quarta-feira, 31 de maio de 2017

Espia

Ontem tinhas umas amigas falando de arrependimento. E, olha, eu até posso me arrepender. Mas eu não lembro do quê. Não é que eu não tenha feito besteiras na vida. Fiz um bocado. Mas eu olho pra trás e vejo que as decisões, os rumos que tomei, as coisas que disse e fiz, foi o que era possível, na conjuntura, sendo eu quem eu era e não quem eu sou.


Ela abriu os olhos, ele abriu os braços, ela abriu as pernas, ele abriu o peito, eles abriram caminhos e no descampado que se formou acenderam fogueira, jogaram sementes, ali acamparam e alguém batizou: amor.

Completamente obsoleta: iluminismo, psicanálise, teoria crítica, materialismo dialético, gente, correios, Frank Capra. 

Tenho tentado ver um filme por dia. Tenho tido sucesso na empreitada mas ficando abalada com as escolhas. Tenho investido em gêneros “leves”: heróis, faroestes, espiões. Nostálgica, tentando reencontrar os valores: coragem, autosacrifício, empatia. Não sei se rio ou se choro. Os heróis, espiões e mocinhos de maneira geral continuam empenhados em salvar o mundo. Mas, para isso, não tem problema atropelar todo mundo que passa pela frente. Um mundo salvo. Sem pessoas, mas quem se importa com estes descartáveis né? 

Uma coisa que eu tenho dificuldade, assumo, é este lance de triggered #MeJulguem. 

Por outro lado, 2017 e estamos preocupadas com o peso, falando do cabelo e fazendo o trabalho doméstico. 

Status: adoecida com a situação da enchente em lugares do Nordeste.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Os Russos

Tem poucas coisas que eu faço todo dia. Tomar banho é uma delas (em qualquer clima). E, ultimamente, voltei a escrever diariamente. Quando falo de escrever não estou me referindo às inúmeras linhas de e-mails de trabalho, páginas de artigos, memorandos, status engraçadinhos ou revoltados no FB. Estou falando daquela empreitada falida de tentar colocar sentido no lugar do oco. Esticar palavras feito cobertor curto pro real. E, de vez em quando, usar com tesoura pra rasgar o véu. Ou seja, contradizer(me). Faz bem, mesmo que nem sempre seja bom. É aquela pocinha d’água arriscada do amigo Narciso. Espelho de Medusa. Mas, também, fio de Ariadne.



Quanto mais escrevo, mais vontade tenho de ler – e não livros de trabalho, não compreensão da geopolítica, não tratados antropológicos. Literatura. Biografias. Psicanálise.

Dia de quarta tem futebol.

Status: amigo imaginário.

As coisas que sinto saudades: deixar a comida fora da geladeira. Fazer mercado a pé. O cheiro da rua.

Quanto mais escrevo mais percebo que não tenho assunto.


Eu tinha preparado tudo para a última vez. Dormir de dedos entrelaçados. O olhar demorado de manhã cedo, antes de você acordar. As poucas palavras no trajeto. O abraço desajeitado na estação. Ia ser cálido. Escolhi e ensaiei esta palavra. Cálido sobe morno do peito e desliza suave na língua. Cálido não tem arestas.  Virar devagar, a mala pesada bambeando na subida da calçada, não olha pra trás, não olha pra trás, coloca a mala no bagageiro, entrega a passagem, não olha pra trás. Olhar. O embaçado do meu olho e o embaraçado do seu rosto. Meios sorrisos. Acolheríamos a saudade como se ela já fosse antiga. Eu tinha tudo preparado. Pena não ter combinado com os russos. 


segunda-feira, 29 de maio de 2017

Molotov, com gelo

Recomeça a semana, redobro a atenção: vamos ficar de olho nas reformas, gente.

Andaram me cobrando uma postura mais clara, incisiva, militante, etc. Olha, eu achava que era óbvio, mas se não é, esclareço: eu sou miúda. Não sei do movimento das grandes placas tectônicas. Não sei os nomes, as ligas, os rumos, as possibilidades, os detalhes escabrosos, a variedade de análises, as informações imprescindíveis. Eu só tenho aquela bússola no peito (e é bom porque aí ocupa o lugar que o ausente coração deixa vago). Ela serve pra mim. E só pra mim. Muitas vezes nem sei explicar direito porquê, apenas sei pra onde ir (o que, claro, muitas vezes me faz parecer sabida, a galera chega depois das reflexões e eu já estou lá. Mas não, eu não pensei mais rápido. Eu apenas não pensei).

Ou seja: eu tô por fora mesmo.



Como a gente sabe pra quando solicitar as férias se não tem nem idéia do calendário letivo?

Acho que o que dá a exata dimensão das minhas limitações é: eu não faço massa em casa.

Eu sinto falta de sentir sua falta.

A verdade é que eu tenho muita preguiça. Inclusive de sofrer. 

Eu fico meio perplexa com as pessoas que querem utopias sem lidar com os dados da realidade. 

Eu tenho uma certa inveja de quem só percebe no depois. Tenho a impressão que fica um resto por usufruir. Eu era feliz e sabia. 

sábado, 27 de maio de 2017

Prioridades

Eu deveria juntar dinheiro para:
Uma coberta no quintal
O escritório
Um tapete
Vasos, plantas, dar um trato no jardim da frente
Box nos banheiros
Aliás, dar um trato geral nos banheiros
Ventiladores
Uma horta
Um óculos
Um tratamento caro pra rosácea
Uma máquina de lavar louça
Colocar moldura nos quadros
Pagar as dívidas antigas
Pagar as contas de todo mês
Um filtro

Eu só penso em: viajar.

***********
Daí teve a matéria sobre a escola que faz tudo, etc. E o que ficou pra mim foi uma suposta dicotomia entre tempo de qualidade X fazer coisas cotidianas como cozinhar, cortar a unha, ir ao supermercado. Eu não vejo dicotomia entre as duas coisas, pra mim a qualidade do tempo não está no que se faz, mas no como. E ainda acho que coisas como cuidados pessoais e alimentação são dos “o quês” mais relevantes em termos de conteúdo também. Poucos momentos me davam mais alegria que cortar as unhas do meu lobisomem de estimação ou cozinhar linguiça com batata pra nós enquanto ele desenhava na mesa da cozinha. 

E não, eu não acho que as mães tem que fazer coisas. Nem que mulheres tem que fazer coisas. Eu suspeito que pessoas que fazem coisas básicas do viver constroem vínculos. Eu acho que relações são construídas. Inclusive com crianças. Os laços não estão dados. Também acho que estas crianças serão adultos que precisarão cuidar de si mesmas. Enfim.

Penso que há uma diferença enorme entre coletivização do cuidado e mercantilização do mesmo. Então eu sim: creches públicas. Eu não: professores sendo babás.

Com certeza o mundo é feito de gente muito mais interessante que eu. Nem consigo imaginar porque alguém, filho ou não, de qualquer idade iria queria passar muito tempo - de qualidade ou não - comigo. 

Falando em tempo, ficar junto, máquina fotográfica, etc. eu fico pensando que, apesar de não ser muito de "e se", tem muita coisa não acontecida que podia ser feliz. 

*********

Uma certeza sobre mim: eu nunca serei namastê-natureza. Uma das coisas que eu mais gosto na humanidade é que a gente transforma o mundo. Enfia o pé na jaca muitas vezes, mas que bonito que o Davi é. 

Eu sempre fui meio empurrando a vida com a barriga #ZecaBaleiroFeelings. Nunca suspeitei que havia um jeito certo. Um modelo. Uma pauta para ser, o que quer que fosse, a não ser do meu próprio jeito. Hoje, 40 e tantos nos couros, fico contente de ter sido assim. Deve ser difícil viver achando que se devia fazer mais. Ser mais. Ser melhor. 

E sobre o quadrinho circulante só posso dizer: Almir, melhor em tudo. 

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Molotov 3

Apesar dos estudos sérios que poderiam servir para justificar porque a internação compulsória é ineficaz, eu nem entro neste mérito... O fim nunca pode justificar o meio. Internação compulsória é violência. É anular o Outro como sujeito. Ponto.

Privilégio é aquele conceito pelo qual você tem simpatia, podia até usar com mais frequência, mas tem medo de ser confundida com quem consegue transformá-lo ora num vazio absoluto, ora numa bobagem inominável.

Eu sou daquele grupo que acha o sistema penal uma bosta de forma absoluta e, no que se refere aos usos no Brasil, uma aberração. Mas tem situações que ficam além do que é possível de comentar. Uma mulher rouba uns ovos de páscoa e tem pena maior que os réus do Lava-Jato (pra ficar na bola da vez). Uma mãe. Ovos de Páscoa. E aí um juiz (cês viram o vídeo do Gregório Duvivier, né), um ministro do STJ diz que não dá pra usar o princípio da insignificância pra esse “crime”.  Diz que não dá pra dispensar um roubo desse. E manteve uma mãe de 4 filhos em regime fechado. Ovos de Páscoa. Uma mãe (e bato nesta tecla porque, né, somos aquela sociedade que acha que é sofrer no paraíso e tal). E estamos aí gritando que há muita impunidade e queremos prisões mais cheias. Pode bater em manifestante, mas não pode quebrar vidraça nem roubar ovos de páscoa. Bens materiais devem ser protegidos. O patrimônio de alguém vale mais que pessoas.

Vamos transformar o mundo, mas sem vandalismo, gritavam os passa-pano na frente da bastilha.




Uma amiga vai pra Lisboa. Dou uma xeretada em acomodações pra ela. Outra pra Espanha, fuço hotéis em algumas cidades de lá. Espio fim de semana em canoa quebrada. Outra vai pra Santiago, lá estou eu dando uma mão. Buenos Aires. Aproveito e olho preços em Florença (meu aniversário de 50 anos) e em algumas cidades no Peru (viagem das irmãs, daqui a una anos). Começam a aparecer propagandas de hotéis, pousadas, vôos, pacotes turísticos, para lugares específicos. Até que o algoritmo cansa e me manda: "Precisando de férias? O Airbnb tem mais de 3 milhões de acomodações em todo o mundo. Encontre a ideal para você" (e acrescenta mentalmente, aposto: sua indecisa).

Eu gosto muito de quem eu gosto, mas tem hora que eu penso que se eu não conhecesse algumas pessoas eu teria uma opinião melhor sobre mim.
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