quarta-feira, 12 de abril de 2017

Trânsito

Eu tenho costume do bom. Do fácil. Das despedidas leves. Sempre fui do abraço prolongado e da caminhada decidida. Nunca deixei passar a validade. Sempre fui das partidas com gosto de queria ficar mais um pouco.

Nunca. Sempre. A gente (a gente sou eu, eu, eu) pensa que os definitivos são confiáveis. Mas viver é em relação. E um dia você esbarra em um sentimento diferente. Ou nem. Uma forma de viver o sentimento diferente. Com uma intensidade silenciosa. Constante. Áreas cinzentas. Uma dor que não quer ser confortada. Areia movediça. Esperneio e afundo mais rápido ou simplesmente espero, em agonia, o engasgo completo.

Tudo que poderia ter sido. Mas lidar com futuros e pretéritos nunca foi seu forte. Ainda mais conjugados. Um presente tão avassalador que me rouba as escassas memórias. Fica na pele. E as canções. Como essa, tão ligeiramente citada e, ao mesmo tempo, tão precisa.

Recito, suavemente, a oração do AA. Serenidade. Coragem. Sabedoria. Para acolher o vazio que será. Para aceitar ser uma pessoa que também se despede em dor. Para pisar suavemente. 



quinta-feira, 6 de abril de 2017

I'm a Believer

Se você, como eu, não conhece Londres, tenho duas coisas para lhe dizer. A primeira é que se for pra visitar curtinho, 3 dias e tal, nem vá ou vá e chore de saudades antes mesmo de sair da cidade. A segunda e mais importante é: Londres é a cidade mais avacalhada que você respeita.

Pode esquecer troca de guarda, poses sisudas, estátuas equestres. As ruas cheiram a comida boa e cerveja em riso, tem estátua de bode com úbere e, com sorte, você ganha um “não tem problema, my love” do motorista do ônibus quando você deixa cair seu cartão de transporte do outro lado do vidro.


 As pessoas correm. As pessoas andam de bicicleta. As pessoas lagarteiam ao sol. As pessoas bebem cervejas em copos mais apropriados para a prática do mergulho. Mas, principalmente, as pessoas sorriem. Gente, a vozinha da mulher do metrô, a cada estação, parece que está anunciando um festa. "Estação X, aqui você pode trocar de linha e explorar outro lado da cidade, pegar um trem sensacional para um local inusitado, viajar gostosinho de barco ou só descer pela região mesmo e tentar ser feliz. Se possível, dance". Talvez meu inglês não seja lá essas coisas pra fazer tradução mas eu juro que o sentido é esse.

Olha só: as pessoas tiram fotos com os guardas na porta dos monumentos. Não só com os guardinhas especiais, embonecados e todos duros da frente do palácio. Necas. Fotos com os guardas comuns da porta traseira de espaços resguardados como o Parlamento. E a guardinha ainda faz piada com o chupão alheio. Isso em tempos de segurança máxima, imagina aí quando atentados era uma nóia meio distante.

Banheiro de posto de gasolina de estrada, do lado de fora da lanchonete, que você tem que pedir a chave pro balconista? Londres tem, no The Orangery, restaurante onde se toma chá da tarde nos jardins do Palácio de Kensington. Vai com fé, pede a chavinha do banheiro. É um código, claro #evoluçõesdoprimeiromundo, mas o resto do esquema é o mesmo. Melhor lugar.

Vai, timidamente, pedir uma informação? A galera senta do teu lado e mostra no mapa. Vai, solene, tirar uma selfie com a estátua de Rodin, Os Burgueses de Calais? Tem adesivos dos smurfs na base (não na estátua, olha o respeito, má).

Claro que sem conhecer, como é o meu caso, fazer afirmações enfáticas pode soar ridículo ou falso pra quem conhece a cidade. Mas me arrisco porque não posso deixar de dizer que deve ser um dos lugares mais inclusivos. Não é só que tem a estrutura toda, informações em braile, sinais sonoros, calçadas padronizadas e talz. É a frequência com que as pessoas usam isso tudo e a naturalidade com a qual os demais parecem se relacionar com este uso.

É óbvio que em lugares assim todo o planejamento vai pro lixo e você esquece de "ver o que é essencial" e apenas passa a curtir o que é divertido. Não faz as compras, não tira fotos, não faz checkin. Apenas anda, come e gargalha. Tipo, muito.

Pode ser o sol contínuo por três dias. Pode ser sorte de principiante. Pode ser a passada na lojinha do Shrek. Mas a sensação que fica é de uma cidade em riso. Escancarado.


terça-feira, 21 de março de 2017

"A Vida é Tão Bonita"

A sensação é de que estou vivendo em uma montanha-russa. Então, vida, com sinceridade, depois deste março, pode me dar uns anos de rotina, mornas emoções, experiências comuns.

“Você lembra, lembra? Daquele tempo? eu tinha estrelas nos olhos”

Quando sobreviver é a única coisa que importa. Ou, como ouvi hoje mesmo: “nunca na vida concordei tanto com tantas pessoas ao mesmo tempo”. É tipo meu plano de fuga.

Sim, eu tenho medo. Não tenho muita certeza do quê. Achei que ia ser de não ser boa o bastante, mas a quase ausência de superego me livra dessa. De não conseguir demonstrar o quão boa sou, talvez. O que, claro, nada mais é do que uma tática de distração, sou eu jogando a batata quente pros outros.

Eu queria mesmo era você vivo, meneando a cabeça, evitando respostas absolutas e me deixando tão confortável na dúvida.

Suspeito que a solidão é um jeito de existir. 

Cada vez mais desejando a última fala de Don Corleone.


quarta-feira, 15 de março de 2017

Nem ter razão, nem ser feliz

A gente vai aprendendo a morrer. A gente, como você, sou eu, sempre. Onde diz sempre, quero dizer, quando for aqui. Confuso, não é? Ando me sentindo assim. Você também? (neste caso, excepcionalmente, você não sou eu, tese do Nerso da Capitinga). Mas, dizia eu, aprendendo a morrer que é uma outra forma de dizer seguir em frente. Ou apenas seguir, sem muito senso de direção.

A gente teima em sobreviver. E ainda sorri. A gente, já se sabe, sou eu. E ela. 



Estou na segunda temporada de Billion. Não estou gostando tanto quanto da primeira, provavelmente porque tenho gostado de menos personagens. Taylor. O braço direito maluco do ruivo. E, claro, meu barbudo. Dele tenho gostado cada vez mais. Quando ele vendeu os livros, sofri junto. Já o ruivo, que mesquinho. Vai ter que ter muita reviravolta pra mudar o panorama do meu afeto.

É bem assustador ter bem pouco medo do que se deveria temer acintosamente.

Tem essas pessoas queridas. Essa pessoa querida. Com quem eu não falo sempre. Com quem não preciso falar sempre pra saber que posso falar sempre que precisar. Essa pessoa querida com quem posso ficar calada. Ou sussurrar o indizível. 

Nem ter razão, nem ser feliz: passagem de avião.

E claro, as estantes. Os livros. Aquelas temporadas que ficaram no caminho. Agatha em nova edição. Uma nova Tess Gerritsen pra chamar de minha. O mar. O mar. O mar. Feijãozinho com torresmo, mesmo sem os braços. Beber, deitar, dormir, talvez morrer

Por outro lado, papoca tudo. Espinha, rosácea, aquela bomba que a Meredith segurou na palma da mão.

terça-feira, 14 de março de 2017

Por enquanto, jiló

Eu perdi o timing. Eu nunca tinha perdido o timing. Cara, como dói perder o timing.

Não importa se os finais são felizes, mas se são bem roteirizados.

Eu não queria a tristeza resfriando peito, olhos, voz. 

Tem umas coisas que, ao escrever, a cada letra que se digita, parece que se está com a unha encravada e calçando um sapato apertado.

Eu não me lembro de ter tido um medo assim.

Mas há belezas.

Por exemplo, a gente fica sabendo que shilling não está mais valendo. E ri, por dentro. Meu mundo é o mundo de Agatha. Lá, Miss Marple sempre saberá a solução de um mistério pelo valor do troco dado em xelins.

E se tudo der errado, sempre tem amor pra onde eu voltar.

Quando dói muito eu espero um intervalo conveniente, deito no sofá e dou uma choradinha. Ok, talvez minha amiga tenha me considerado um pouco estranha. 

Espero, um dia, ser de novo um riso no canto do seu olho. Um suspiro gostoso e um tantinho daquela saudade que a gente lembra só por lembrar, como cantava o Gonzaga.







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