quarta-feira, 3 de maio de 2017

Voto Válido

Uma amiga perguntou no FB em quem as pessoas (de esquerda) realmente gostariam de votar em 2018. E um monte de gente respondeu. E eu sempre me sinto na contramão porque, tirando o Brizola em 1989 (quando eu nem tinha idade pra isso), eu não me lembro de ter tido vontade de votar em alguém especificamente, especialmente em um momento pré definição oficial de candidaturas e programas. Eu me identifico com bandeiras. Com partidos. Com propostas. Com cores (me julguem). Quem vai, especificamente, segurar as bandeiras, representar os partidos, defender as propostas, apenas precisa (pra mim) ser coerente com os mesmos. Isso não significa que eu não admire posturas ou trajetórias específicas. Mas isso não é o suficiente. Ou, ao contrário, é demais. Não sei definir. Não espero alguém especial. Na verdade meu sonho é que se despersonalizasse o debate, a campanha, as gestões. 

São dias difíceis. A agressão aos manifestantes. A proposta de mudança das leis trabalhistas para a zona rural. O texto da professora benevolente em relação aos cotistas. A prisão dos palestinos agredidos por xenófobos. O espancamento do casal homossexual. A forma contínua e quase invisível do genocídio das travestis. 

No miolinho, o respiro, mãe, pai, sobrinhada, riso, baralho, banho em aguinhas mornas pra facilitar a circulação.

Uma alegria: achava que tinha perdido o ritmo, mas defender a tese parece que destravou tudo, tenho lido numa voracidade de (eu mesma) adolescente. 

Quem dera fosse você o moço dos búzios. 




domingo, 23 de abril de 2017

Saco Vazio

Eu nunca fui uma pessoa de planos. Não me lembro de alimentar projetos, expectativas nem sonhos a não ser um distante namorar o Éder quando tinha por volta de dez anos de idade. Carreira, família, bens, militâncias, metas. Nadinha. Nunquinha. Não tinha propósitos além do batido e subestimado mudar o mundo – e mesmo assim daquele meu jeito, no moído, pé ante dito, etc. Passei por casamentos, graduações, mestrados, concursos, trabalhos, apensa estando. Até que.

Por mais ou menos cinco anos, foi ela. Ou ele, mais precisamente. Que começou como doutorado, mas por volta de seis meses se tornou mento e é assim que vai ser lembrado por mim. Determinou espaços, tempos, ritmos, amores. Fez com que eu ansiasse sem saber direito a quê. Fez-me angustiada, cansada, animada, organizada, viajada. Solitária. Repleta. Ocupou coração e mente.

E agora, oco. Espicho palavras e os vazios internos repetem a sílaba final, como um mal ajambrado eco de desenho animado. Saco vazio não se põe em pé, diz o ditado e confirmo eu.

A bagunça de uma sala semidesfeita. A preguiça de cozinhar. A completa incompetência para voltar ao que precisa ser feito. Tenho aulas para dar e para repor e tenho vergonha de não estar à altura delas. Tenho orientações. Artigos e projetos para tocar. Amigos para contactar. Nada anda. Nem mesmo arrumo as fotos nos álbuns virtuais ou posto com regularidade no FB.

Minha esperança são os romancespoliciais (também por isso). Não sei quantos serão necessários para oferecer alguma estrutura ao meu cambaleante viver, mas os tenho devorado com voracidade.

Reaprender a apenas estar. 


Tem o jogo do Flamengo. As eleições francesas. A feijoada de Ogum. O dia das mães. A visita do amigo. O caso do Rafael Braga. Os papéis pra viabilizar a validação do diploma. A defesa da amiga. A disputa pelos departamentos. A greve geral.  Eu pego, eu pego, nem que seja no tranco.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Malas e Bagagens

Nunca fui muito desse lance de gestalts. Ciclos. Começos, fins, recomeços. Sou meio da bagunça. Tudo-ao-mesmo-tempo-agora.

E, entretanto. Esta, esta morreu. Ou virou purpurina, versão que prefiro. Acolher o nunca mais. Que eu vislumbrava, mencionei, mas só terminei de sentir agora. A vida é em relação. E foram se dispersando os ganchos. Brasília, Vitória, Goiânia, Fortaleza. O último ganchinho, que me acolheu, deu casa, comida e afeto também já se prepara pra zarpar. Fica quem já era, cada vez mais diferente. Cada vez mais daqui, enquanto eu cada vez menos de qualquer lugar que não esta estranheza de insistir em ser. Daí ontem vi Grey's 13X8, Meredith e Richard recordando o que foi feito das cinzas da mãe dela. Jogo-te hoje na pia de um bar no Terreiro do Paço, Luciana. Diretinho ao Tejo.


 Vai na mala:
5 garrafas pequenas de azeite
1 kg de sal
2 pacotes de bolacha belga
1 tese
8 garrafas de vinho
1 varinha do Harry Porter
1 biscoito de gengibre
Roupa amarfanhada
1 casaco que nunca saiu do saco a vácuo
1 casaco vermelho escândalo que foi como empréstimo e voltou como propriedade
Canecas (não contei)
3 sabonetes da Vida Portuguesa
1 barra de chocolate negro com menta comprado pra ser consumido aqui e devidamente esquecido
2 HDs (que sei onde estão) e 4 pendrives que devem estar em algum lugar
1 notebook cada dia mais pesado
1 perfume comprado por encomenda
1 pacote de coisinhas de fazer sshhhrrrr na banheira
2 potinhos de tempero
Cogumelos (sim, me julguem)
Queijos (sim, me julguem 2)
5 postais
5 ímans
Uns paninhos de cozinha


Deixando pra trás:
1 bloco pesado, anteriormente carregado nas costas
1 amor
1 existência


Quase não levo lembrancinhas. Nem sei direito porquê. Falta de grana. De espaço. Boas desculpas. Talvez seja porque a lembrancinha é tampa de panela. Quase como se. E eu quero é deixar caminhos abertos. Vão, vão logo. 

sexta-feira, 14 de abril de 2017

O Cavalo


Até que chega o dia em que você se apega ao cavalo.

Todo mundo sabe (porque eu vi nos filmes e livros e todo mundo, no caso, sou eu) que há situações em que é preciso sacrificar o cavalo. Mesmo que você ame o cavalo. Que ele tenha sido vital pra sua sobrevivência nas pradarias. Que lhe carregue durante o dia e seu resfolegar manso lhe faça companhia nas noites. Que ele seja seu companheiro de estrada há muito tempo. Que ele tenha o pelo macio e o olhar morno e afetuoso. Se o cavalo enfia o pé no buraco e quebra a pata longe de tudo (ou mesmo perto, nos filmes e livros ainda não existem veterinários), é preciso sacrificá-lo. Dê um tiro logo nele. É a atitude corajosa. E generosa. A alternativa é uma longa e dolorosa agonia. Dê um tiro. Na cabeça. Entre os olhos. Sim, de frente para esse olhar vulnerável e perturbado – porque dói tanto? ele parece perguntar – mas, também, confiante de que você vai ter uma resposta. E a resposta é: acabe logo com isso. Dê um tiro. Faça a coisa certa, é o que o olhar diz, sem saber que a coisa certa é uma despedida definitiva.

Eu sempre me irritava com as pessoas que tinham dificuldade de tomar a decisão. Afinal, o certo e bom estava previamente definido. Um homem tem que fazer o que um homem tem que fazer, mesmo que este homem seja uma mulher. Eu sentia. Eu sabia. Superior. Ética. Dê logo esse tiro, eu esbravejava com o livro, com a tv, com a tela do cinema.

Até que chega o dia em que você se apega ao cavalo. E ele enfia o pé no buraco.

E mesmo o certo e bom estando dado, você (que sou sempre eu) titubeia. A perna quebrada. A agonia. Mas. Afinal. Entretanto. O olhar do cavalo, no agora. As memórias do cavalo, no antes. As esperanças de montaria, mesmo infundadas, pro depois. E a gente (eu, eu) vacila. Arrodeia. Pondera. Procura alternativas. E se. Uma tala? Nem. Paliativos? Nem. Outra pessoa pra fazer o necessário? Nem. E o tempo latejando.

É preciso colocar a cabeça do cavalo no colo. Acariciar seu pescoço lentamente, olhando firme em seus olhos até que o afeto aja como anestesia temporária. Sentir o sal escorrer do seu olho para o dele. Encostar suavemente o cano na têmpora. Apertar, firme. Deixar a arma deslizar, abraçar aquele corpo íntimo até senti-lo frio. Empilhar pedras. Colocar a sela nas costas.

E ter cuidado para não enfiar o pé em um buraco sem ter alguém melhor que você por perto.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Trânsito

Eu tenho costume do bom. Do fácil. Das despedidas leves. Sempre fui do abraço prolongado e da caminhada decidida. Nunca deixei passar a validade. Sempre fui das partidas com gosto de queria ficar mais um pouco.

Nunca. Sempre. A gente (a gente sou eu, eu, eu) pensa que os definitivos são confiáveis. Mas viver é em relação. E um dia você esbarra em um sentimento diferente. Ou nem. Uma forma de viver o sentimento diferente. Com uma intensidade silenciosa. Constante. Áreas cinzentas. Uma dor que não quer ser confortada. Areia movediça. Esperneio e afundo mais rápido ou simplesmente espero, em agonia, o engasgo completo.

Tudo que poderia ter sido. Mas lidar com futuros e pretéritos nunca foi seu forte. Ainda mais conjugados. Um presente tão avassalador que me rouba as escassas memórias. Fica na pele. E as canções. Como essa, tão ligeiramente citada e, ao mesmo tempo, tão precisa.

Recito, suavemente, a oração do AA. Serenidade. Coragem. Sabedoria. Para acolher o vazio que será. Para aceitar ser uma pessoa que também se despede em dor. Para pisar suavemente. 



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