Ontem eu assisti A Chegada. Fui com
meu filho. Antes, falamos, comemos, rimos, falamos mais e mais... e quem me
conhece sabe que sou boa nisso. Depois da sessão fiquei quieta. Em casa, fui
direto pro circuito banho-boasnoites-cama. Uma bolha de silêncio ao redor da
experiência. Esperei o filme assentar em mim. Hoje de manhã tinha um comentárioda Rita e foi aí que comecei a tratar do filme. Contei umas duas ou três vezes
pra quem não se importa com spoiler. Comentei onde deu. Fui tentando colocar em
dito, o sentido.
SPOILERS E TALZ A PARTIR DAQUI

Preciso dizer que o filme foi uma
grande experiência. Comecei bem incomodada, achando as cores pálidas e aquelas
pessoas borradas meio nada a ver. Ingênua. Tudo, ali, tem um propósito. Que,
claro, a gente (onde a gente sou sempre eu, etc) vai perceber, como na sacada
psicanalítica, no só depois. A história do filme? Uma professora vai dar uma
mão pro exército quando uns ets meio enigmáticos pousam em Montana. O que
importa no filme? Tudo o mais. Eu fiquei completamente envolvida pela discussão
sobre linguagem. A língua não só como expressão, mas como apreensão do mundo. E
mais, como molde. O filme percorre, com delicadeza, com extrema delicadeza,
nossa humanidade. A individualidade. A conexão pelo dito. As perdas. Os
encontros. As decisões que tomamos na vida. A solidão. O contato. A dor. Os
medos. Um parêntese especial para os medos: acho bem sintomático que seja isso
o que a humanidade, como coletividade, no filme, manifesta mais evidentemente em
comum, o medo, medo do Outro, medo uns dos outros, medo do desconhecido, as
nações optando pela saída do aniquilamento do que ainda não se sabe.
Não saberia dizer qual dos momentos de
extrema beleza mais me tocou. Todo o encontro da Louise com Abbott e Costello
me reviraram. A hora do “desnudamento”. Que metáfora forte para o processo
ensino-aprendizagem. A primeira palavra: humana. Não o nome próprio, mas onde
nos inscrevemos neste discurso que vai ser ensinado e aprendido: como
produtores de sentido. Humanos. Todas as vezes em que ela vai explicar, para os
militares, seu percurso e os motivos. O lance da pergunta. É preciso, primeiro,
saber que uma pergunta demanda. Cara, a força desse aprendizado. Depois, a construção
do vocabulário. O entendimento de que é preciso um mergulho no outro pra vislumbrar
as respostas... e além, o que se diz no que se diz, já que no enunciado há
intenções e perdas. O toque: não adianta fazer perguntas se não temos pontos de
contato mínimo para entendermos as respostas. A linguagem como arma, método,
ferramenta, segredo, potência, tanta coisa, o momento da sacada com o nome Hannah.
Fiquei embasbacada demais com todo o
lance do Abbot e Costello, a beleza de uma comunicação que é construída e não
dada. A interpretação como elemento da comunicação. O tempo como elemento da
comunicação, feito e transformado por ela. Fiquei tão embasbacada com isso, foi
tão grande pra mim que, provavelmente me escapou um pouco de uma outra camada,
também presente no filme, o drama pessoal da protagonista. Talvez o imenso
impacto da discussão sobre linguagem e tempo e contato e entrega e encontro
tenham me adormecido um pouco para as questões da trajetória individual de
Louise. Achei sensacional o passado ser
o futuro, mas não consegui me emocionar completamente com a perda específica
dela. Acabei achando mais bonito que dolorido. Fiquei pensando que poderia ter
sentido mais o drama pessoal se não estivesse tão mergulhada no tudo o mais do
filme. Acabei ficando sem tempo, talvez porque ainda estava processando o
impacto de tudo porque o tudo o mais foi demais pra mim, como se você esperasse
muito tempo que alguém fizesse ou dissesse alguma coisa mas você nem sabia que
estava esperando até que a coisa acontece? Pois.
Ou, talvez, porque a perda/escolha
ficou pra mim em um registro diferente das ausências usuais. Fiquei pensando:
como não há passado nem presente e nem futuro, depois que se aprende o
heptapod, então tudo acontece e aconteceu e acontecerá é ao mesmo tempo. Assim
não é que Louise escolhe ter a filha sabendo que vai perdê-la, ela escolhe ter
uma filha eternamente. E escolhe não ter, também eternamente. A presença e
ausência, fora da idéia de sequência, coexistem. O heptato faz, pra frente, o
que o inconsciente faz pra trás. Não há antes ou depois. Cada coisa, é, atual. E a tristeza se dilui na sensação de que é um
presente incrível poder saber antes e sempre, que o instante é belo. Daí,
confesso, achei meio sacanagem Louise não contar pro moço o caroço do angu do
futuro deles. Pra ele poder viver essa beleza junto com a tristeza.
No fim das contas, ou quase fim,
porque se escrevo é para dar conta do sentir mas também para abrir as
possibilidades de novas incursões no assunto, além de delicadeza me vem a
palavra vulnerabilidade. Uma angústia que é casulo e caminho. Mas, Luciana, sobre o que é mesmo essa
parada? Ontem eu responderia uma coisa. Agora, direi que é sobre a
possibilidade do contato, na superação do estrangeiro como ameaça. Amanhã
certamente direi outra coisa. Ou mesmo daqui a pouco, na caixa de comentários,
caso alguém decida papear. Um filme que se enraíza em perguntas e belezas, acho
que essa é uma das melhores referências que posso dar.
PS. É interessante que um filme que
fala da reinvenção da forma de lidar com o tempo seja especialmente lento como
opção narrativa. Achei genial que o filme nos envolva de tal forma que o tempo
passe a ser irrelevante.
PS2. "Na guerra, não há vencedores, apenas
viúvas" foi o que ela disse ao telefone.