Se você, como eu, não conhece Londres,
tenho duas coisas para lhe dizer. A primeira é que se for pra visitar curtinho,
3 dias e tal, nem vá ou vá e chore de saudades antes mesmo de sair da cidade. A
segunda e mais importante é: Londres é a cidade mais avacalhada que você
respeita.
Pode esquecer troca de guarda, poses
sisudas, estátuas equestres. As ruas cheiram a comida boa e cerveja em riso,
tem estátua de bode com úbere e, com sorte, você ganha um “não tem problema, my
love” do motorista do ônibus quando você deixa cair seu cartão de transporte do
outro lado do vidro.
As pessoas correm. As pessoas andam de bicicleta. As pessoas lagarteiam ao sol. As pessoas bebem cervejas em copos mais apropriados para a prática do mergulho. Mas, principalmente, as pessoas sorriem. Gente, a vozinha da mulher do metrô, a cada estação, parece que está anunciando um festa. "Estação X, aqui você pode trocar de linha e explorar outro lado da cidade, pegar um trem sensacional para um local inusitado, viajar gostosinho de barco ou só descer pela região mesmo e tentar ser feliz. Se possível, dance". Talvez meu inglês não seja lá essas coisas pra fazer tradução mas eu juro que o sentido é esse.
Olha só: as pessoas tiram fotos com os
guardas na porta dos monumentos. Não só com os guardinhas especiais,
embonecados e todos duros da frente do palácio. Necas. Fotos com os guardas comuns
da porta traseira de espaços resguardados como o Parlamento. E a guardinha
ainda faz piada com o chupão alheio. Isso em tempos de segurança máxima,
imagina aí quando atentados era uma nóia meio distante.
Banheiro de posto de gasolina de
estrada, do lado de fora da lanchonete, que você tem que pedir a chave pro
balconista? Londres tem, no The Orangery, restaurante onde se toma chá da tarde
nos jardins do Palácio de Kensington. Vai com fé, pede a chavinha do banheiro.
É um código, claro #evoluçõesdoprimeiromundo, mas o resto do esquema é o mesmo.
Melhor lugar.
Vai, timidamente, pedir uma informação?
A galera senta do teu lado e mostra no mapa. Vai, solene, tirar uma selfie com
a estátua de Rodin, Os Burgueses de Calais? Tem adesivos dos smurfs na base
(não na estátua, olha o respeito, má).
Claro que sem conhecer, como é o meu
caso, fazer afirmações enfáticas pode soar ridículo ou falso pra quem conhece a
cidade. Mas me arrisco porque não posso deixar de dizer que deve ser um dos
lugares mais inclusivos. Não é só que tem a estrutura toda, informações em
braile, sinais sonoros, calçadas padronizadas e talz. É a frequência com que as
pessoas usam isso tudo e a naturalidade com a qual os demais parecem se relacionar
com este uso.
É óbvio que em lugares assim todo o planejamento vai pro lixo e você esquece de "ver o que é essencial" e apenas passa a curtir o que é divertido. Não faz as compras, não tira fotos, não faz checkin. Apenas anda, come e gargalha. Tipo, muito.
Pode ser o sol contínuo por três dias. Pode ser sorte de
principiante. Pode ser a passada na lojinha do Shrek. Mas a sensação que fica é
de uma cidade em riso. Escancarado.