Pois lá tem minha gente. Abraço que chega meio de
lado. Sorriso que nem precisa de dente. Açude. Garrafa de feijão enchendo um quarto.
Memória em hipérboles de deixar meu riso ainda mais solto. Carne torrada. Fogão
a lenha. Jogo de baralho. Pé descalço. Anos que nem parecem ter sido mas foram
muitos e doloridos. Cartão de aposentado pra um, 3 doses de cachaça por dia pra
sustentar as pernas do outro que pega num pega os cem anos. Conversas. Apostas.
Ausências. Leite da vaca – e se você faz a piadinha de que sempre é da vaca não
sabe mesmo do que estou falando. Gema tão laranjinha que parece pintada com giz
de cera. Galinha no terreiro, capote solto além da cerca. Uma pessoa que passa
pra agradecer um favor antigo e toma um café. Uma buzinada na estrada pra
saudar. Outro que compra fiado uma garrafa de vinho de 5 reais. Uma rede na
varanda. Vento na varanda. A vida na varanda. Antena. Celular sem sinal.
Cafuné. Caçar cabelo branco. Jerimum caboclo. Pizza, viva. Crianças. Casa nova.
Concurso, moto, trabalho. Formaturas e orgulho. Azulejo. História de trancoso. Onça,
alma, adevogado, paquera, madrinha,
festa de são Gonçalo, barca de noé. A arte de contar, se alguém pensa que já
viu, se não for esta, foi muito pouco quase nada. Gente de toda idade passando
em moto, chega dá aperto no peito. Mãe Bia, Capazorelha, O Vó, Pai Sal, gente
que já não está mas é como se. "Manel, qué casar com uma santa?". Relógio de ouro. Parede que fala, boneca que dança ao som de palmas, calça rasgada num susto, bolsinha perdida e achada, "vestigar". Um passado dolorido, mas também bonito. Um presente bonito, mas também dolorido. Eu fui. Fui? Lá chegando, já estava. Pois lá tem minha gente.
Lamento um bocado não morar perto de vocês e
poder sentar num boteco e contar todas as histórias dos meus tios (tios-avôs) e
os aprendizados e conclusões decorrentes. Claro que é triste pra mim, mas que
perda imensa pra vocês.
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Uma maldade. Nós somos uma sociedade excludente
e cruel. Dá uma angústia andar pelo sertão e ver, retornando, a miséria, falta
de perspectiva, ver de novo a fome, crianças fora da escola, pedindo, homens
sem trabalho, tapando buraco na estrada, arriscando-se por uma moeda ou cédula
de pequeno valor. Nossa sociedade é torpe.






