Na calçada do pequeno café fico espiando os que passam.
Sei da artificialidade do momento, apesar de sempre ter feito isso: olhado as
pessoas. No Circular que pegava sem necessidade, subindo e descendo na mesma
parada, o mesmo roteiro ignorando janelas, vendo as pessoas entrarem e saírem
do ônibus nos variados bairros da cidade. Ou as horas passadas nos bancos das
praças, especialmente a do Ferreira, o olho cumprido se esticando sobre as
gentes andantes. Mas aqui, a mesinha de ferro instável, a xícara miúda e o
cigarro que seguro errado e chupo no lugar de tragar, tudo isso me faz lembrar
um mau personagem de filme de baixo orçamento. Paciência, não saberia mesmo
viver sem roteiro. Vejo a brasa se aquietando na ponta do cigarro, chupo,
ávida, e uma parte significativa dele desparece. Não sei aproveitar o fumo, é a
imagem o que me interessa, acendo um no rescaldo do outro, como se a chama
fosse a garantia de me manter em cena. Então, estico a coluna, aceno pedindo
outro café e olho, olho, olho. A curiosidade, eu li, afasta e distancia,
colocando o observador a parte do que observa. Not me. Quanto mais vejo gente,
mais perto, mais dentro, mais sinto os passos deles todos, leves, arrastados,
tensos, animados, atrasados, doloridos, ecoando no meu peito. Ser gente é um
aprendizado. Que me inquieta. É saudade o que eu sinto ou um arremedo
improvisado sobre a compreensão do que se deve sentir em ausências? Não sei
mesmo beber essas poções minúsculas de café. Engulo em um trago único, o quente
justificando o lacrimejar. As pessoas, borradas, fazem ainda mais sentido.
Viver é esse desfile de vidas que não sabemos toda, os transeuntes apenas
surgem e desaparecem mais rápido, mas a lógica é a mesma. Alguns já estavam
quando chegamos, o tanto que não vivemos com eles. Outros se vão antes de nós,
o tanto que nos obrigamos a viver essas solidões. Lembro o que esqueci: o salto
alto. A sapatilha vermelha não faz o barulho adequando quando movimento,
impaciente, o pé de encontro à calçada. Como eu disse, baixo orçamento. O cigarro
esquecido, se apagou. Peço a conta, café, café café, nem conto quantos. Deixo o
dinheiro displicentemente sobre a mesa. Uma ensaiada displicência. Respiro e
lembro de soltar o corpo. Faz de conta que. E dobro a esquina, ainda buscando,
ainda espreitando, olhando. Ao longe, vejo uma mulher de ar atarantado, sorriso
largo e tristes olhos escuros. Meu rosto na vitrine. Vísceras.
