Aprender é um negócio bonito. Nem sempre a gente percebe a hora
exata em que algo passa a fazer sentido. Click. O que era mistério se torna
íntimo. Às vezes basta uma informação apresentada da maneira certa. Como a palavra
(da) amiga.
Um
exemplo: I’m so gay! #eastsiders
Acordo
cedo, desço a escadinha (inha é jeito de dizer) lateral, deixo o mar lavar os cantos vazios cá dentro. Arde o olho, os cortes, a alma. Nuvens dançam escondendo o tímido sol. Sento na areia, fico escutando os sussurros das ondas. Cantarolo, desafinada, quando o mar tem mais segredo é quando é calmaria. Passa o senhor com
o dálmata. Passam as duas senhorinhas de biquíni combinando. Passam moços
sozinhos, casais de mãos dadas, uma criança correndo na frente dos adultos
sorridentes. Quando o garçom da barraca vizinha começa a lavar as cadeiras e
montar as mesas, é hora de subir para o café. Frutas, suco, pão de queijo,
tapioca, ovo mexido, café, café, café, leite. A família espanhola já está por
ali, com seu sotaque bonito, suas peles bronzeadas e seu menino pequeno tão simpático, uns três ou quatro carinhosos anos (quando eu
cheguei, cá estavam, pelo que pude perceber, há um certo tempo, já fizeram passeios de
buggy, visitaram praias vizinhas, cumprimentam os ambulantes pelo nome). Mastigo devagar, beberico a segunda ou terceira xícara devagar e o pensamento vagueia entre o nada e coisa nenhuma. Tenho pequenos insights, chegam frases já arredondadas, bons motes pra escrita. Quase anoto. Quase. Chegaram oferecidas, partem ofendidas, quase nenhuma retornará. Pego o
kindle, renovo o protetor solar, volto pra praia, agora embaixo do guarda-sol, uma hora ou duas. Na sede, água de coco. Outro
mergulho. Volto pro quarto, banho demorado, livro e cochilo na rede na
varandinha. Uma das alegrias do cabelo curto é a facilidade de lavar o cabelo. Antes ou depois do sono, as frutas no frigobar, ata, banana, tangerina. Preguiça. Fim de tarde? Mar. Que, aliás, é outro. Ou eu quem sou. Fico de mãos dadas com o João. É quando se ouve mais forte o ronco das ondas na beira do mar... São outros os passantes: o moço da tatuagem de hena, as jovens conversando alto, o vendedor com seu jegue-bar, mais famílias, mais casais, o povo negociando passeios de buggys. Fico por ali até começarem a desmontar as barracas. Outro banho. Uns episódios de
série até a fome começar a chegar. Aquele empurrãozinho pra bater perna. Ladeira. Ladeira. Ladeira. Uma volta rápida na Broadway ainda semi-deserta, sentar pra jantar. Todo dia frutos do mar? Sim. Voltar pra
casa (sim, da segunda noite em diante dormindo em algum lugar já chamo de
casa) com todos os santos ajudando. Rir alto das próprias bobagens. Os ruídos distantes, as ruazinhas desertas, aquela segurança morna, a certeza do bom. Antes da curva, olhar na direção do mar. Escuro, eu apenas o escuto. Ou é meu coração? Casa, então. Mais livros, futebol, série ou filme. Sono. Amanhã, de novo. Aprender o tempo em mim.
Subo
escadas com a perna direita e desço com a esquerda (obviamente as duas estão
presentes nos dois processos, estou falando da perna que vai na frente, que
apoia, que sustenta)
É gostoso
saber essas coisas miudinhas sobre o corpo da gente.
Um saber antigo: romances policiais me acalmam.
Se a vida fosse um jogo do Flamengo.
Tem esse casal. Entre sessenta e setenta anos, suponho. Eles estão
se divertindo. Conversam um pouco. Bebem. Mergulham. Tudo com uma cumplicidade
de quem obviamente está junto há muito tempo. Queria? Queria. Tenho paciência?
Só se fosse no esquema "Tudo bem no ano que vem". Fica a pergunta
sincera: quede o Alan Alda da minha vida?



