Eu recebia bilhetes, postais, cartões,
cartas, telefonemas falando de amor. Eu recebia telegramas, veja você, com declarações
de saudades e desejo de pessoa morando na mesma cidade. Recebia caixas com
meias de seda – de seda de verdade, como aquelas do livro da Agatha Christie -
com disco do Fito Paez e perfume que fazia o circuito Paris – Buenos Aires –
Fortaleza. Grandes gestos, recebi-os todos. Homens viajavam 300Km pra ir me
buscar em algum lugar e me levar pra casa. Atravessavam uma estrada, na serra,
à noite, para me ver um tiquinho. Serenatas. Flores. Eu era esse tipo de
mulher, sabe? Esse tipo de mulher que esse tipo de homem ama.
A tudo eu recebia com naturalidade. Como
se fosse banal. Veja, eu não era fria ou inalcançável ou algo assim que os
clichês perpetuam, repetindo a idéia de que se anseia apenas pelo impossível. Não. Eu
ardia. Eu incendiava. Eu também escrevia longas cartas, fazia colagens, pensava
em presentinhos insólitos. Tocava. Eu tocava muito. Acontece que eu era
displicente. Ou jovem demais, nunca saberei - já reclamava o Kundera, a vida
não tem esboços. Hoje penso na urgência e arrebatamento que leva alguém,
morando na mesma cidade, a enviar um telegrama. Um bem querer que transborda. Mas,
na época, abria o telegrama, curtia um pouco e colocava na caixa junto com os
outros telegramas, cartões, pétalas de flores, discos e o que mais estivesse
sendo ofertado, futuros, casamentos, casas e viagens, felicidades. Como se
fosse pra ser assim. Eu nunca me espantava, nunca me surpreendia. Eram enormes
os gestos? Tudo parecia ser o que devia ser, apenas. Não estou me gabando,
sabe. Se conto essas coisas é para explicar, um pouco, o tipo de pessoa que eu
era e, além, o tipo de pessoa que me amava. Eu dava muito (oi, Renata), mas
havia tanto, em mim. Não entendia que o muito que recebia podia ser tudo que
havia do lado de lá.
Eu era esse tipo de mulher, sabe? Esse
tipo de mulher que esse tipo de homem amava. Como disco arranhado na canção do
Chico, os moços eram sempre os do bicho de pelúcia e broche de ametista. Até os
que eu, pensando diversificar, ia catar no bar. O professor de matemática
pegador, o poeta de olhos famintos, o alternativo que queimava móveis na
fogueira, todos inesperadamente tornavam-se mandantes de telegramas simbólicos.
Esse tipo de mulher. Esse tipo de homem. Esse tipo de amor. De gestos e palavras
eloquentes.
É de se entender que eu tenha entendido muito
pouco quando você não disse nada. Quando não chegaram flores. Quando não soaram
serenatas. Distraída eu nem reparei quando você colocou o último vinil antes de
dormir e disse: escuta
essa. Só ouvi. Distraída eu nem reparei quando, andando daqui pra lá, você
parou de repente, enfiou a mão entre grades e trouxe de lá uma flor miudinha e
mostrou pra mim, depois dissse: leva. E levei. Distraída eu quase não escutei o
som dos seus dedos entre os meus cabelos até me fazer dormir, nem o barulhinho
da frigideira ao preparar as minhas comidas prediletas, nem o ruído do
aquecedor ligado antes de eu tomar banho pra evitar qualquer desconforto. Ditos
expressivos mas em uma língua que eu mal decifrava.
Hoje não tenho uma caixa com telegramas
seus, nem cartões, nem cartas, nem mesmo bilhetes em papel de embrulho. Tenho
um roupão imenso e desnecessário pendurado no meu quarto, um roupão enorme que
você nunca chegou a me dar, mas veio comigo. Um roupão imenso que você tirou pra
vestir em mim (das coisas mais bonitas era você me vestindo, casacos, roupão,
lenços, luvas, meias… um vestir tão erótico como nenhum despir antes conseguiu
ser). Um roupão imenso que era seu, que usamos juntos e que veio meu, companhia
improvável, roupão imenso que uso como abraço em noites como essa, que tento
saber quem sou, ao não ser mais aquele tipo de mulher, sabe?











