terça-feira, 6 de junho de 2017

Mulher Maravilha: primeiros comentários aleatórios

Ainda vou escrever sobre o filme, acho, mas, por agora, antes de dormir, umas considerações aleatórias (pode ter spoiler, não sei, se achar isso importante, melhor evitar).


Mulher Maravilha é um filme muito bom por vários motivos que você pode encontrar elencados em várias críticas feitas por gente mais qualificadas pra avaliar do que eu. Mas algumas coisas do roteiro são destaque pra mim:

a) Na batalha final só tem soldado envolvido. Pode parecer bobo, mas estou cansada de heróis indiferentes;
b) O deslumbramento que Diana tem diante de Londres, do mundo fora da ilha, é o mesmo que espero nunca perder;
c) A personagem cria laços, não só com o paquera.

Tocou-me especialmente o momento militante do filme: você vai, dá o sangue, se esforça paca pra ter um pequeno avanço, salvar uma pequena vila, ter uma noite de dança, riso e brindes. No dia seguinte tá tudo devastado, tão passando PEC retrógrada que impede o aborto até de vítimas de estupro e a gente fica WHAT? NO! E tem que sacudir a poeira e continuar na peleja. Não vamos salvar o mundo, eu sei, a Mulher Maravilha sabe. Mas vamos continuar por aí, pelo bem da humanidade, dando nossas porradas e falando de amor.

PS. Não nego nem confirmo que chorei quando apareceu a menininha imitando as guerreiras.

domingo, 4 de junho de 2017

Killing Me Softly

Já faz um tempo que vi the killing. Na época, achei ok. Boa. Mas não me lembro de ter causado nenhuma emoção especial. Aí, ontem. Tanta coisa, ontem. Londres e tal. E eu, que busco sentido e refúgio nos romances policiais, resolvi ver se o efeito era parecido com séries e revi um episódio aleatório de The Killing. E tem coisa que fica enterradinha que nem semente, né? Nem sabia que podia recordar tanto. Penso que o mais doloroso desta série é perceber que podemos recorrentemente enfiar o pé na jaca. Nada nos protege da nossa capacidade de errar. Moral da história: se você estiver se sentindo meio mal na vida, sempre pode rever um episódio de the killing e se sentir pior.



Tem aquela crônica maravilhosa do Verissimo do cara que era da geração errada. A primeira depois dos cachinhos em bebês e a última antes de ser absurdo bater em crianças. A última antes da pílula. Coisas assim. Hoje eu rio muito mais deste texto do que nas primeiras vezes que li. De nervoso, provavelmente. Não creio que minha geração tenha algum problema de timing. Mas ando matutando se eu não estou meio fora de ritmo. A sensação de ter chegado antes da festa começar ou ir embora quando ela está realmente ficando boa. Tento acertar a passada, mas é inútil. Fiz antes. Ou ainda não fiz. Quando sentiram as dúvidas eu já havia aprendido a lidar com elas. Suspeito que outras chegarão pra mim quando não for mais questão pra ninguém. Cada vez mais sozinha. E eu podia fazer de conta que não dou a mínima, como quase sempre, mas tem horas que. E mesmo nem sendo tantas, quando são, são sinédoque – que aprendi como metonímia (isto, imagino, seja mesmo uma questão geracional).


No Handmaid’s Tale da semana que passou, a Aia insiste em manter os encontros perigosos com o motorista. A gente pode morrer, ele argumenta. E ela não diz, mas é como se: se morrermos, significa que estávamos vivos...sem os encontros, sem alguém que saiba quem eu, é como não estar. É sendo vista, tocada, desejada que ela deixa de ser Aia e se afirma June. Quando o moço sustenta que não vai continuar encontrando-a, ela replica, com desprezo: Sob os olhos Dele. Um olhar que desintegra. Se você não me vê, desapareceremos sob o absoluto desse olhar que suprime individualidades. 

Sem o Outro, não sou. Dying softly. 

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Assassinato no Expresso do Oriente e Eu

Não tenho certeza se foi o primeirão mesmo, mas o primeiro livro da Agatha Christie que li foi O Cavalo Amarelo. Nem gostei tanto deste livro, naquela época (já hoje, ah, hoje), mas me enrabichei pelo estilo. Sofregamente passei a devorar os livros de AC. Gosto deste tipo de narrativa por vários motivos e um dos mais relevantes é que faz sentido (expliquei direitinho aqui). Gosto ainda mais dos livros da AC porque ela disfarça, com crimes, o que há de humano: os amores, a velhice solitária, os estereótipos e papéis sociais, os pequenos vícios, a vontade de dizer sua vida melhor do que lhe parece, as inseguranças, as devoções. E claro, gosto ainda mais porque ela traz pra roda tanta gente querida com quem travei relações: Miss Marple, Tommy e Puppence, Blatt, tanta gente querida. E Poirot.

Eu não tolero assassinatos, diz Poirot, em uma das muitas histórias que a querida Agatha criou para ele. Acho que essa frase caracteriza mais o personagem do que sua cabeça oval, seus olhos de gato, seu amor à simetria, comida boa, bebidas doces e mulheres exuberantes. Empata com a relação que tem com seu bigode, acho. E toca fundo em mim. Tem uma ética embutida no comportamento de Poirot com a qual me sintonizo: cada vida humana é importante. Ele não liga muito pra mentiras, por exemplo, “faz parte”. Mas a vida de alguém, ah, não mexa com isso que o olhinho de gato brilha. Ele tem um argumento sobre não deixar assassinatos impunes, meio: a pessoa se acostuma a resolver os problemas assim. Mas não é só isso: ele se importa.

(tem outra coisa, ele  tem uma admiração/atração pela nobreza/aristocracia meio esnobe, né. #MeIdentifico)



Ontem a Juliana me mostrou o trailer do filme “Assassinato no Expressodo Oriente” e eu comentei com ela como gosto de AC e como, entre todas as releituras, este é um dos que eu mais. Daí ela disse: e post sobre essa relação, você e o livro, não tem? Eu não costumo nem gosto muito de escrever sobre livros basicamente porque: eu não sei escrever sobre livros. Mas o que ela me perguntava não era sobre o livro – que também já leu, mas da relação. Estou tentando, amiga, estou tentando (e para este post, reli mais uma vez).

Numa conta simples, releio Agathas há mais de vinte anos. Este, destacadamente, pelo menos três vezes por ano (caso doa muito o viver, corro na AC disponível, então o número pode ser bem maior que 60 releituras). Esse, como os outros, porque conforta. Porque organiza. Aninha. Acalenta. As pistas estão lá. Trilhas.

Diferente das minhas preferências literárias convencionais, nem tenho tanto vínculo com os personagens deste livro. O que mais gosto é como Poirot vai deduzindo, fechando lacunas, como ele vai se perguntando “como o impossível foi possível?”. A beleza da idéia se encaixando no real. As células cinzentas, patatati, patatá. Não há nenhum disfarce, desde o começo a pergunta pode ser mais de um assassino? passeia na trama. Mas, mesmo assim, a beleza do desenlace. Um fim redondinho. É a racionalidade do enredo que eu admiro.

É isso. É isso?

Porque tem aquela frase, tão simples e boba, “não há necessidade de incluir todos, tal e tal, tem Mary e o Coronel Arbutnhot, que se amam”. Eu leio e choro. Na verdade, escrevi aqui e chorei. Eu nem empatizo tanto com a motivação da galera. Eu nem mesmo tenho especial afeto por Mary e o coronel. Mas eu choro. Sei lá direito porquê. Porque os convencionais, como os brutos, também amam, provavelmente. Porque cada personagem tem uma história que não é contada, que não precisa ser contada, mas se intui (escrevendo aqui e fico pensando em 7 homens e um destino que me ganhou com este mesmo recurso).

Então mesmo sem cada um ser especial pra mim, eu torço por eles. Por esse amor quadradinho, inclusive. E, olha aí de novo a sintonia com Poirot, também é neste que ele não faz esforço pra verdade se revelar, para o(s) assassino(s) serem punidos. Ele deixa passar.Vai ver, Juliana, é isso que me faz voltar tanto a este livro. Tem o conforto do que faz e dá sentido, mas tem a liberdade de não precisar ser, sempre, fiel a mim mesma. Uma fresta.






furando a fila: uma poltrona no quarto antes que eu fique toda troncha. Acho que vai ter de ser uma daquelas de amamentação, o resto é muito caro. Mas porque tão brancas?

Todas as turmas consolidadas. Chico feliz. Você se empolga, pega um monte de trabalho e se sobrecarrega pro próximo semestre. Chico triste.

Estou em um relacionamento caloroso com o brócolis processado.


E agora vou fuçar a net atrás de uma versão cinematográfica enquanto espero, né.


Eu também gosto demais da Miss Maple, como não vou falar dela desta vez, deixo o ótimo post da Renata Lins.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Espia

Ontem tinhas umas amigas falando de arrependimento. E, olha, eu até posso me arrepender. Mas eu não lembro do quê. Não é que eu não tenha feito besteiras na vida. Fiz um bocado. Mas eu olho pra trás e vejo que as decisões, os rumos que tomei, as coisas que disse e fiz, foi o que era possível, na conjuntura, sendo eu quem eu era e não quem eu sou.


Ela abriu os olhos, ele abriu os braços, ela abriu as pernas, ele abriu o peito, eles abriram caminhos e no descampado que se formou acenderam fogueira, jogaram sementes, ali acamparam e alguém batizou: amor.

Completamente obsoleta: iluminismo, psicanálise, teoria crítica, materialismo dialético, gente, correios, Frank Capra. 

Tenho tentado ver um filme por dia. Tenho tido sucesso na empreitada mas ficando abalada com as escolhas. Tenho investido em gêneros “leves”: heróis, faroestes, espiões. Nostálgica, tentando reencontrar os valores: coragem, autosacrifício, empatia. Não sei se rio ou se choro. Os heróis, espiões e mocinhos de maneira geral continuam empenhados em salvar o mundo. Mas, para isso, não tem problema atropelar todo mundo que passa pela frente. Um mundo salvo. Sem pessoas, mas quem se importa com estes descartáveis né? 

Uma coisa que eu tenho dificuldade, assumo, é este lance de triggered #MeJulguem. 

Por outro lado, 2017 e estamos preocupadas com o peso, falando do cabelo e fazendo o trabalho doméstico. 

Status: adoecida com a situação da enchente em lugares do Nordeste.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Os Russos

Tem poucas coisas que eu faço todo dia. Tomar banho é uma delas (em qualquer clima). E, ultimamente, voltei a escrever diariamente. Quando falo de escrever não estou me referindo às inúmeras linhas de e-mails de trabalho, páginas de artigos, memorandos, status engraçadinhos ou revoltados no FB. Estou falando daquela empreitada falida de tentar colocar sentido no lugar do oco. Esticar palavras feito cobertor curto pro real. E, de vez em quando, usar com tesoura pra rasgar o véu. Ou seja, contradizer(me). Faz bem, mesmo que nem sempre seja bom. É aquela pocinha d’água arriscada do amigo Narciso. Espelho de Medusa. Mas, também, fio de Ariadne.



Quanto mais escrevo, mais vontade tenho de ler – e não livros de trabalho, não compreensão da geopolítica, não tratados antropológicos. Literatura. Biografias. Psicanálise.

Dia de quarta tem futebol.

Status: amigo imaginário.

As coisas que sinto saudades: deixar a comida fora da geladeira. Fazer mercado a pé. O cheiro da rua.

Quanto mais escrevo mais percebo que não tenho assunto.


Eu tinha preparado tudo para a última vez. Dormir de dedos entrelaçados. O olhar demorado de manhã cedo, antes de você acordar. As poucas palavras no trajeto. O abraço desajeitado na estação. Ia ser cálido. Escolhi e ensaiei esta palavra. Cálido sobe morno do peito e desliza suave na língua. Cálido não tem arestas.  Virar devagar, a mala pesada bambeando na subida da calçada, não olha pra trás, não olha pra trás, coloca a mala no bagageiro, entrega a passagem, não olha pra trás. Olhar. O embaçado do meu olho e o embaraçado do seu rosto. Meios sorrisos. Acolheríamos a saudade como se ela já fosse antiga. Eu tinha tudo preparado. Pena não ter combinado com os russos. 


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