É engraçado como a gente pode se sentir distante de
alguém que já foi tão próximo.
Às vezes eu uso engraçado, mas não é sobre algo que
me faça rir.
Percebo que tenho e sempre tive uma vida muito
protegida. Embora a minha amiga não goste do termo, é uma vida, no sentido a
que vou me referir, privilegiada. Leio e escuto, por exemplo, pessoas falando
de pessoas chatas com quem convivem. Eu não convivo. Não convivia, não convivo.
Por sorte, primeiro, por escolha, agora. Minha família expandida é divertida.
Muito. Uma infância de vila, uns tios maneiros, umas primas confidentes. Sempre
tive oportunidade de ler muito, então só tive os amigos e companhias que quis
ter na adolescência, incluindo o grupo de jovem da teologia da libertação e não
da renovação carismática. Na faculdade, entrei logo para o projeto de extensão
mais cheio de gente boa. Sim, tinha uma chata, mas não ficávamos perto uma da
outra (ela devia me achar chata também). Depois um mestrado de amizade única e
irmã do lado. Trabalhos, só os que
pagavam pouco e exigiam muito, no interior do estado, quem tem tempo de
conhecer gente chata neste contexto? Depois, a autonomia (por enquanto) de
lecionar na Universidade pública. Poder entrar na copa e dizer o que pensa sobre
a palestra tosca da véspera. Não tenho colega de trabalho no FB. Levo livro
pras confraternizações pra evitar conversa que não topo. Divido sala com uma
amiga querida. Não faço parte de grupos de zap que tem pessoas que não são
muito, muito íntimas. E é por isso que mesmo amando bastante pessoas que estão
em um espaço, prefiro não frequentá-lo quando percebo que, ali, elas serão tolerantes
com piadas, ofensas, pensamentos que, em espaço aberto e vindo de pessoas
desconhecidas, não seriam.
Li um texto bem interessante sobre os rumos das publicações
acadêmicas e percebi como sou intransigente. Não consigo nem mesmo arrumar
artigos de material que já tenho, só de pensar em submetê-los em outra língua
que não português.
Se eu fosse rica contrataria alguém para sempre
fazer suco pra mim.
Pensando aqui que o mundo gira, o tempo passa e eu sempre
volto ao Guerreiro Ramos.
Estes dias um conhecido postou foto da sua sala e me
deu uma saudade dolorida do meu divã. Porque a gente tem que ser tão orgulhosa
e não tem coragem de dizer: pessoa, pode ficar com meu móvel guardado por 3 anos
entulhando sua casa? Geralmente eu não me importo de não ter raiz, não ligar pras
coisas, mas me arrependo, muito, de ter passado o divã pra frente.
Capitonê, serve pra costura, serve pro juízo.
Recomeça o semestre e eu arrumo meu quadro de
cortiça. Umas coisas ficam, outras saem, troco o calendário letivo. Mise em place.
Também escolho novos textos, defino novas formas de
avaliação, tento bagunçar meu pensamento pra não andar nas mesmas passadas que
já dei. Só deixo quieto O Homem Bicentenário na disciplina de Psicologia:
indivíduo, trabalho e organizações porque ainda não consegui pensar em um
estímulo melhor pra discutir o que nos faz humanos.
Status: filme italiano.
Consegui fazer os dez minutos (que mencionei no post de ontem) da palestra virarem quinze. Nessa velocidade, precisaria de mais seis dias pra chegar ao tempo ideal. Porque não sou mais sabida?




