A verdade é que nunca vai ser uma casa
com estilo. Nem mesmo uma casa boa de morar. Não enquanto estiver na minha mão.
Vai ser esse buraco branco repleto de coisas inacabadas. Banheiro sem box. Sala
sem quadros. Camas sem colchão, livros empilhados em estantes entulhadas. Não
vai ter cara. Não vai ter charme. Para isso é preciso gosto ou dinheiro. Não
tenho gosto. Nada nem mesmo perto disso. Sabe chegar em uma loja, ver um móvel
ou objeto e imaginar como ele fica em determinado lugar? Pois é, eu não sei.
Pra “ver” uma coisa em um lugar da casa preciso que ele realmente esteja lá. E
dinheiro? Nunca terei. Cada mirréis que eu pegar na vida vai ser pra comida,
conta, e, em tempos melhores, alguma estrada.
E é isso. O que a vida nos pede é
coragem. Pois eu não tenho. Nem medos. Só essa insossa perseverança que me leva
ao sono e dele me desliga. Um dia. Outro dia. Todo dia.
O amor não é uma questão de mérito. Isso
é bonito. Quase sempre. A não ser quando parece um afogamento.
“deixa
tudo que eu pedia, mas pensei que dava”
Era uma vez, ela. De tudo que ela era e pensava, o que de mais certo havia é que sobrava. Que era
tanto. Muito. Demais. Falava. Estava. Dava. Até recuava aqui e ali pra não
transbordar. Copo cheio. Tudo. Anéis e dedos. Mas já não era mais a vez. Ou era a única vez, o resto era rascunho. E o recado: não bastava.
Onde ela se achava pororoca mal chegava a córrego.


