Sou de 1975. Eu me
tornei jovem quando as coisas começaram a parecer possíveis. Fui criada para a
esperança. Não para as certezas (a história dos meus pais não lhes permitiria) mas para a vontade. Eu
conheci o mundo do trabalho via agentes comunitários de saúde e assentados. Eu
aprendi. Eu troquei. Paciência histórica, recém saímos da ditadura, ainda
éramos racistas e desiguais, mas havia brechas. Os Conselhos Escolares. As
associações comunitárias. Os conselhos municipais, o projeto são josé... vãos.
A se ocupar. De maneira equivocada, tantas vezes. Somos o nosso tempo, também.
Cooperativas de gestão centralizadora. Faz parte, há de chegar propícia estação
e fecundar o chão. Horizontes.
Mais que esperar a
transformação, eu, nós, a perseguíamos. Julgávamos nela trabalhar. Um mundo
mais justo. Um Brasil mais igual. Um sertão sem fome. Árido e belo. Não apesar
de. Por causa, também.
De onde vinha esse
anseio de mudar o cotidiano das gentes? De onde vinha a identificação com a
falta, com quem trabalho, com quem não tem escolha se eu nunca precisei? Eu era
filha de classe média que antes não era. Tornou-se. Profissional liberal e dona
de casa. Lá do interior do mato, da caatinga, do roçado. Auxiliar de pedreiro,
costureira, normalista, motorista, gerente de hotel, economista. Negro, índio,
branca. Misturados. Colégio de freira. Grupo de crisma. Pastoral da juventude
do meio popular. Pai nosso, dos pobres marginalizados, pai nosso, dos mártires,
dos torturados. Sem deus, fé na vida, fé no homem, fé no que virá.
Pequenos passos.
Passos maiores. A luta antimanicomial. Uma prefeitura no interior. Outra. A
metáfora da sementinha, mesmo fora da bíblia, parecia boa. O SUS. Um
presidente. Água encanada. Energia elétrica. Microcrédito. Azulejo nas casas
que antes eram taipa. Prima segunda formada sem sair da sua cidade, no coração
do Ceará. Uma universidade no semiárido. Irrelevâncias ante a enormidade do que
o Brasil precisava? Sim. Mas era a minha gente vivendo. Vivendo mais. Vivendo
melhor.
Talvez a mudança
não viesse tão rápido como eu queria. Repressão policial, tanta. Minorias
preteridas. Um desenvolvimentismo que fecha os olhos pro massacre indígena. A
gente ri, a gente chora. Ainda tem luta. Porque se pra você tá bom? Ainda
assim, o caminho claro. O certo. Porque é certo. Ali, olha, vai ter peleja, as
forças de sempre querem ficar.
Não era pra ser
fácil. E não vinha sendo. Sabia-se que não seria logo. E demorava ainda mais do
que se pensava. Não seria sem luta. E tínhamos disposição para a rua, para o
impasse, para o confronto.
Mas, dizia eu, fui
criada para a esperança. Para o processo. Para a mudança. Para a contenda. Fui
criada no eco das músicas do Chico, da poesia do Brecht, nas lembranças de
Romeros. Oscar, não britto. Daí que. Um muro. Outro. Outro. O ódio.
Ódio ao pobre. Às
poucas conquistas sociais. Ódio ao nordestino. Ao nordestino pobre. Ódio a quem
fez quase nada pra que o nordestino pobre não morresse apenas por ser isso:
nordestino e pobre. Ódio por dentro. De dentro. Tão empolgada com as idéias de
Paulo Freire. Tão empolgada com a dialética, as contradições, que a gente
esquece da internalização do ódio. Acaba o bolsa família. Joga pedra no bolsa
família. É feita pra apanhar, boa de cuspir. Dá pra qualquer um, maldita bolsa
família.
Eu ouvia a música
do Chico e pensava em como superar o café pequeno e manteiga no pão e me vejo
jogada na primeira parte da canção - que eu pensava superada. O que se quer pra
gente é isso: encurralados, dominados, violados, rotos, quebrados, desmontados.
Pois eu estou.
Acuso o golpe. A gente aprende a apanhar #Balboafeelings mas aquele cruzado no queixo
pode ser a gota d'água. Aquele comentário alienado da pessoa próxima. A postura
do amigo descolado e boa gente que celebra uma decisão que ele reconhece
equivocada mas, foda-se. Golpe abaixo da cintura, por fim.
Então, vão me
desculpar se hoje eu estou meio perdida. Vão me perdoar se levo tudo pro
pessoal. Quem odeia assim minha gente, me odeia. Inclusive minha própria gente
que me ama e se odeia, sinto seu ódio por você mesma como ódio por mim.
Estou lendo muitas
análises inteligentes. Parabéns pra vocês. A culpa é da mania de conciliação.
Estou até aceitando, porque não tenho energia, hoje, pra tentar ser mais do que
eu sou. Era essa a beleza que eu via no mundo do possível. A gente ia se
fazendo quem a gente queria ser a partir do que a gente podia ser.
Mas parece que não.
Ou se é tudo, ou. E eu, eu não sou o bastante.





