Uma verdade sobre mim: pelo
diagnóstico do senso comum eu sou bem hipócrita. Eu falo coisas boas. Procuro
fazer coisas boas. Tento sempre, me dedico a reproduzir o bom e o justo. E, por
dentro, sou uma confusão de maus pensamentos, desejos obscuros, críticas
ácidas, invejas biliosas, tudo feio, decadente, brutal.
Se eu tivesse um retrato que nem o do Dorian ia ser engraçado, metade horroroso (a parte que o quadro representasse o "por dentro") e metade lindeza esplendorosa (se revelasse ações e intenções).
Mas se não tem vida que segue tem
futebol brasileiro que segue e em agosto temporada europeia que segue, campeonato
mundial sub-20 feminino que segue, etc.
Como é o nome daquela lei da
incompetência? Porque eu cheguei lá.
Pensando aqui que o Craque Daniel
disfarçou que se referia aos campeões mundiais, mas estava pensando em mim
quando pensou naquele lance da caçamba.
Futebol é uma forma de respirar.
Daí ontem eu falei bem da série, como
contar pra vocês que os roteiristas estragaram tudo pra mim com os dois últimos
episódios (que nem via ainda porque o mote é justamente o que me irrita)
Cadê um gênio da lâmpada pra arrumar a
casa quando a gente mais precisa dele?
Status: precisando pegar no tranco. Vinícius de Moraes é uma espécie de massagem cardíaca.
Eu nunca me afoguei, mas imagino que
seja um pouco parecido com isso. A gente (a gente sou sempre eu) vai cada vez
mais fundo e fica cada vez mais difícil voltar à superfície. É cansativo. Demanda
força e uma certa inocência de supor que vai ser diferente se voltarmos à tona. Cada vez
que imergimos, a gente (eu, eu, eu) se pergunta se vale a pena mesmo todo
esforço que vem acompanhado daquela queimação no peito, olhos ardendo, engasgo.
E, no entanto. Rufem os tambores, ou melhor, vamos colocando o Luiz Gonzaga na
vitrola: “ói eu aqui de novo, xaxando, ói
eu aqui de novo para xaxar”.
A verdade é que minha vida tem sido um
pouco como a frase: há coisas boas e novas, as novas não são boas e as boas não
são novas.
Eu tenho visto uma série (mais uma)
policial nórdica. Disse mais uma, mas nem. Primeiro porque ela não tem aquele
crime que se desenrola pela temporada toda que é legal mas às vezes a gente se
pergunta se precisa mesmo tanto vai e vem pra descobrir um lance em cidade
pequena. Bordertown, não, tem um pegada quase de série americana e aí tá tudo
desenrolado em três episódios (eu disse quase porque tem algo que atravessa
tudo e permanece). Outra coisa legal é que no começo a gente pensa: mais um
detetive estranho com dificuldade de se relacionar. Aí, tchans: ele faz sexo
amorosamente e com regularidade, a filha o ama, ele faz amigos, não é “problema
de comunicação”: a esposa esconde umas coisas dele só porque ele curte
descobrir e talz. Quando você pega o clima, puxam o tapete e os probleminhas de
relacionamento, não os óbvios, os sutis, aparecem mesmo.
Meu tempo não tem dado pra nada e,
concomitantemente (sim, eu gosto desta palavra, me julguem) nada tenho feito.
Nem ver os programas de reforma e comida na tv. Nem terminar a série que mencionei.
Nem ler direito. Nem arrumar a casa. Cozinhar. Só fazer o básico do básico o
trabalho e ver a noite virar dia e o dia virar noite.
Num desses esforços de pôr a cabeça
fora d’água comprei umas roupinhas e os alunos terão uma professora que não vai
mais pra aula com a roupa desmanchando.
Não ter jogo das 9hs deixa a
mente futebolística da gente desocupada pra tresvariar. Pois bem, me lembrei do
argumento "não tem clima de Copa porque não tem ninguém pintando as ruas". E fiquei pensando na relação
da gente com a rua. Quanto tempo nós passamos nas calçadas conversando? Quem se
sente confortável na rua? Quem brinca, se diverte, descansa na rua? Quem tem
tempo pra ficar na rua? E quem tem tempo, fica? O mundo é um moinho, cantava o
moço, e cada vez menos podemos ser em coletividade.
Vejo as pessoas com
camisetas do brasil no supermercado, vejo adesivos nas capinhas de celulares,
vejo bandeiras nas janelas das casas, por detrás das grades. Passo na estrada e
vejo verde e amarelo pintado nas casinhas esparsas ao longo da pista. Vejo
solidão, atomismo, pressa, apreensão, incerteza,inquietação nas formas de
ocupação do espaço público.
Suspeito que não pintar a rua diz
muito menos da nossa relação com a Copa e/ou com a seleção brasileira de
futebol e muito mais sobre a violência urbana, sobre a falta de dinheiro, sobre
o pouco tempo de lazer e integração, diz muito mais do medo cotidiano, da
pressa, da perda de vínculos comunitários.
Por outro lado, do lado de cá,
valorizamos o esforço de seleções que ficam pelo caminho. Choramos com eles.
Choramos por eles. Mas, no caso da nossa, só damos duas opções: lama ou glória.
Um tantinho cruéis, não? Jogadores de praticamente todas
as seleções jogam fora dos seus países. Quase todos com salários espetaculares.
Mas só os nossos perdem porque são mercenários. Só os nossos só se preocupam
com sua própria imagem. Muitos choram no fim das partidas mas só os nossos o
fazem porque são a) falsos; b) desequilibrados; c) desequilibrados e fracos.
Quase todos, porque jogam fora, moram fora do seu país, se mencionam o “povo”
são vinculados, comprometidos, se os nossos falam alguma coisa assim é
demagogia e assessoria de imprensa. Estão ou estiveram, muitos, enrolados com
fiscos vários, ganhando de várias fontes, com legislações diferentes,
assessorias, advogados, todo mundo enrolado, mas só o nosso craque é “sonegador”. Eu prefiro a discrição do Zico? Ô. A alegria malandra
do Júnior Capacete? Claro. A elegância do Tostão ao abordar qualquer assunto?
Ouiés. Eu tenho dificuldades com os Xóvens. Mas eles estão. Eles são.
“Futebol é uma coisa tão bonita que quando eu
encontro alguém que não gosta
eu torço de coração pra que ela tenha na vida
algo ao menos um pouquinho parecido” .
A frase acima é do João Luís Jr., o moço que me faz rir e chorar escrevendo sobre o meu Mengo. Mais do que sempre, ele foi preciso em relação ao que eu sinto. O futebol me comove. No amor só é possível fazer autópsia, não biopsia – não lembro quem disse e não fui procurar. Há situações em que o desconhecimento é benéfico. Como aliás, o mote inicial indica. Pois bem. Copa do Mundo. Sei lá porque amo e não vou tentar entender ou explicar. Mas tal como mocinha apaixonada, não abro mão de falar do objeto querido. Essa semana começa a Copa e eu estou prontinha:
É Copa + Festa Junina = Melhor de todos os mundos
Porque você gosta tanto de ver essas coisas, luciana?
Ué, o que eu não sei é como não gostar, gostando tanto de gente, como eu gosto.
Esporte, futebol, é uma coisa totalmente humana. Inventada por e para a
humanidade, não é pra se elevar a deus, não é pra se encontrar com a natureza,
não é pra nada além dele mesmo (a não ser, como qualquer outra coisa, no
capitalismo, também é pra fazer dinheiro e aumentar a desigualdade social).
Futebol é lúdico. 20 pessoas correndo atrás de uma bola e duas torcendo pra ela
nunca chegar perto delas, como não se emocionar com a futilidade disso?
A beleza de um drible, a catarse de um gol, a
angústia de algumas derrotas, não há palavra que consiga comportar os
sentimentos que uma partida de futebol pode evocar. Durante o ano, durante a
vida, é um amor específico, o amor pelo nosso time. O time que a gente torce é
quem nos ensina o amor. É ele o nosso “quem”, nossa cara metade, nosso farol,
nosso riso e nosso pranto. É o nosso time que nos tira o sono, que preenche
nossos vazios, que encarna nossos anseios. Mas a Copa, a Copa é o amor pelo amor. Não é o meu
time que importa nesse breve intervalo, não é quem eu amo, mas como se ama. O
amor quase sem objeto, praticamente sem um quem, deslizante, cada partida um
enlevo. Cada drible é um novo crush. Cada cabeçada, cada tabela, cada
cruzamento bem feito, cada defesa inspirada. Amar o amor. Nem triste nem feliz, vivendo esse amor que, como todo amor, é necessariamente finito, fadada à solidão e disposta a viver com isso. Viver por isso.
Eu me empolgo, não só com a seleção brasileira,
mas também com ela. Gosto do evento todo, gosto dos jogos sofridos, vitória
apertada, gosto dos dramáticos, jogador com braço na tipóia, gosto daquelas
peladas que não valem nada, Jamaica e Tailândia na terceira partida da fase de
grupos, gosto das reviravoltas, das alegrias, da dor de partir. Sofro com cada
equipe que se despede do evento. Choro junto, lamento. Alegro-me com cada uma
que fica, que avança, mais uma rodada, mais brinde.
Tenho meus favoritos, claro. No grupo A: Uruguai e
Egito (apesar de ser uma perda pro evento a equipe da casa não avançar, então
fico pensativa sobre minha torcida), Grupo B: Portugal e Marrocos (claramente
iludida, Espanha tem vaga quase certa nas oitavas), Grupo C: Peru e qualquer um
(o que provavelmente será: França e mais alguém), Grupo D: não tem quatro vagas
pra esse grupo seguir na competição, não? poxa, pelo menos 3 – Islândia,
Nigéria, Argentina (e a Croácia também joga direitinho), Grupo E: pelo meu
gosto, Brasil e deixa uma vaga pro grupo D, mas vá lá, vem com a gente (no
desejo, não na bola) a Costa Rica. Recupera o fôlego e segue a torcida, Grupo
F: quero ver México e Alemanha nas oitavas (é legal e estranho gostar de ver a
Alemanha jogar, isso tinha acontecido comigo no tempo do Lothar Matheus), Grupo
G: eu gostaria que seguissem Tunísia e Panamá, devem avançar Inglaterra e
Bélgica – e nem adianta me chamar de pé frio, a diferença técnica é gritante,
Grupo H: Colômbia e Senegal, diz meu coração, Polônia e Colômbia diz meu
cérebro, Japão e Senegal grita a zebra que passa correndo pela sala nesse
momento.
Como os recém enamorados o amor me nutre nos dias
de Copa. Comer, trabalhar, dormir? Tudo se torna menor ante tal paixão. Quero
ver tudo, sentir tudo, ouvir tudo. Assisto jogos, acompanho os debates, brigo
com a tv. Dentro do frenesi da Copa, o que espero do Brasil não é o caneco,
embora seja bom ganhá-lo, claro. O que espero é ginga. É rima. Tabelas feito
poesia. Futebol é muito mais que o resultado. A paixão pela bola e a surpresa
emocionada quando ela corresponde. Quero suspeitar a sombra do menino Vinícius
Jr. em cada bola correndo ligeira sobre a grama. Quero o inesperado e a
comoção. Quero meu peito como um maracanã lotado cantando Taiti ou batucando no
ritmo das palmas da torcida da Islândia.Quero ver nas frestas e brechas meu povo leve, criativo, inventivo, moleque,
determinado, iluminado, quero ver a promessa de que amanhã e depois e depois do
depois do amanhã, teremos futebol para amar.