sexta-feira, 11 de maio de 2018

Calmaria


Dentro do quarto não dá pra saber direito se é chuva ou vento nos coqueiros.

Dentro de mim, calmaria.




Esta semana, em Grey’s, falaram daquele lance japonês de preservar/consertar valorizando a imperfeição. Kinstsugi. Lembrei que já mencionei no Borboletas e fui procurar: Se eu pudesse. Se eu soubesse. Se me fosse dada a arte. Eu faria, do dolorido, vínculo. Vou aprender kintsugi. Quem eu era em 2014?

E pela primeira vez (pelo menos que eu me recorde) me irritei com os roteiristas de Grey’s. Precisava aquela besteirada de converter o Jakson? Ado, ado, ado, cada um no seu arco não serve mais?

Eu sempre curti um encontro, um segredo, uma boa história. Obrigado, Canoa, por me trazer pra mim.

Eu gosto daquela música: Dona. E daquele livro: Senhora. E de cada palavra escolhida. Das frases. Do ritmo. Das pausas pras pessoas perguntarem ou deixarem passar. Eu gosto de me dizer, se e quando alguém está pronto pra escutar.


E tem aquela mesa de bar que você foi meio sem saber que ia tanta gente, amigos dos amigos, a conversa que você não entende, os risos que você não acompanha e a agonia de não poder abrir o livro que você sempre tem na bolsa pra ajudar a passar o tempo.

Tem gente que não acredita na minha timidez.

Eu tenho um pouco de medo da dor.

E na segunda já serão livros e planejamento de aula e reuniões e orientações e textos pra corrigir e pra escrever e pra enviar e coisas pra digitar, decisões para tomar, relatórios, consertos, ajustes.

Guardarei estes dias no canto da boca, como a promessa de um sorriso.

Ou ainda, tão bem soube dizer M. Duras: "tinha varrido a casa, tinha limpo tudo como se fosse antes do meu funeral. Estava tudo depurado de vida, isento, vazio de sinais, e depois disse para comigo: vou começar a escrever para me curar da mentira de um amor que acaba. Tinha lavado as minhas coisas, quatro coisas, estava tudo limpo, o meu corpo, o meu cabelo, a minha roupa, e também aquilo que encerrava o todo, o corpo e a roupa, estes quartos, esta casa, este parque. E depois comecei a escrever..."

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Cartilha

Aprender é um negócio bonito. Nem sempre a gente percebe a hora exata em que algo passa a fazer sentido. Click. O que era mistério se torna íntimo. Às vezes basta uma informação apresentada da maneira certa. Como a palavra (da) amiga.

Um exemplo: I’m so gay! #eastsiders

Acordo cedo, desço a escadinha (inha é jeito de dizer) lateral, deixo o mar lavar os cantos vazios cá dentro. Arde o olho, os cortes, a alma. Nuvens dançam escondendo o tímido sol. Sento na areia, fico escutando os sussurros das ondas. Cantarolo, desafinada, quando o mar tem mais segredo é quando é calmaria. Passa o senhor com o dálmata. Passam as duas senhorinhas de biquíni combinando. Passam moços sozinhos, casais de mãos dadas, uma criança correndo na frente dos adultos sorridentes. Quando o garçom da barraca vizinha começa a lavar as cadeiras e montar as mesas, é hora de subir para o café. Frutas, suco, pão de queijo, tapioca, ovo mexido, café, café, café, leite. A família espanhola já está por ali, com seu sotaque bonito, suas peles bronzeadas e seu menino pequeno tão simpático, uns três ou quatro carinhosos anos (quando eu cheguei, cá estavam, pelo que pude perceber, há um certo tempo, já fizeram passeios de buggy, visitaram praias vizinhas, cumprimentam os ambulantes pelo nome). Mastigo devagar, beberico a segunda ou terceira xícara devagar e o pensamento vagueia entre o nada e coisa nenhuma. Tenho pequenos insights, chegam frases já arredondadas, bons motes pra escrita. Quase anoto. Quase. Chegaram oferecidas, partem ofendidas, quase nenhuma retornará. Pego o kindle, renovo o protetor solar, volto pra praia, agora embaixo do guarda-sol, uma hora ou duas. Na sede, água de coco. Outro mergulho. Volto pro quarto, banho demorado, livro e cochilo na rede na varandinha. Uma das alegrias do cabelo curto é a facilidade de lavar o cabelo. Antes ou depois do sono, as frutas no frigobar, ata, banana, tangerina. Preguiça. Fim de tarde? Mar. Que, aliás, é outro. Ou eu quem sou. Fico de mãos dadas com o João. É quando se ouve mais forte o ronco das ondas na beira do mar... São outros os passantes: o moço da tatuagem de hena, as jovens conversando alto, o vendedor com seu jegue-bar, mais famílias, mais casais, o povo negociando passeios de buggys. Fico por ali até começarem a desmontar as barracas. Outro banho. Uns episódios de série até a fome começar a chegar. Aquele empurrãozinho pra bater perna. Ladeira. Ladeira. Ladeira. Uma volta rápida na Broadway ainda semi-deserta, sentar pra jantar. Todo dia frutos do mar? Sim. Voltar pra casa (sim, da segunda noite em diante dormindo em algum lugar já chamo de casa) com todos os santos ajudando. Rir alto das próprias bobagens. Os ruídos distantes, as ruazinhas desertas, aquela segurança morna, a certeza do bom. Antes da curva, olhar na direção do mar. Escuro, eu apenas o escuto. Ou é meu coração? Casa, então. Mais livros, futebol, série ou filme. Sono. Amanhã, de novo. Aprender o tempo em mim.



Subo escadas com a perna direita e desço com a esquerda (obviamente as duas estão presentes nos dois processos, estou falando da perna que vai na frente, que apoia, que sustenta)

É gostoso saber essas coisas miudinhas sobre o corpo da gente.

Um saber antigo: romances policiais me acalmam.

Se a vida fosse um jogo do Flamengo.

Tem esse casal. Entre sessenta e setenta anos, suponho. Eles estão se divertindo. Conversam um pouco. Bebem. Mergulham. Tudo com uma cumplicidade de quem obviamente está junto há muito tempo. Queria? Queria. Tenho paciência? Só se fosse no esquema "Tudo bem no ano que vem". Fica a pergunta sincera: quede o Alan Alda da minha vida? 


quarta-feira, 9 de maio de 2018

Férias


A cura para qualquer coisa é água salgada:
o suor, as lágrimas ou o mar





Hoje meu ano começou. 

Dizem que o mar cura tudo (sei lá quem disse, provavelmente eu mesma). Arde. Limpa. Cicatriza.

E é lua minguante. Fui procurar o horário que surge e desaparece e fiquei sabendo que é um bom momento para passar a régua e fechar a conta. Let it go. Ficar à deriva primeiro, depois deixar a lua balsâmica fazer seu trabalho. Tempo de descanso. Li tudo isso e achei graça da sabedoria que nem sabia que tinha. 

Uma daquelas coisas aleatórias que passam a parecer coincidência e ganham sentido a posteriori: tô “descascando”, trocando de pele, né. 

Status: convalescente.

Uma coisa que eu faço quando estou de férias é não trabalhar. Olha, recomendo. 

Vantagem do cabelo curto é que é rapidinho lavar o cabelo depois do banho de mar, nem dá preguiça. 

Dizem que o mar cura tudo. 
Dizem que os cães vêem coisas. 
Dizem que os significantes deslizam. 
Parece que é tudo verdade (não toda, porque dizê-la toda, etc) 

Eu geralmente sou bem condescendente com romances policiais e afins, mas esse Álibi da Sandra Brown bate recordes de chatice, ruminação inútil e ineficiência em relação a manter o suspense e desenvolver trama e personagens. 

Enquanto handmaid’s tale vai praquela coluna “obrigação e curiosidade”, westworld continua me enredando mesmo apresentando uma dezena de personagens novos por episódio. E fica aquela esperança do Anthony aparecer numa palhinha, né.

Por aqui: águas profundas.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Um Viva pro meu Samuel


Quando se fala em filho geralmente as pessoas pensam nas delícias e intempéries de lidar com bebês e/ou crianças pequenas. Como, por exemplo, na publicidade de Dia das Mães, independente da idade da mãe representada, as crianças saltam nas telas, sorridentes, penteadas, afetuosas.

Euzinha sempre me espantei com essa percepção generalizada e distorcida da maternidade/paternidade. Quantos anos os seres humanos passam na infância? Uns dez, doze. A não ser em caso de infortúnio, somos pais de adolescentes e adultos por muito mais tempo que isso. Eu mesma, tendo sido mãe com 22 recém-completados, pelas minhas contas e desejo, serei mãe de adolescente/adulto por uns quarenta anos. Quatro vezes mais tempo de convivência com um Samuel jovem e adulto (até mesmo de meia idade) do que mãe daquele bebê fofinho que chamava qualquer luz de Lua (que soava entre uuuaa e nua).

E eu estou falando disso por quê? Porque o meu pequeno – que hoje tem pouco mais de dois metros – completa 21 anos (a bem da verdade, lá pelas 22hs). Ontem à noite fomos ao cinema ver Guerra Infinita e na volta tivemos um pequeno arranca rabo por causa do filme. Talvez cause espanto se eu disser que a nossa mini-treta me deixa irritada no curto prazo, mas me dá uma alegria mais rara a médio e longo prazo. Ele tem 21 anos, né. Tem seus gostos assentados. Idéias, preferências, algum estilo (ainda tem tempo, mas já é um esboço), pressupostos, ideologia. É filho do seu tempo tanto quanto meu filho e do Almir. É um adulto jovem.

Aquela pessoa que é nosso filho é também neto de alguém. Sobrinho. Amigo. Colega de faculdade. Primo mais velho. Paquera. Rolo. Estudante. Trabalhador. É assim desde bebê, claro, mas quanto mais velha a pessoa se torna, mais camadas, mais potencialidades desenvolvidas, mais complexidade.

E eu não sei vocês, mas eu às vezes travo. Não é fácil deixar ir o menino da Lua. Não é fácil parar de dizer o “porque não” e passar a ouvir, tão arbitrário voltando como era indo. Não é fácil temer que aconteça alguma coisa a ele que você não controle. Ou que ele faça alguma coisa que você não controle. Não é fácil passar do controle (mesmo que nunca tenha sido absoluto) para o suporte. Não é fácil aceitar que o filho não é quem você quer que ele seja, como você quer que ele seja, aceitar que o filho não é quem você achou que estava fazendo. Ele é quem ele se fez ser, a partir de.

Não é fácil, eu dizia, mas é bonito. Hoje o Samuel faz 21 anos e é tão amado que eu nem sei descrever. Não só por mim, não só pelo pai dele que do outro lado do mar fica cuidando, provendo, monitorando, apoiando. Não apenas pelos avós e tios que cá estavam quando ele chegou. Amado por tantas gentes que vieram depois. Querido.

Porque ele é quem ele é. Meio desastrado. Carinhoso. Espaçoso. Teimoso. Meigo. Atencioso. Disponível. Meio grosso. Doce. Curioso. Sabichão. Aberto. Daqueles que sabe pedir desculpas, voltar atrás, repensar, reconstruir estradas, refazer laços.

Não é fácil, mas é bonito, ter este jovem homem na minha vida. Conviver. Aprender com ele. Descobrir coisas sobre o que ele pensa, gosta, faz, sonha, anseia. Não é fácil mas é bonito amá-lo. Desejar que ele seja bom e que a vida seja boa pra ele. Que lhe aconteçam as melhores coisas. Que ele viva bem. Que ele coma, beba e durma bem. Que tenha um horizonte para onde se dirigir. Que tenha pequenos e grandes sonhos. Que celebre seus avanços. Que encontre apoio, amor, referências. Que faça ninhos. Que faça viagens. Que faça e mantenha vínculos. Que deixe um pouco de si (de preferência a teimosia) pelos caminhos e que leve um pouco do caminho nos olhos. Que sinta saudades, porque será sintoma de que algo marcou, mas que não se aprisione na memória. Que saiba seguir, firme, mas que não se esqueça de parar para apreciar a paisagem. Que seja feliz, sim, muito, mas principalmente que saiba quando está sendo feliz.

Que entenda o amor que recebe. E que sejam muitos os anos que tenha para vir a ser quem ele vem se fazendo. Enorme – e eu não estou falando da sua altura, desta vez, mas da sua alma. Muitas vezes eu brinco: fui eu quem fiz. Foi não, mas tenho orgulho, alegria, prazer de fazer parte desta história.

Eu te amo, filho.






quarta-feira, 11 de abril de 2018

Fui criada para a esperança.


Sou de 1975. Eu me tornei jovem quando as coisas começaram a parecer possíveis. Fui criada para a esperança. Não para as certezas (a história dos meus pais não lhes permitiria) mas para a vontade. Eu conheci o mundo do trabalho via agentes comunitários de saúde e assentados. Eu aprendi. Eu troquei. Paciência histórica, recém saímos da ditadura, ainda éramos racistas e desiguais, mas havia brechas. Os Conselhos Escolares. As associações comunitárias. Os conselhos municipais, o projeto são josé... vãos. A se ocupar. De maneira equivocada, tantas vezes. Somos o nosso tempo, também. Cooperativas de gestão centralizadora. Faz parte, há de chegar propícia estação e fecundar o chão. Horizontes.

Mais que esperar a transformação, eu, nós, a perseguíamos. Julgávamos nela trabalhar. Um mundo mais justo. Um Brasil mais igual. Um sertão sem fome. Árido e belo. Não apesar de. Por causa, também.

De onde vinha esse anseio de mudar o cotidiano das gentes? De onde vinha a identificação com a falta, com quem trabalho, com quem não tem escolha se eu nunca precisei? Eu era filha de classe média que antes não era. Tornou-se. Profissional liberal e dona de casa. Lá do interior do mato, da caatinga, do roçado. Auxiliar de pedreiro, costureira, normalista, motorista, gerente de hotel, economista. Negro, índio, branca. Misturados. Colégio de freira. Grupo de crisma. Pastoral da juventude do meio popular. Pai nosso, dos pobres marginalizados, pai nosso, dos mártires, dos torturados. Sem deus, fé na vida, fé no homem, fé no que virá.

Pequenos passos. Passos maiores. A luta antimanicomial. Uma prefeitura no interior. Outra. A metáfora da sementinha, mesmo fora da bíblia, parecia boa. O SUS. Um presidente. Água encanada. Energia elétrica. Microcrédito. Azulejo nas casas que antes eram taipa. Prima segunda formada sem sair da sua cidade, no coração do Ceará. Uma universidade no semiárido. Irrelevâncias ante a enormidade do que o Brasil precisava? Sim. Mas era a minha gente vivendo. Vivendo mais. Vivendo melhor.

Talvez a mudança não viesse tão rápido como eu queria. Repressão policial, tanta. Minorias preteridas. Um desenvolvimentismo que fecha os olhos pro massacre indígena. A gente ri, a gente chora. Ainda tem luta. Porque se pra você tá bom? Ainda assim, o caminho claro. O certo. Porque é certo. Ali, olha, vai ter peleja, as forças de sempre querem ficar.

Não era pra ser fácil. E não vinha sendo. Sabia-se que não seria logo. E demorava ainda mais do que se pensava. Não seria sem luta. E tínhamos disposição para a rua, para o impasse, para o confronto.

Mas, dizia eu, fui criada para a esperança. Para o processo. Para a mudança. Para a contenda. Fui criada no eco das músicas do Chico, da poesia do Brecht, nas lembranças de Romeros. Oscar, não britto. Daí que. Um muro. Outro. Outro. O ódio.

Ódio ao pobre. Às poucas conquistas sociais. Ódio ao nordestino. Ao nordestino pobre. Ódio a quem fez quase nada pra que o nordestino pobre não morresse apenas por ser isso: nordestino e pobre. Ódio por dentro. De dentro. Tão empolgada com as idéias de Paulo Freire. Tão empolgada com a dialética, as contradições, que a gente esquece da internalização do ódio. Acaba o bolsa família. Joga pedra no bolsa família. É feita pra apanhar, boa de cuspir. Dá pra qualquer um, maldita bolsa família.

Eu ouvia a música do Chico e pensava em como superar o café pequeno e manteiga no pão e me vejo jogada na primeira parte da canção - que eu pensava superada. O que se quer pra gente é isso: encurralados, dominados, violados, rotos, quebrados, desmontados.

Pois eu estou. Acuso o golpe. A gente aprende a apanhar #Balboafeelings mas aquele cruzado no queixo pode ser a gota d'água. Aquele comentário alienado da pessoa próxima. A postura do amigo descolado e boa gente que celebra uma decisão que ele reconhece equivocada mas, foda-se. Golpe abaixo da cintura, por fim.
Então, vão me desculpar se hoje eu estou meio perdida. Vão me perdoar se levo tudo pro pessoal. Quem odeia assim minha gente, me odeia. Inclusive minha própria gente que me ama e se odeia, sinto seu ódio por você mesma como ódio por mim.

Estou lendo muitas análises inteligentes. Parabéns pra vocês. A culpa é da mania de conciliação. Estou até aceitando, porque não tenho energia, hoje, pra tentar ser mais do que eu sou. Era essa a beleza que eu via no mundo do possível. A gente ia se fazendo quem a gente queria ser a partir do que a gente podia ser.

Mas parece que não. Ou se é tudo, ou. E eu, eu não sou o bastante.

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