Não tenho certeza se foi o primeirão mesmo, mas o primeiro livro da
Agatha Christie que li foi O Cavalo Amarelo. Nem gostei tanto deste livro,
naquela época (já hoje, ah, hoje), mas me enrabichei pelo estilo. Sofregamente
passei a devorar os livros de AC. Gosto deste tipo de narrativa por vários
motivos e um dos mais relevantes é que faz sentido (expliquei direitinho aqui). Gosto ainda mais dos livros
da AC porque ela disfarça, com crimes, o que há de humano: os amores, a velhice
solitária, os estereótipos e papéis sociais, os pequenos vícios, a vontade de
dizer sua vida melhor do que lhe parece, as inseguranças, as devoções. E claro,
gosto ainda mais porque ela traz pra roda tanta gente querida com quem travei
relações: Miss Marple, Tommy e Puppence, Blatt, tanta gente querida. E Poirot.
Eu não tolero assassinatos, diz Poirot, em uma das muitas
histórias que a querida Agatha criou para ele. Acho que essa frase caracteriza
mais o personagem do que sua cabeça oval, seus olhos de gato, seu amor à
simetria, comida boa, bebidas doces e mulheres exuberantes. Empata com a
relação que tem com seu bigode, acho. E toca fundo em mim. Tem uma ética
embutida no comportamento de Poirot com a qual me sintonizo: cada vida humana é
importante. Ele não liga muito pra mentiras, por exemplo, “faz parte”. Mas a
vida de alguém, ah, não mexa com isso que o olhinho de gato brilha. Ele tem um
argumento sobre não deixar assassinatos impunes, meio: a pessoa se acostuma a
resolver os problemas assim. Mas não é só isso: ele se importa.
(tem outra coisa, ele tem uma admiração/atração
pela nobreza/aristocracia meio esnobe, né. #MeIdentifico)
Ontem a Juliana me mostrou o trailer do filme “Assassinato no Expressodo Oriente” e eu comentei com ela como gosto de AC e como, entre todas as
releituras, este é um dos que eu mais. Daí ela disse: e post sobre essa relação, você e o livro, não tem? Eu não costumo
nem gosto muito de escrever sobre livros basicamente porque: eu não sei
escrever sobre livros. Mas o que ela me perguntava não era sobre o livro – que também
já leu, mas da relação. Estou tentando, amiga, estou tentando (e para este post, reli mais uma vez).
Numa conta simples, releio Agathas há mais de vinte anos. Este,
destacadamente, pelo menos três vezes por ano (caso doa muito o viver, corro na
AC disponível, então o número pode ser bem maior que 60 releituras). Esse, como
os outros, porque conforta. Porque organiza. Aninha. Acalenta. As pistas estão
lá. Trilhas.
Diferente das minhas preferências literárias convencionais, nem tenho
tanto vínculo com os personagens deste livro. O que mais gosto é como Poirot
vai deduzindo, fechando lacunas, como ele vai se perguntando “como o impossível
foi possível?”. A beleza da idéia se encaixando no real. As células cinzentas,
patatati, patatá. Não há nenhum disfarce, desde o começo a pergunta pode ser mais de um assassino? passeia
na trama. Mas, mesmo assim, a beleza do desenlace. Um fim redondinho. É a
racionalidade do enredo que eu admiro.
É isso. É isso?
Porque tem aquela frase, tão simples e boba, “não há necessidade de
incluir todos, tal e tal, tem Mary e o Coronel Arbutnhot, que se amam”. Eu leio
e choro. Na verdade, escrevi aqui e chorei. Eu nem empatizo tanto com a
motivação da galera. Eu nem mesmo tenho especial afeto por Mary e o coronel. Mas
eu choro. Sei lá direito porquê. Porque os convencionais, como os brutos,
também amam, provavelmente. Porque cada personagem tem uma história que não é
contada, que não precisa ser contada, mas se intui (escrevendo aqui e fico
pensando em 7 homens e um destino que me ganhou com este mesmo recurso).
Então mesmo sem cada um ser especial pra mim, eu torço por eles. Por
esse amor quadradinho, inclusive. E, olha aí de novo a sintonia com Poirot,
também é neste que ele não faz esforço pra verdade se revelar, para o(s)
assassino(s) serem punidos. Ele deixa passar.Vai ver, Juliana, é isso que me faz voltar tanto a este livro. Tem o
conforto do que faz e dá sentido, mas tem a liberdade de não precisar ser,
sempre, fiel a mim mesma. Uma fresta.
furando a fila: uma poltrona no quarto antes que eu fique toda troncha. Acho que vai ter de ser uma daquelas de amamentação, o resto é muito caro. Mas porque tão brancas?
Todas as turmas consolidadas. Chico feliz. Você se empolga, pega um monte de trabalho e se sobrecarrega pro próximo semestre. Chico triste.
Estou em um relacionamento caloroso com o brócolis processado.
E agora vou fuçar a net atrás de uma versão cinematográfica enquanto espero, né.
Eu também gosto demais da Miss Maple, como não vou falar dela desta vez, deixo o ótimo post da Renata Lins.