sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Boias 4

A verdade é que nunca vai ser uma casa com estilo. Nem mesmo uma casa boa de morar. Não enquanto estiver na minha mão. Vai ser esse buraco branco repleto de coisas inacabadas. Banheiro sem box. Sala sem quadros. Camas sem colchão, livros empilhados em estantes entulhadas. Não vai ter cara. Não vai ter charme. Para isso é preciso gosto ou dinheiro. Não tenho gosto. Nada nem mesmo perto disso. Sabe chegar em uma loja, ver um móvel ou objeto e imaginar como ele fica em determinado lugar? Pois é, eu não sei. Pra “ver” uma coisa em um lugar da casa preciso que ele realmente esteja lá. E dinheiro? Nunca terei. Cada mirréis que eu pegar na vida vai ser pra comida, conta, e, em tempos melhores, alguma estrada.  

E é isso. O que a vida nos pede é coragem. Pois eu não tenho. Nem medos. Só essa insossa perseverança que me leva ao sono e dele me desliga. Um dia. Outro dia. Todo dia.

O amor não é uma questão de mérito. Isso é bonito. Quase sempre. A não ser quando parece um afogamento.

deixa tudo que eu pedia, mas pensei que dava



Era uma vez, ela. De tudo que ela era e pensava, o que de mais certo havia é que sobrava. Que era tanto. Muito. Demais. Falava. Estava. Dava. Até recuava aqui e ali pra não transbordar. Copo cheio. Tudo. Anéis e dedos. Mas já não era mais a vez. Ou era a única vez, o resto era rascunho. E o recado: não bastava. Onde ela se achava pororoca mal chegava a córrego.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Bóias 3

Fiquei pensando e pensando. Minto. A palavra certa é matutar. Matutei e matutei. O juízo queimava no porquê de eu não acertar nem mesmo o que eu queria (conseguir fazer já são outros quinhentos). Porque eu não tinha gosto? Porque minha casa tem cara de nada? Porque eu não tenho estilo, essência, whatever (além de dinheiro) que faz a pessoa fazer uma casa parecer que veio pronta, certinha, redonda, ajustada, perfeita pra pessoa? Eu não tenho cara de nada? Nem mesmo sei que cara queria ter? Eu gosto de vidro. Mas vidro parece não gostar de mim. Gosto de gente, mas a não ser que a gente seja a Medusa não dá pra decorar a casa com esse material. E os miolos fritando. Não tenho paciência para sites de decoração, mas até tentei. Passei virtualmente em lojas de móveis e nada parecia ser o que eu não sabia que ia querer, mas tinha esperança de saber quando visse.

Daí comecei a receber umas mensagens do amarelo e do laranja, cores que tem a tarefa de animar o bege do resto das paredes. Pus cuidado e fiquei de butuca ligada pra ouvir direito. Pois num era a canção? “o sertão vai virar mar, dá no coração, o medo que algum dia o mar também vire sertão”.  


Nem sei se algum dia será, mas agora tenho umas vontades. No hall, tapete compridinho e meio estreito, do lado de cá aparador rústico e um caminho de mesa de fibra de coco, uma namoradeira em cima, em baixo aqueles negocinhos, banco, alguma coisa de barro, cabaça grande, qualquer coisa com fuxico. Do lado de lá, quadrinhos de xilogravura. Em algum lugar, cactos. Passa pra sala de estar e é sertão que vira mar num azul escuro feito manta no sofá. Na tonalidade dos quadros e almofadas. Nos enfeites menores da sala alguma coisa azuleja na mesinha de canto, outra coisa azulzinha na mesa baixa de centro. Será preciso uma poltrona, ou duas. Mais tapetes. Outra luminária ali perto da porta do escritório. Alguma coisa embaixo da escada. Quem sabe uma rede separando os ambientes. Já me perdi de novo. Melhor juntar dinheiros pra pagar alguém pra desenhar quem eu não posso ser, aka: uma decoração pra minha casa. Ou conseguir entrar naquele programa americano, ame-a ou deixe-a.

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Será que vou voltar a dizer, escrever, pensar qualquer coisa sem esse embaraço, sem esse vínculo imediato com a ausência? Até um texto bobo sobre reformas improváveis vai sempre provocar essa vertigem?

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Bóias 2

Ando pela casa lembrando o som da Blitz. Longe de casa há mais de uma semana. Quase um mês. Quanto consigo bagunçar em poucas horas parece ser a questão que me move. Muito. As malas abertas pelo chão do quarto revelam as vísceras de um bicho findo: férias. Já há louça na pia e pequenos objetos em cima da mesa, do sofá, do aparador. A cozinha cheira a temperos ainda inexplorados. No que eu vou colocar fumaça? E quem sabia que tártaro em pó era assim? Limão em pó, limão com pimenta... Cravo. Que não sei se brigou com a rosa, agora é pó em um potinho na minha prateleira e cheira em minha mão. O pensamento não para de bobear. Passo um tempão nos sites de móveis, coloco coisas no carrinho, calculo fretes e desisto sempre. Nem preciso decidir se o que me impede é a falta de dinheiro ou de gosto. Quem tem tudo, tem tudo. No meu caso, nada. As horas seguem, indiferentes ao meu espanto de seguir nelas como sempre. A inércia. Tudo dói, mas lembro que isso é estar viva. Durmo fora de hora e me vejo acordando sem ar. Tenho pudor de falar qualquer coisa sobre isso. Ou falar um isso que seja sobre qualquer coisa. E sigo respondendo "tudo bem" porque que outra resposta pode existir para os esbarrões rápidos? Preciso de molduras. De novos pés para a cama. De um projeto para a sala. De uma rota de fuga. 

Seremos sempre, diz o texto. E eu completo: grama sobrevivente da passagem de Átila.


terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Bóias

Eu não sei como é possível viver sem um autor. Há dias em que só avanço seguindo o perfil do meu personagem.

dor é que é o tal cobertor curto.

Coisas que eu não tomo como certas: amor, vínculos, namoros, empregos, segredos. Mas há aquela sorrateira impressão que algumas estruturas sempre estarão. Que certas pessoas estarão. Que haverá uma sequência lógica. Não há. O que há é o tropeço na ponta solta do tapete.

A vida é tempo emprestado... e, algumas vezes, os juros são excruciantes.

Eu nunca tive fé, mas sempre tive medo da inveja dos deuses. Estava certa.

O silêncio é minha conchinha de caramujo. 

A gente perde a inocência. As metáforas bobas vão fazendo, senão sentido, peso. O riso engasga. As frases perdem o rumo.  A gente segue, a estrada exige, mas carrega-se a ausência, curvando as costas. A hipocrisia necessária do “tudo bem” se impõe. E sou grata por ela. 

A comoção é coletiva, precisa de espelhos, refil. A dor é o impossível de compartilhar, de dizer. De respirar.


sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

O quanto baste ou Sully, um filme bem vindo pra sair de 2016


Tom Hanks fez de novo. Transformou um filme que poderia ser uma experiência meio esquecível em um mergulho inquieto na (minha) humanidade. Acho que o principal mérito na construção dos personagens que repetidamente Hanks engrandece, é a forma como ele transmite a sensação de que alguém absolutamente comum pode fazer algo extraordinário não por algo de excepcional que lhe seja intrínseco e se revele, mas justamente pelo oposto, por sua completa banalidade lhe instrumentalizar para a vida, inclusive do ponto de vista ético. Foi assim, pra mim, em Ponte dos Espiões – só para ficar no exemplo recente. Lembra-me, muito, James Stewart.

O filme, tanto roteiro como direção, parecem ser tocados meio no automático dando a impressão de que se não fosse a grande interpretação de Hanks, seria uma boa sessão da tarde ou pouco mais.  Depois de uma noite de sono continuei achando que foi uma direção inferior ao talento de Clint mas já percebi alguns méritos discretos como presença da cidade de Nova Iorque como um cenário dolorosamente indiferente em contraponto à casa/lar sentida como distante e inalcançável, sempre adiada mesmo como contato ligeiro enquanto as implicações do pouso continuassem operando. Gostei também da força seca de “preparem-se para o impacto”, emitida pelo comandante, diferenciada da musicalidade presente na repetição dos alertas feitos pelas comissárias de bordo, que chegaram a soar como mantras.

As inquietações simples do Sully me comoveram: fazer dar certo é o suficiente? Fazer dar certo é o mesmo que fazer o certo? O que pode nos definir? Uma vida construída ou um momento fora da curva nessa construção? Esse momento é realmente fora da curva ou resultante do que se viveu e fez, antes? O que é o bastante? O que devemos levar em consideração a tomarmos decisões? Há algo nas tragédias que faz minimizar limites, preconceitos e reservas? Ou apenas na leitura que fazemos delas a posteriori? É possível fazer uma escolha certa ou apenas uma escolha que deu certo?

O filme teve, sobre mim, um efeito de sopro Capra, o que foi bom pra sair deste dolorido 2016 com algum alento. Chorei sem nenhuma tristeza, mas comovida pela potência que há no existir e fazer humanos. Terminou o filme e eu quase ouvi: “fé na vida, fé no homem, fé no que virá”.

PS. Achei extremamente desrespeitoso, na sessão que vi, o fato de começarem a acender as luzes antes dos créditos terem terminado de passar, quando ainda havia o que se ver e ouvir. 

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