sexta-feira, 2 de junho de 2017

Assassinato no Expresso do Oriente e Eu

Não tenho certeza se foi o primeirão mesmo, mas o primeiro livro da Agatha Christie que li foi O Cavalo Amarelo. Nem gostei tanto deste livro, naquela época (já hoje, ah, hoje), mas me enrabichei pelo estilo. Sofregamente passei a devorar os livros de AC. Gosto deste tipo de narrativa por vários motivos e um dos mais relevantes é que faz sentido (expliquei direitinho aqui). Gosto ainda mais dos livros da AC porque ela disfarça, com crimes, o que há de humano: os amores, a velhice solitária, os estereótipos e papéis sociais, os pequenos vícios, a vontade de dizer sua vida melhor do que lhe parece, as inseguranças, as devoções. E claro, gosto ainda mais porque ela traz pra roda tanta gente querida com quem travei relações: Miss Marple, Tommy e Puppence, Blatt, tanta gente querida. E Poirot.

Eu não tolero assassinatos, diz Poirot, em uma das muitas histórias que a querida Agatha criou para ele. Acho que essa frase caracteriza mais o personagem do que sua cabeça oval, seus olhos de gato, seu amor à simetria, comida boa, bebidas doces e mulheres exuberantes. Empata com a relação que tem com seu bigode, acho. E toca fundo em mim. Tem uma ética embutida no comportamento de Poirot com a qual me sintonizo: cada vida humana é importante. Ele não liga muito pra mentiras, por exemplo, “faz parte”. Mas a vida de alguém, ah, não mexa com isso que o olhinho de gato brilha. Ele tem um argumento sobre não deixar assassinatos impunes, meio: a pessoa se acostuma a resolver os problemas assim. Mas não é só isso: ele se importa.

(tem outra coisa, ele  tem uma admiração/atração pela nobreza/aristocracia meio esnobe, né. #MeIdentifico)



Ontem a Juliana me mostrou o trailer do filme “Assassinato no Expressodo Oriente” e eu comentei com ela como gosto de AC e como, entre todas as releituras, este é um dos que eu mais. Daí ela disse: e post sobre essa relação, você e o livro, não tem? Eu não costumo nem gosto muito de escrever sobre livros basicamente porque: eu não sei escrever sobre livros. Mas o que ela me perguntava não era sobre o livro – que também já leu, mas da relação. Estou tentando, amiga, estou tentando (e para este post, reli mais uma vez).

Numa conta simples, releio Agathas há mais de vinte anos. Este, destacadamente, pelo menos três vezes por ano (caso doa muito o viver, corro na AC disponível, então o número pode ser bem maior que 60 releituras). Esse, como os outros, porque conforta. Porque organiza. Aninha. Acalenta. As pistas estão lá. Trilhas.

Diferente das minhas preferências literárias convencionais, nem tenho tanto vínculo com os personagens deste livro. O que mais gosto é como Poirot vai deduzindo, fechando lacunas, como ele vai se perguntando “como o impossível foi possível?”. A beleza da idéia se encaixando no real. As células cinzentas, patatati, patatá. Não há nenhum disfarce, desde o começo a pergunta pode ser mais de um assassino? passeia na trama. Mas, mesmo assim, a beleza do desenlace. Um fim redondinho. É a racionalidade do enredo que eu admiro.

É isso. É isso?

Porque tem aquela frase, tão simples e boba, “não há necessidade de incluir todos, tal e tal, tem Mary e o Coronel Arbutnhot, que se amam”. Eu leio e choro. Na verdade, escrevi aqui e chorei. Eu nem empatizo tanto com a motivação da galera. Eu nem mesmo tenho especial afeto por Mary e o coronel. Mas eu choro. Sei lá direito porquê. Porque os convencionais, como os brutos, também amam, provavelmente. Porque cada personagem tem uma história que não é contada, que não precisa ser contada, mas se intui (escrevendo aqui e fico pensando em 7 homens e um destino que me ganhou com este mesmo recurso).

Então mesmo sem cada um ser especial pra mim, eu torço por eles. Por esse amor quadradinho, inclusive. E, olha aí de novo a sintonia com Poirot, também é neste que ele não faz esforço pra verdade se revelar, para o(s) assassino(s) serem punidos. Ele deixa passar.Vai ver, Juliana, é isso que me faz voltar tanto a este livro. Tem o conforto do que faz e dá sentido, mas tem a liberdade de não precisar ser, sempre, fiel a mim mesma. Uma fresta.






furando a fila: uma poltrona no quarto antes que eu fique toda troncha. Acho que vai ter de ser uma daquelas de amamentação, o resto é muito caro. Mas porque tão brancas?

Todas as turmas consolidadas. Chico feliz. Você se empolga, pega um monte de trabalho e se sobrecarrega pro próximo semestre. Chico triste.

Estou em um relacionamento caloroso com o brócolis processado.


E agora vou fuçar a net atrás de uma versão cinematográfica enquanto espero, né.


Eu também gosto demais da Miss Maple, como não vou falar dela desta vez, deixo o ótimo post da Renata Lins.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Espia

Ontem tinhas umas amigas falando de arrependimento. E, olha, eu até posso me arrepender. Mas eu não lembro do quê. Não é que eu não tenha feito besteiras na vida. Fiz um bocado. Mas eu olho pra trás e vejo que as decisões, os rumos que tomei, as coisas que disse e fiz, foi o que era possível, na conjuntura, sendo eu quem eu era e não quem eu sou.


Ela abriu os olhos, ele abriu os braços, ela abriu as pernas, ele abriu o peito, eles abriram caminhos e no descampado que se formou acenderam fogueira, jogaram sementes, ali acamparam e alguém batizou: amor.

Completamente obsoleta: iluminismo, psicanálise, teoria crítica, materialismo dialético, gente, correios, Frank Capra. 

Tenho tentado ver um filme por dia. Tenho tido sucesso na empreitada mas ficando abalada com as escolhas. Tenho investido em gêneros “leves”: heróis, faroestes, espiões. Nostálgica, tentando reencontrar os valores: coragem, autosacrifício, empatia. Não sei se rio ou se choro. Os heróis, espiões e mocinhos de maneira geral continuam empenhados em salvar o mundo. Mas, para isso, não tem problema atropelar todo mundo que passa pela frente. Um mundo salvo. Sem pessoas, mas quem se importa com estes descartáveis né? 

Uma coisa que eu tenho dificuldade, assumo, é este lance de triggered #MeJulguem. 

Por outro lado, 2017 e estamos preocupadas com o peso, falando do cabelo e fazendo o trabalho doméstico. 

Status: adoecida com a situação da enchente em lugares do Nordeste.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Os Russos

Tem poucas coisas que eu faço todo dia. Tomar banho é uma delas (em qualquer clima). E, ultimamente, voltei a escrever diariamente. Quando falo de escrever não estou me referindo às inúmeras linhas de e-mails de trabalho, páginas de artigos, memorandos, status engraçadinhos ou revoltados no FB. Estou falando daquela empreitada falida de tentar colocar sentido no lugar do oco. Esticar palavras feito cobertor curto pro real. E, de vez em quando, usar com tesoura pra rasgar o véu. Ou seja, contradizer(me). Faz bem, mesmo que nem sempre seja bom. É aquela pocinha d’água arriscada do amigo Narciso. Espelho de Medusa. Mas, também, fio de Ariadne.



Quanto mais escrevo, mais vontade tenho de ler – e não livros de trabalho, não compreensão da geopolítica, não tratados antropológicos. Literatura. Biografias. Psicanálise.

Dia de quarta tem futebol.

Status: amigo imaginário.

As coisas que sinto saudades: deixar a comida fora da geladeira. Fazer mercado a pé. O cheiro da rua.

Quanto mais escrevo mais percebo que não tenho assunto.


Eu tinha preparado tudo para a última vez. Dormir de dedos entrelaçados. O olhar demorado de manhã cedo, antes de você acordar. As poucas palavras no trajeto. O abraço desajeitado na estação. Ia ser cálido. Escolhi e ensaiei esta palavra. Cálido sobe morno do peito e desliza suave na língua. Cálido não tem arestas.  Virar devagar, a mala pesada bambeando na subida da calçada, não olha pra trás, não olha pra trás, coloca a mala no bagageiro, entrega a passagem, não olha pra trás. Olhar. O embaçado do meu olho e o embaraçado do seu rosto. Meios sorrisos. Acolheríamos a saudade como se ela já fosse antiga. Eu tinha tudo preparado. Pena não ter combinado com os russos. 


segunda-feira, 29 de maio de 2017

Molotov, com gelo

Recomeça a semana, redobro a atenção: vamos ficar de olho nas reformas, gente.

Andaram me cobrando uma postura mais clara, incisiva, militante, etc. Olha, eu achava que era óbvio, mas se não é, esclareço: eu sou miúda. Não sei do movimento das grandes placas tectônicas. Não sei os nomes, as ligas, os rumos, as possibilidades, os detalhes escabrosos, a variedade de análises, as informações imprescindíveis. Eu só tenho aquela bússola no peito (e é bom porque aí ocupa o lugar que o ausente coração deixa vago). Ela serve pra mim. E só pra mim. Muitas vezes nem sei explicar direito porquê, apenas sei pra onde ir (o que, claro, muitas vezes me faz parecer sabida, a galera chega depois das reflexões e eu já estou lá. Mas não, eu não pensei mais rápido. Eu apenas não pensei).

Ou seja: eu tô por fora mesmo.



Como a gente sabe pra quando solicitar as férias se não tem nem idéia do calendário letivo?

Acho que o que dá a exata dimensão das minhas limitações é: eu não faço massa em casa.

Eu sinto falta de sentir sua falta.

A verdade é que eu tenho muita preguiça. Inclusive de sofrer. 

Eu fico meio perplexa com as pessoas que querem utopias sem lidar com os dados da realidade. 

Eu tenho uma certa inveja de quem só percebe no depois. Tenho a impressão que fica um resto por usufruir. Eu era feliz e sabia. 

sábado, 27 de maio de 2017

Prioridades

Eu deveria juntar dinheiro para:
Uma coberta no quintal
O escritório
Um tapete
Vasos, plantas, dar um trato no jardim da frente
Box nos banheiros
Aliás, dar um trato geral nos banheiros
Ventiladores
Uma horta
Um óculos
Um tratamento caro pra rosácea
Uma máquina de lavar louça
Colocar moldura nos quadros
Pagar as dívidas antigas
Pagar as contas de todo mês
Um filtro

Eu só penso em: viajar.

***********
Daí teve a matéria sobre a escola que faz tudo, etc. E o que ficou pra mim foi uma suposta dicotomia entre tempo de qualidade X fazer coisas cotidianas como cozinhar, cortar a unha, ir ao supermercado. Eu não vejo dicotomia entre as duas coisas, pra mim a qualidade do tempo não está no que se faz, mas no como. E ainda acho que coisas como cuidados pessoais e alimentação são dos “o quês” mais relevantes em termos de conteúdo também. Poucos momentos me davam mais alegria que cortar as unhas do meu lobisomem de estimação ou cozinhar linguiça com batata pra nós enquanto ele desenhava na mesa da cozinha. 

E não, eu não acho que as mães tem que fazer coisas. Nem que mulheres tem que fazer coisas. Eu suspeito que pessoas que fazem coisas básicas do viver constroem vínculos. Eu acho que relações são construídas. Inclusive com crianças. Os laços não estão dados. Também acho que estas crianças serão adultos que precisarão cuidar de si mesmas. Enfim.

Penso que há uma diferença enorme entre coletivização do cuidado e mercantilização do mesmo. Então eu sim: creches públicas. Eu não: professores sendo babás.

Com certeza o mundo é feito de gente muito mais interessante que eu. Nem consigo imaginar porque alguém, filho ou não, de qualquer idade iria queria passar muito tempo - de qualidade ou não - comigo. 

Falando em tempo, ficar junto, máquina fotográfica, etc. eu fico pensando que, apesar de não ser muito de "e se", tem muita coisa não acontecida que podia ser feliz. 

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Uma certeza sobre mim: eu nunca serei namastê-natureza. Uma das coisas que eu mais gosto na humanidade é que a gente transforma o mundo. Enfia o pé na jaca muitas vezes, mas que bonito que o Davi é. 

Eu sempre fui meio empurrando a vida com a barriga #ZecaBaleiroFeelings. Nunca suspeitei que havia um jeito certo. Um modelo. Uma pauta para ser, o que quer que fosse, a não ser do meu próprio jeito. Hoje, 40 e tantos nos couros, fico contente de ter sido assim. Deve ser difícil viver achando que se devia fazer mais. Ser mais. Ser melhor. 

E sobre o quadrinho circulante só posso dizer: Almir, melhor em tudo. 

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