Dentro do quarto não dá pra saber direito se é chuva ou vento nos
coqueiros.
Dentro de mim, calmaria.
Esta semana, em Grey’s, falaram daquele lance japonês de
preservar/consertar valorizando a imperfeição. Kinstsugi. Lembrei que já
mencionei no Borboletas e fui procurar: Se eu pudesse. Se eu soubesse. Se me fosse dada
a arte. Eu faria, do dolorido, vínculo. Vou aprender kintsugi. Quem eu era em 2014?
E pela primeira vez (pelo menos que eu me
recorde) me irritei com os roteiristas de Grey’s. Precisava aquela besteirada
de converter o Jakson? Ado, ado, ado, cada um no seu arco não serve mais?
Eu sempre curti um encontro, um segredo, uma
boa história. Obrigado, Canoa, por me trazer pra mim.
Eu gosto daquela música: Dona. E daquele livro:
Senhora. E de cada palavra escolhida. Das frases. Do ritmo. Das pausas pras
pessoas perguntarem ou deixarem passar. Eu gosto de me dizer, se e quando
alguém está pronto pra escutar.
E tem aquela mesa de bar que você foi meio sem
saber que ia tanta gente, amigos dos amigos, a conversa que você não entende,
os risos que você não acompanha e a agonia de não poder abrir o livro que você
sempre tem na bolsa pra ajudar a passar o tempo.
Tem gente que não acredita na minha timidez.
Eu tenho um pouco de medo da dor.
E na segunda já serão livros e planejamento de
aula e reuniões e orientações e textos pra corrigir e pra escrever e pra enviar
e coisas pra digitar, decisões para tomar, relatórios, consertos, ajustes.
Guardarei estes dias no canto da boca, como a promessa
de um sorriso.
Ou ainda, tão bem soube dizer M. Duras: "tinha varrido a casa, tinha limpo tudo como se fosse antes do meu funeral. Estava tudo depurado de vida, isento, vazio de sinais, e depois disse para comigo: vou começar a escrever para me curar da mentira de um amor que acaba. Tinha lavado as minhas coisas, quatro coisas, estava tudo limpo, o meu corpo, o meu cabelo, a minha roupa, e também aquilo que encerrava o todo, o corpo e a roupa, estes quartos, esta casa, este parque. E depois comecei a escrever..."
Ou ainda, tão bem soube dizer M. Duras: "tinha varrido a casa, tinha limpo tudo como se fosse antes do meu funeral. Estava tudo depurado de vida, isento, vazio de sinais, e depois disse para comigo: vou começar a escrever para me curar da mentira de um amor que acaba. Tinha lavado as minhas coisas, quatro coisas, estava tudo limpo, o meu corpo, o meu cabelo, a minha roupa, e também aquilo que encerrava o todo, o corpo e a roupa, estes quartos, esta casa, este parque. E depois comecei a escrever..."



