segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Inverno

Eu sei que o clima influencia o humor. Mas será que impregna? Mesmo quando a gente não está lá, o ritmo das estações podem amofinar os afetos? Na dúvida, vou procurar minha amiga, fogueira em forma de riso. Esquentar as mãos, assar marshmallows metafóricos e ver se a geleira no peito se desfaz em suor.

Eu só queria lembrar o riso. Queria desejar mais uma noite. Queria fazer planos e vê-los fazer brilhar nos seus olhos. Queria ser em permanências. Ser um ainda. Ser dos que ficam. Dos que sabem deixar as raízes se espalharem, vigorosas, na terra fecunda e humífera. Ser dos que sabem os percursos subterrâneos do pra sempre. Ou nem tanto, só mais um pouco. O suficiente. O bastante. Dizer sim. Queria ser boa. Ser boa pra você. Acreditar que é possível ser bom pra alguém. Acreditar em qualquer coisa pessoal e íntima. Ignorar o relógio, o calendário, os mapas e aquele grilo que fala ao meu ouvido a certeza do adeus. 

O problema é a beleza da Antartida. Imensidões brancas na alma, o vermelho de um céu que não se apaga e o silêncio tão absoluto que se faz narrativa. A beleza - ou será o reflexo do sol no branco das geleiras?- me cega. Não há primavera pra esse território que batizei amor.





quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Tempo e Espaço

Sei que privilégio é uma palavra controversa, mas é um privilégio, ou, vá lá, uma vantagem, ter história. No nível subjetivo, claro, saber de onde se vem ajuda a dar aquela orientada no pra onde se vai ou pelo menos porquê esses caminhos se apresentam. Mas eu estava pensando em uma coisa mais material e ordinária, como ter móveis usados para comprar. Você que mora no Rio de Janeiro ou Salvador, alegre-se por ter passado, história materializada naquela cristaleira que precisa de um novo vidro e verniz, nas cadeiras charmosas de palhinha, nas mesinhas de base de ferro, vasos e pequenos ornamentos que se amontoam em antiquários ou lojas comuns de compra e venda de usados e que pedem pra ir pra sua casa. Eu vivo em uma cidade nova. Eu cresci em uma cidade de espírito novo. O que é velho é ultrapassado e dispensado (no segundo caso) ou simplesmente inexistente, na cidade atual. A gente só encontra acrílico e mdf e coisas assim. Móveis descartáveis ou peças assinadas caríssimas. Nas lojas de usados você acha apenas móveis de escritório, estantes de ferro e afins. Não tem nem antiquário em Fortaleza, Luciana? Tem, onde uma peça (telefone) da década de 50 é considerada “uau que velha”. Aqui o adjetivo “novo”, parece-me, tem o poder e função de trator. Tantas casas demolidas para novos prédios, fachadas icônicas ignoradas e trocadas por vidro espelhado e aço. 

Parecia normal me sentir desenraizada e solta por aqui, afinal cresci num outro ali - que devia funcionar como a memória idealizada de casa/lar. Mas fui bem pra lá do aqui e logo sabia me virar. Conforto. Voltei e mesmo juntando todos os anos passados ainda me sinto estrangeira, não conheço nada, não sei onde encontrar nada, vou aos mesmos lugares pelos mesmos caminhos, distraída e sem ânimo de aprender. como se fosse desnecessário, um pouso rápido e não o lugar onde a âncora ficará uns 30 anos mais (se viva estiver).

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Bóias 7

O que é melhor que queijo? Muito mais queijo, acho. E vinho.

Eu só sobrevivo se ignorar as demandas. Porque se vou atender, quero dar tudo. Tudo. E desapareço enquanto te atendo. Desculpa, casa, se eu voltar a te ignorar, é sobrevivência.

O dvd Abraçar e Agradecer e parece que todas as comportas se abrem e a água salgada, que estagnava no peito tornando tudo inóspito e infértil, jorra... catarata de desassossego.

Entreabrir a persiana ou escancarar a janela não faz diferença, será dia enquanto for e, depois, não mais. Vale o mesmo pro amor, acho.

Tenho vontade de te procurar, amiga. E medo. De não saber dizer. De não conseguir explicar. De repetir clichês. De não ser entendida e me sentir perdendo a ilusão de que você poderia saber, ouvir, compreender. Aí calo e me escondo. Caverna. 

Existem coisas que se adivinha antes de saber. O dengo, o fluido, aparência tranquila e grutas profundas com fortes correntes. Dá uma vontade enorme de acolher e me sentir em casa. Se eu não soubesse que não existe casa possível.

Ainda assim, amarelo e azul. Ainda assim, molinha. Ainda assim, chamego. Ainda assim, gratidão e reconhecimento. Ainda assim, amor.



segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Bóias 6

"ai quem me dera terminasse a espera
retornasse o canto, simples e sem fim"

Fiz 3 pães. Apesar do histórico, um deu errado e os outros, também.

Eu queria que já fosse. Um aparador, um quadro, um riso. Um risco. Tapete na sala. Projeto encerrado.Uma casa encantada. Muito engraçada, mas com teto. Um ano de caramujo.

Eu podia te fazer feliz, mas a felicidade não existe, escrevi em algum lugar e acreditei.

A gente vai acumulando marcas da vida.



Não é difícil saber do que se trata. Já escrevi tantas vezes que só tenho vontade de fazer bricolagem. Aquele ralo na alma. Voraz. E a voz de Meredith narrando a minha vida: More tequila. More love. More anything. More is better.

Eu me espanto como depois de um montão de tempo de convivência, palavras trocadas, textos escritos, ainda ver repetidas as mesmas distâncias. Estilo é foda.

Eu queria falar tudo. Explicar. Esclarecer. Apertar os laços. Encostar caminhos. Responder. Agradecer. E faria já, agora, se não tivesse desaprendido tudo sobre mim e, de quebra, sobre os outros todos.

Escrever até encontrar a palavra certa: o blog como caverna.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Eu li e vi Animais Noturnos. Sugestão: escolham uma coisa ou outra.

Eu vi Animais Noturnos. Eu li Animais Noturnos (mais exatamente li Tony & Susan, livro que foi adaptado para o cinema). Talvez se o filme fosse só sobre o livro dentro do livro tivesse sido melhor. Explorado mais o desenvolvimento de Tony, por exemplo. E a relação com o investigador. Modus que o que se segue sou eu me ressentindo por um livro do qual eu nem gostei tanto.

O livro não é ruim, mas não é bom. Tem umas sacadas bem inteligentes, a idéia é melhor que a execução. O filme é bom. Não excepcional. Toda a parte do suspense e a construção do personagem líder da “gangue” é muito bem feita. Mas o filme todo, pra mim, meio esquecível, apesar das cores maravilhosas. Talvez por eu ter lido o livro, o maneirismo nas reviravoltas não me cativou tanto. Ou talvez por achar que o roteiro acabou escolhendo alternativas fáceis para ficar mais didático. A mudança no perfil dos personagens fez muita diferença, acho. O Edward bonzinho, irgh. As mudanças na trajetória dele, nunca ter voltado a casar e tal, tudo isso afasta o personagem da sombra que ele é na vida futura de Susan. No filme fica parecendo apenas que ela foi escrota em trocá-lo por outro cara. Fica faltando nuance no Edward. O marido atual ser meio fracassado, isso também afeta a insatisfação de Susan. Fica parecendo que é a mesma insatisfação (nenhum homem está à altura das ambições e do sucesso dela) enquanto no livro se trata justamente do espelho, mesmo com um cara bem sucedido e estável o animal noturno que nela habita a invade e domina nas poucas horas em que ela se permite ficar sem controle do que pensa e sente. E, principalmente, Susan ser um sucesso nos negócios e ter tanta vida “fora”, isso muda demais os signos todos da história. Acho que facilitou o pareamento casamento Edward e Susan/O que rola no livro escrito por Edward. Daí os expectadores “entendem”. Mas acho que perde na sutileza. 

No livro Tony & Susan a inquietação e a não compreensão da mensagem são a tônica. Susan vai se envolvendo com a história, mas não compreende direito por quê. Porque é tão bem escrito? (no livro ela sempre o considerou medíocre e sempre duvidou da possibilidade dele ser escritor, ao contrário do que aparece no filme onde ela no primeiro jantar de reencontro dá corda pra ambição dele). E porque é dedicado a ela? Ela não entende e se debate e até na hora de tentar marcar o encontro com ele o que ela quer é uma chave pra sua vida, mas sem se comprometer nisso. Ela ainda acha que está marcando o encontro pra falar sua opinião sobre o livro. Porque ela importa. Toda a vida de Susan é “pra dentro”. Ela cuida da casa, dos filhos e tenta ignorar sua rica vida interior que lhe coloca perguntas, reminiscências e alguma revolta. O livro de Edward vem sacudi-la em um mundo “lá fora”, apesar de ficcional, que não é possível controlar ou ignorar. A relação dela com o livro é cheia de nuances. Apesar da empatia pelos personagens, em muitos momentos ela se empolga com o sofrimento de Tony. Fica ansiosa por saber o que vem depois. E tenta se lembrar que não é algo construído por Tony, mas que tem Edward por trás. E isso também é meio excitante. Parece-me que a tal vingança não é dizer “olha o que você me fez” apenas. Talvez um pouco de olha o que você é, mas também um olha o que você não é...não é capaz de ser, de se saber, de se olhar durante o dia.

Outra coisa que eu acho que ficou menos interessante foi o momento da abordagem. Por força do meio (acho) a situação perdeu aquele clima de ameaça intangível. No livro, Tony sabia o tempo todo que algo não ia bem, era perigoso, mas não era possível identificar exatamente o quê até ser irremediável, no filme tudo se tornou uma ameaça explícita, palpável e incontrolável. No primeiro caso Tony não se posicionava por não conseguir identificar contra o quê. No filme, ele até tenta, mas é inócuo. E, claro, no filme não acompanhamos a noite insone, andando, perdido, que é de uma imensa riqueza na definição do personagem. Acho que faz uma imensa falta a vida pós-tragédia do Tony pra gente ir entendendo como ele foi se relacionando com a mesma, com a memória do que aconteceu e foi reconstruindo um ele-mesmo mais capaz, mais feroz, menos civilizado para o momento final. Por isso, retomo, se tivesse sido um filme só sobre o enredo do livro do Edward poderia ter sido um filme melhor. 

E, vamos combinar, aquela sobreposição das banheiras foi uó (de todos os banhos, aliás). Que solução paia. Mas as cores, ai, ai, que cores. Se estou pensando em copiar aquele escritório? ô se estou.


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