Quando se fala em filho geralmente as
pessoas pensam nas delícias e intempéries de lidar com bebês e/ou crianças
pequenas. Como, por exemplo, na publicidade de Dia das Mães, independente da
idade da mãe representada, as crianças saltam nas telas, sorridentes,
penteadas, afetuosas.
Euzinha sempre me espantei com essa
percepção generalizada e distorcida da maternidade/paternidade. Quantos anos os
seres humanos passam na infância? Uns dez, doze. A não ser em caso de
infortúnio, somos pais de adolescentes e adultos por muito mais tempo que isso.
Eu mesma, tendo sido mãe com 22 recém-completados, pelas minhas contas e
desejo, serei mãe de adolescente/adulto por uns quarenta anos. Quatro vezes mais
tempo de convivência com um Samuel jovem e adulto (até mesmo de meia idade) do
que mãe daquele bebê fofinho que chamava qualquer luz de Lua (que soava entre
uuuaa e nua).
E eu estou falando disso por quê?
Porque o meu pequeno – que hoje tem pouco mais de dois metros – completa 21
anos (a bem da verdade, lá pelas 22hs). Ontem à noite fomos ao cinema ver
Guerra Infinita e na volta tivemos um pequeno arranca rabo por causa do filme. Talvez
cause espanto se eu disser que a nossa mini-treta me deixa irritada no curto
prazo, mas me dá uma alegria mais rara a médio e longo prazo. Ele tem 21 anos,
né. Tem seus gostos assentados. Idéias, preferências, algum estilo (ainda tem
tempo, mas já é um esboço), pressupostos, ideologia. É filho do seu tempo tanto
quanto meu filho e do Almir. É um adulto jovem.
Aquela pessoa que é nosso filho é
também neto de alguém. Sobrinho. Amigo. Colega de faculdade. Primo mais velho.
Paquera. Rolo. Estudante. Trabalhador. É assim desde bebê, claro, mas quanto
mais velha a pessoa se torna, mais camadas, mais potencialidades desenvolvidas,
mais complexidade.
E eu não sei vocês, mas eu às vezes
travo. Não é fácil deixar ir o menino da Lua. Não é fácil parar de dizer o “porque
não” e passar a ouvir, tão arbitrário voltando como era indo. Não é fácil temer
que aconteça alguma coisa a ele que você não controle. Ou que ele faça alguma
coisa que você não controle. Não é fácil passar do controle (mesmo que nunca
tenha sido absoluto) para o suporte. Não é fácil aceitar que o filho não é quem
você quer que ele seja, como você quer que ele seja, aceitar que o filho não é
quem você achou que estava fazendo. Ele é quem ele se fez ser, a partir de.
Não é fácil, eu dizia, mas é bonito. Hoje
o Samuel faz 21 anos e é tão amado que eu nem sei descrever. Não só por mim,
não só pelo pai dele que do outro lado do mar fica cuidando, provendo,
monitorando, apoiando. Não apenas pelos avós e tios que cá estavam quando ele
chegou. Amado por tantas gentes que vieram depois. Querido.
Porque ele é quem ele é. Meio
desastrado. Carinhoso. Espaçoso. Teimoso. Meigo. Atencioso. Disponível. Meio
grosso. Doce. Curioso. Sabichão. Aberto. Daqueles que sabe pedir desculpas, voltar
atrás, repensar, reconstruir estradas, refazer laços.
Não é fácil, mas é bonito, ter este
jovem homem na minha vida. Conviver. Aprender com ele. Descobrir coisas sobre o
que ele pensa, gosta, faz, sonha, anseia. Não é fácil mas é bonito amá-lo.
Desejar que ele seja bom e que a vida seja boa pra ele. Que lhe aconteçam as
melhores coisas. Que ele viva bem. Que ele coma, beba e durma bem. Que tenha um
horizonte para onde se dirigir. Que tenha pequenos e grandes sonhos. Que
celebre seus avanços. Que encontre apoio, amor, referências. Que faça ninhos.
Que faça viagens. Que faça e mantenha vínculos. Que deixe um pouco de si (de
preferência a teimosia) pelos caminhos e que leve um pouco do caminho nos
olhos. Que sinta saudades, porque será sintoma de que algo marcou, mas que não
se aprisione na memória. Que saiba seguir, firme, mas que não se esqueça de
parar para apreciar a paisagem. Que seja feliz, sim, muito, mas principalmente
que saiba quando está sendo feliz.
Que entenda o amor que recebe. E que
sejam muitos os anos que tenha para vir a ser quem ele vem se fazendo. Enorme –
e eu não estou falando da sua altura, desta vez, mas da sua alma. Muitas vezes eu brinco: fui eu quem
fiz. Foi não, mas tenho orgulho, alegria, prazer de fazer parte desta história.
Eu te amo, filho.
Eu te amo, filho.



