios (tios-avôs) e os aprendizados e conclusões decorrentes. Claro que é triste pra mim, mas que perda imensa pra vocês.


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Uma maldade. Nós somos uma sociedade excludente e cruel. Dá uma angústia andar pelo sertão e ver, retornando, a miséria, falta de perspectiva, ver de novo a fome, crianças fora da escola, pedindo, homens sem trabalho, tapando buraco na estrada, arriscando-se por uma moeda ou cédula de pequeno valor. Nossa sociedade é torpe. 

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Uma espécie de Dory


Pode ser o jeito como você anda. O timbre da sua voz. O modo como qualquer parte do meu corpo parece caber exata na sua mão. O cheiro morno do seu pescoço. A forma como para, às vezes, e fica me olhando nos olhos mas vendo uma pessoa que eu não sei direito ser. Logo se agigantam os meus braços, se movem descoordenadas as mãos, o corpo bambeia e a pele fica quente. Ou pode ser só aquele vinco que todas as suas calças tem, tão bem engomadas, tão estranhas ao seu jeito distraído. Pode ser porque era tarde, a vida em crepúsculo e tem tons mais lindos que os de bronze, laranja e aquele amarelo avermelhado mesmo que provavelmente já tenha ido mais tempo do que o que vem? Pode ser porque você nunca diz o que eu espero, mas sabe suspirar na hora exata quando vê um filme que eu gosto. Pode ser apenas porque fizemos ser, sempre fui boa em inventar histórias e você, é bom em quê?

As bíblias do mês: O Poderoso Chefão, Relações Perigosas, Fogos, A Filha Pródiga, A insustentável leveza do ser.

Os refúgios: qualquer um da Agatha, As Crônicas de Arthur, Memórias Póstumas de Brás Cubas, A Pátria de Chuteiras, qualquer um do LFV.

Quando eu era pequena, ali entre os 8 e os 11, 12, a gente brincava de ser ou de ter alguém. Sabe o Ray do Menudo? Era o meu. Nas Panteras eu era a Jill (não queria ser a Sabrina porque ela parecia que nunca entrava no caso diretamente e muito menos a Kelly que sempre se envolvia amorosamente com o bandido). Quando eu era pequena, eu disse?

É um pouco irônico que, tendo vivido tanta coisa boa, tenha uma memória tão ruim. Eu sei que vivi. Mas o quê mesmo?



terça-feira, 24 de julho de 2018

Me, Dorian, You, Jane

Uma verdade sobre mim: pelo diagnóstico do senso comum eu sou bem hipócrita. Eu falo coisas boas. Procuro fazer coisas boas. Tento sempre, me dedico a reproduzir o bom e o justo. E, por dentro, sou uma confusão de maus pensamentos, desejos obscuros, críticas ácidas, invejas biliosas, tudo feio, decadente, brutal. 

Se eu tivesse um retrato que nem o do Dorian ia ser engraçado, metade horroroso (a parte que o quadro representasse o "por dentro") e metade lindeza esplendorosa (se revelasse ações e intenções).


Mas se não tem vida que segue tem futebol brasileiro que segue e em agosto temporada europeia que segue, campeonato mundial sub-20 feminino que segue, etc.

Como é o nome daquela lei da incompetência? Porque eu cheguei lá.

Pensando aqui que o Craque Daniel disfarçou que se referia aos campeões mundiais, mas estava pensando em mim quando pensou naquele lance da caçamba.

Futebol é uma forma de respirar.

Daí ontem eu falei bem da série, como contar pra vocês que os roteiristas estragaram tudo pra mim com os dois últimos episódios (que nem via ainda porque o mote é justamente o que me irrita)

Cadê um gênio da lâmpada pra arrumar a casa quando a gente mais precisa dele?

Status: precisando pegar no tranco. 

Vinícius de Moraes é uma espécie de massagem cardíaca.



segunda-feira, 23 de julho de 2018

Xaxando


Eu nunca me afoguei, mas imagino que seja um pouco parecido com isso. A gente (a gente sou sempre eu) vai cada vez mais fundo e fica cada vez mais difícil voltar à superfície. É cansativo. Demanda força e uma certa inocência de supor que vai ser diferente se voltarmos à tona. Cada vez que imergimos, a gente (eu, eu, eu) se pergunta se vale a pena mesmo todo esforço que vem acompanhado daquela queimação no peito, olhos ardendo, engasgo. E, no entanto. Rufem os tambores, ou melhor, vamos colocando o Luiz Gonzaga na vitrola: “ói eu aqui de novo, xaxando, ói eu aqui de novo para xaxar”.



A verdade é que minha vida tem sido um pouco como a frase: há coisas boas e novas, as novas não são boas e as boas não são novas.

Eu tenho visto uma série (mais uma) policial nórdica. Disse mais uma, mas nem. Primeiro porque ela não tem aquele crime que se desenrola pela temporada toda que é legal mas às vezes a gente se pergunta se precisa mesmo tanto vai e vem pra descobrir um lance em cidade pequena. Bordertown, não, tem um pegada quase de série americana e aí tá tudo desenrolado em três episódios (eu disse quase porque tem algo que atravessa tudo e permanece). Outra coisa legal é que no começo a gente pensa: mais um detetive estranho com dificuldade de se relacionar. Aí, tchans: ele faz sexo amorosamente e com regularidade, a filha o ama, ele faz amigos, não é “problema de comunicação”: a esposa esconde umas coisas dele só porque ele curte descobrir e talz. Quando você pega o clima, puxam o tapete e os probleminhas de relacionamento, não os óbvios, os sutis, aparecem mesmo.

Meu tempo não tem dado pra nada e, concomitantemente (sim, eu gosto desta palavra, me julguem) nada tenho feito. Nem ver os programas de reforma e comida na tv. Nem terminar a série que mencionei. Nem ler direito. Nem arrumar a casa. Cozinhar. Só fazer o básico do básico o trabalho e ver a noite virar dia e o dia virar noite.

Num desses esforços de pôr a cabeça fora d’água comprei umas roupinhas e os alunos terão uma professora que não vai mais pra aula com a roupa desmanchando.

Luciana mas por dentro pedro pedreiro.

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