Mangueira, um amor. Que desfile maravilhoso. Teve um buraco que eu ignorei solenemente. Acho que os jurados deviam fazer o mesmo. Ou considerar que foi o espaço a ser preenchido pela emoção. Que foi muita. Carros maravilhosos, alas maravilhosas, passistas maravilhosos. E o casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira com os santinhos de proteção me comovendo. O surdo fazendo eco no meu peito. A bateria de São Francisco. Os oratórios. Enredo que fala da gente e pra gente. Os analistas não estão colocando como favorita pro título. Quem se importa? Volta no sábado pra gente ter uma transmissão melhor, tudo que anseio.
Um
desejo: desfile da Mangueira começasse hoje e só acabasse na Páscoa.
Eu
vejo a gente indo embora e, surpresa, nomeio esse aperto no peito, a garganta
travada, a falta de fôlego, o embrulho no estômago: tristeza.
Não
é você, eu podia dizer. E seria verdade. Também não sou eu – e continuo
sincera. É que não podemos viver naquela fotografia.
Não
consegui achar engraçada a confusão da entrega do Oscar de Melhor Filme. Foi
tudo tão constrangedor. A situação de Warren e Faye, dois dos grandes, enormes,
e as consequentes piadas depreciativas sobre a idade, como se a culpa fosse
deles. Fiquei comovida com a esquipe de La la land que precisou lidar com a
frustração em cima do palco, na frente das câmeras. Foram elegantes,
atropelaram a frustração e reconheceram a derrota com estilo e vigor. E,
principalmente, fiquei triste pela equipe de Moonlight que tiveram o brilho da
vitória meio empanado pela enfiada de pé na jaca da equipe de produção do
evento.
Acho
que os Oscars foram, de maneira geral, muito bem distribuídos. La la land,
apesar das muitas indicações, não atropelou. E isso, acho, foi bom. Li como
sinal do equilíbrio da safra. Eram bons os filmes. Bem bons. Pra destoar, os
Oscars de melhor atriz e ator. Quanto ao prêmio de melhor atriz, era pra Isabelle
vencer, ela foi gigante em um papel maravilhoso. Mas, vamos reconhecer como
funciona a indústria: uma grande atuação de uma atriz “velha” (ou seja,
diferente de Cotillard, não é alguém que vai se mudar pra Hollywood) em um
filme falado em francês. Torci, mas sabia que era difícil. E o Oscar fica na
mão da Emma que fez um bom trabalho e tem uma cena de audição excepcional.
Quanto ao Oscar de melhor ator, nenhuma contemporização possível. O “cara de
nada” ganhar de qualquer um dos outros já é absurdo, mas vencer a atuação
impecável e visceral do Denzel, ah, vá.
Dos
indicados a Melhor Filme só posso dizer: que ano bom. Pra saber de que argila
sou feita: gostei de todos, uns mais do que os outros. Mas foi em La la land
que meu coração ficou. Quase desidratei. Chorei de amor, de tristeza, de
alegria, de deslumbramento. O cinema, minha gente, o cinema, que coisa
maravilhosa é o cinema.
Uma
esperança: um dia um enredo da Mangueira sobre musicais. Os da Broadway, os
clássicos do cinema, os filmes brasileiros. Ia ser uma maravilha.
Revendo
cenas de La la land entendo porque me tocou tanto. Nós também poderíamos
(poderíamos?) ter sido felizes.
Já
faz um tempo que tento escrever sobre La la land mas não acontece. Entre eu e
ele há pouco para dizer e muito para sentir. Gosto, gosto muito, do cínico
romantismo presente nas entrelinhas (entrecenas?) do filme. Gosto do
reconhecimento da impossibilidade. E gosto da doce e temporária idéia de que
talvez, se, quem sabe. E o doce/amargo de seguir vivendo. No depois.
O
vencedor do Oscar foi Moonlight, um filme tão bonito e intimista que às vezes
me peguei com vergonha de estar assistindo, como aquele embaraço de quando você
entra de uma vez num quarto e a pessoa está trocando de roupa ou quando a gente
escuta sem querer uma confidência entre terceiros. Como se eu estivesse
invadindo a intimidade de alguém. Uma experiência inquietante e, talvez por isso, tão especial.
Quando dói eu lembro: ano que vem tem desfile da Mangueira. As pessoas continuam fazendo filme. Há belezas.

