terça-feira, 9 de outubro de 2012

A Mais


Era uma vez um amor. E assim o digo, porque já não se sabe o que é memória o que é invento. Gosto assim, páginas dentro de mim, como na canção. Escrevo muito isso: sou dessas. Quase sempre coisas que eu vou descobrindo de mim. Sou das que se desenha. E das que se retoca. Não tenho medo do novo ângulo, da mudança, da incoerência. Mas há coisas que dizemos – que eu digo – e se embrenham de tal forma na pele, no tempo, no ser, que se torna história e pensar. Então: eu não volto. Estou falando de relacionamentos. Eu não volto, não sei colar pedaços, juntar forças, não sei prometer. Não sei aceitar. Não sei novos caminhos do velho amor.

Mas. Soubesse eu os vazios, os desencontros, ou, ainda, apenas a vida e seu balanço, demoraria mais naquele abraço, sabe. Teria permanecido no macio da blusa contra o rosto, no cheiro amadeirado, na sensação do queixo duro encostado em minha testa. Ficaria nas tuas mãos, um instante mais. Teria levantado o olhar com mais vagar, detido-me no pescoço, a fitar tua veia - ainda hoje gosto quando o sentir se faz material. Teria deixado os lábios mais tempo no queixo, mais mordidinhas, mais lentamente o beijo, a língua deslizando entre os lábios firmes, mais brincadeiras de vai e vem, mais movimentos de encaixe, mais, mais, mais. Se soubesse os equívocos, teria deixado o abraço se fazer poente. Soubesse eu que há várias formas do silêncio se fazer distância, teria deixado o gemido sair prolongado, rouco, ocupando mais espaço, teu peito, meu peito, uma cama. Mais vagarosamente teria saído do teu braço, mais compassadamente teria respirado, devagar teria emergido do teu olhar. Havia sempre um adeus, mas lentamente soletrado.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O que é que eu estou fazendo aqui?

Este post deve grande parte de sua existência à Alessandra,
que me fez pensar que, talvez, alguém se interessasse.

Hoje eu vou apresentar e discutir meu projeto na aula de Seminários de Formação Avançada. E esse processo deve prescindir do power point e, de preferência, de qualquer suporte ou registro. Isso me dá um medinho de deixar alguma coisa de forma. Não que a turma seja especialmente crítica ou que o professor seja excessivamente minucioso. Mas é que apresentando da maneira mais completa as sugestões serão melhor direcionadas e o risco de eu complexificar demais diminui. O que é, é o que é, e eu resolvi testar aqui minha capacidade de seguir o raciocínio.

Pois bem, meu trabalho de tese decorre de aprendizados e inquietações da época do mestrado. Minha dissertação versou sobre o processo ensino-aprendizagem e a pesquisa foi realizada em uma empresa metalúrgica, de processo produtivo estruturado e, na forma de uma palavra menos técnica pra cá, tradicional. Ou seja, já há um tempo fazia-se aquilo do mesmo jeito. Poucas inovações tecnológicas seja de divisão, processo ou gestão do trabalho. Neste mesmo período realizei uma pesquisa (junto com um grupo de estudo) em uma indústria de perfil diferente, que tinha passado por mudanças no processo produtivo, inserções de tecnologia, inclusive no nível gerencial. Em ambos os trabalhos, o tema reestruturação produtiva emergiu, tanto nas leituras teóricas, como nos discursos e práxis nas empresas. Também em ambas emergiu narrativas de sofrimento psíquico, articulado com as relações de poder, a divisão de tarefas, as cadeias de comunicação, etc.

Esses processos se inserem em uma compreensão do trabalho como espaço de formação e informação, integrando-se à idéia de que o homem se educa e se humaniza na produção e nas relações de produção, via um processo de contradições entre educação e deseducação, qualificação e desqualificação, humanização e desumanização.

Um dos autores que trabalha nessa perspectiva, Schurman, indica que é possível investigar os efeitos educativos da organização através dos modos de organização do trabalho, desvelando crenças, valores, pressupostos imbricados nos processos. Essa compreensão, claro, incorpora a ideia de que os modos de organização do trabalho não são arbitrários, mas inscritos no processo histórico.

Neste e deste cenário surge a minha questão de pesquisa pra o meu doutorado: como a empresa capitalista educa o seu trabalhador em tempos de capitalismo flexível.

Uma pausa pra esclarecer: capitalismo flexível é um termo cunhado por Sennet pra identificar o período de produção e relações de produção caracterizados por: 1. Reinvenção descontínua das organizações, 2. Especialização flexível da produção e 3. Concentração de poder sem centralização.

Então, a pergunta é essa: como a empresa capitalista educa seu trabalhador em tempos de capitalismo flexível. Para operacionalizar a investigação, alguns pontos se fazem necessários:

(1) identificar as concepções de aprendizagem que fundamentam os processos de formação nas empresas; (2) apresentar as estratégias de formação subjacentes às práticas formais e informais das empresas estudadas; (3) analisar as relações entre as concepções de aprendizagem e as estratégias utilizadas no processo de ensino-aprendizagem presentes nas organizações; (4) analisar as relações entre a subjetividade do trabalhador e as concepções e estratégias de formação das empresas estudadas.


Evidentemente eu não tenho tempo nem condições de tratar da “empresa capitalista” como um todo – além de ser teoricamente contraproducente, já que trabalho na linha dos Estudos organizacionais Críticos que tendem a não generalizar proposições sobre organizações. Assim, vamos aos recortes. Primeiro, decidi comparar dois cenários que fogem à idéia de homogeneização do processo de globalização: o Brasil, que se caracteriza pela expansão da produção, obras para a Copa do Mundo...e Portugal, cenário de crise econômica e produtiva. Segundo, é preciso dimensionar o campo empírico: a) escolhi trabalhar com indústrias. Porque? Pela familiaridade com o campo e por estas caracterizarem de forma mais acentuada a divisão de trabalho, os processos produtivos, a inserção de tecnologia, etc. b) escolhi dar voz aos trabalhadores, essa é uma posição política, dado ser este o lugar silenciado na maior parte das produções da Teoria Organizacional e Administrativa.

Eu ainda não sei como será o acesso ao campo. Inicialmente eu tinha pensado em encontrar um setor da indústria no Brasil e em Portugal (têxtil, metalurgia, etc), caracterizar as indústrias pelo porte, tempo de funcionamento, processos empregados, número de funcionários e aí realizar as comparações, aproximações, etc. Porém estou insegura se conseguirei acesso. Pensei – mas ainda preciso conversar com minha orientadora – chegar aos trabalhadores via sindicatos. Aí seria necessário caracterizar os sujeitos de pesquisa individualmente, especificar porque forma escolhidos, etc. Esse é um ponto que preciso desenvolver.

Metodologicamente, penso em realizar entrevistas em profundidade e trabalhar com grupos focais para levantamento dos dados. Talvez a técnica da história de vida seja empregada junto às entrevistas. Na análise dos dados a idéia é desvelar a lógica discursiva dos sujeitos via discussão as contradições e compreensão das ferramentas discursivas utilizadas, como metáforas, analogias, alegorias, etc. A análise dos dados supõe, nesse contexto, uma perspectiva interdisciplinar.

É isso que vou tentar apresentar... sugestões? dúvidas? Comentários aleatórios?

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Diário de Bordo #08


Ontem almocei com um querido amigo. Além do delicioso robalo e da instigante conversa, ainda tive outros ganhos: o mercado, não o sabia tão perto da minha casa, e o cemitério. Como? Não foste ainda ao Cemitério dos Prazeres? Pois hoje fui.

O cemitério é encantador. Os cemitérios assim costumam me parecer. Ensinam-me, a um só tempo, a finitude dos eventos e a permanência do sentir. Sabem a saudade. Os cemitérios guardam o tempo e nós o rebatizamos assim: lembrança e esquecimento. O vazio dos cemitérios são registros de que permanece a vida. Lá não estamos a chorar porque cá estamos a viver. Acho bonito. E necessário. E, por vezes, as visitamos, dores nossas, dores alheias, perdas nossas ou desconhecidas, um pouco a antecipar os vazios que também seremos em outrem. A morte é uma herança igualmente distribuída.

Pois, o Cemitério dos Prazeres é belíssimo e peculiar. Várias lápides e inscrições em estilos diferentes, alguns contando a história da família, outras enaltecendo a pessoa e seus feitos ou quem mandou construir o mausoléu. Como é, além de belo, bem grande, já tenho garantia de voltar muitas vezes. O Cemitério dos Prazeres tem muitos escritores/artistas portugueses lá enterrados. Já estiveram (mas foram translados) Amália Rodrigues e Fernando Pessoa. Não há nada de aterrorizador ou triste no cemitério dos prazeres, só aquela sensação tranquila de que as inscrições, tais como a memória, tornam-se, cada vez mais tênues e, por isso mesmo, mais incorporadas ao que permanece: a pedra. 




Falando em Pessoa, somos vizinhos, sabiam? A Casa Fernando Pessoa fica a 350 metros (pouco mais de cinco minutos andando) da minha casa. Tô podendo? É um Centro Cultural com exposição permanente e uma programação dinâmica. No dia 19/10, vou lá ver um Recital com Elisa Lucinda. Bom. Bom mesmo.



 Mas como não se vive só de cultura, tratemos do mercado. Será minha perdição. Peixes e peixes e peixes, absolutamente frescos e convidativos. E uvas deliciosas. E queijo de azeitão. Pode-se pedir muito pouco a mais da vida, garanto-lhes.


O primeiro almoço depois do mercado: carapau assado até a crocância, tomate e cheiro verde, pão no azeite. Ainda acostumo mal a mim mesma.


Há outras e diversas sugestões a seguir e comidinhas e lugares a descobrir. E uma lista de dicas de vinhos, rá.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Sessão de Cinema



Acho que se devia ver mais farorestes. Aqueles, antigos, com mocinhos e bandidos. Porque se não se aprendesse por um lado, sempre se podia aprender pelo outro. Explico.

Aprendizado 1: Pelo avesso. Pega um filme qualquer do Wayne. Era tudo bem esquemático, mesmo quando os personagens metiam-se a complexos. Nunca havia dúvida sobre quem era do bem e quem era do mal. Um mundo organizado e delimitado, porque do lado de cá da tela é uma bandalheira. Deixar o preto e o branco lá e, pra vida, reconhecer as nuances das cores, não lhes parece uma herança boa? Entender que há mais contradições, interesses e aspectos em uma questão do que o óbvio de dois extremos caricatos?

Aprendizado 2: pelo exemplo. A ordem das coisas nos faroestes eram simples. Claras. A construção da narrativa não deixava dúvida: o tal mocinho era bom – nós o reconhecíamos assim - porque ele fazia coisas boas e não o desajeitado e essencialista: ele fazia coisas boas porque era intrinsecamente bom. Nos faroestes não se julgam intenções. Ninguém quer saber se a pessoa está lutando contra os pistoleiros pra fazer de conta que é legal e tacar o beijo na mocinha. O que importa é que, lutando contra os pistoleiros, ele salva uma cidade inteira da opressão e do medo. É meio evidente que a mocinha queira beijá-lo. Um bocado de gente fica a querer.

Foram esses filmes que ajudaram a moldar meu estilo. E, narcisicamente, fico pensando que ajudaria muito um bocado de gente que vejo esbravejando por aí. Não sei ao certo o que tem de tão estimulante e promotor de gozo (quer dizer, até sei, psicanálise na cachola e tal, mas falo vivencialmente) em apontar dedos, culpabilizar, julgar, condenar e prescrever penas de achincalhamento, deboche e banimento do convívivo (da rede) social. Qual o gozo de se arvorar paladino do que quer que seja? Qual o prazer de tripudiar, cutucar e azucrinar? 

O que eu acho mais divertido (onde tem divertido, leiam triste) é que essas pessoas se acham megacientes. Conhecem não os atos, mas as intenções e os motivos dos outros (como, eu me pergunto, se uma porção disse é inconsciente e nem nós com nosso analista sabemos? Mas prossigo) e são moralmente superiores. Claro, porque suas intenções são sempre boas enquanto a do Outro, ora, já sabem, já descobriram, é sempre péssima, mesmo a fazer as melhores coisas.

Então, eu penso, tão bom e tão útil uma sessão de faroeste. Pra ver Shane partir sozinho. Pra ver a porta que se fecha isolando Wayne em Rastros de Ódio. Pra ver 7 homens e um destino e saber dos que partem, solitários e sem raiz. Porque o custo de um esquema do bem absoluto é a absoluta solidão. O desencontro. Quem não viu o faroeste, não sabe que os que ficam, que tem amigos, famílias, filhos, risos e sonhos são os quase-certos, quase-errados, os que podem ser heróicos, às vezes, mas são mesmo, quase sempre, é humanos.  

terça-feira, 2 de outubro de 2012

E por falar em saudade...

Ontem morreu Eric Hobsbawm. Lamentei, muito. Historiador marxista, militante comunista, um homem de ideias e sentimento. Fiquei triste de uma forma egoísta, não exatamente por ele – que teve uma vida intensa e morreu com 95 anos – mas por mim e por meu filho e por todo mundo aqui. Porque, fiquei pensando cá comigo, quem irá escrever as coisas que ele escrevia? Ninguém, ninguém. Não que não haja, ou não surjam, outros pensadores engajados, inteligentes e sensíveis como ele. Mas a forma, o estilo, isso é único. Intransferível. E, depois, a tristeza por Hobsbawm foi tornando-se uma saudade mais doída e íntima. Lembrei-me do meu orientador de mestrado. Eu já havia lido Hobsbawm antes. Mas aquela passada de olho interessada e superficial. Foi meu orientador que o pôs bem na minha frente e disse: aprecia. Sinto muita, muita falta do meu orientador. Da sua inteligência arguta. Do constante respeito ao Outro. Do preciso uso da linguagem. Sinto falta do que ele dizia. E, mais ainda, do que ele me permitia dizer. Sinto falta das orientações na cafeteria, cigarro e expresso, perguntas, roteiros possíveis, inquietação. Sinto falta do frêmito de querer agradá-lo, da alegria de escrever uma página “redonda”. Sinto falta de ouvi-lo dizer: “é um trabalho”.

Sinto falta. Dele, de mim, do Hobsbawm que ele me permitiu.

Rascunhos na Garrafa


- Esfriou. Mas não o bastante para blusas de manga e cachecóis. Mas vai chegar lá. Não tenho medo do frio, mas tenho, um bocado, da chuva.

- Fui a uma festa de aniversário (não me perguntem como, eu sou dessas, gosto de gente). Comi caviar, mas gostei mesmo foi da sardinha.

- Conheci uma senhora italiana que é de Alagoas (não é lindo e intenso o mundo?).

- As aulas vão bem, não fosse o fato de que eu não me acostumo a ir pra aula. Não, não tenho nada contra ser aluna, gosto de ser inquirida, desafiada, da interlocução, de ouvir, de aprender. Não gosto é de ter que ir pra aula, não sei se me faço entender.

- O campo empírico já começou a me perturbar o juízo. Originalmente (e sem nenhuma informação concreta, só o desejo) ambicionei comparar dois campos produtivos (Brasil X Portugal) no que se refere à como a empresa educa o seu trabalhador e os impactos subjetivos da reestruturação produtiva nesse processo. É bem bonito no papel. A questão é: como vou fazer contato com esses campos produtivos? Que indústria me deixará entrevistar seus trabalhadores? Será que eu deveria chegar aos trabalhadores por outra via, como os sindicatos? E qual a justificativa metodológica?

- As cores de Lisboa. Queria ser uma fotógrafa mimimamente competente pra trazer, aqui, as cores que me encantam. O azul machucado de azulejos antigos, antigos. O delicado bege das roupas. O surpreendente verde das folhas no jardim, contido, denso, forte. 

- Não tenho problemas com o vocabulário, mas a voracidade com que comem as vogais ainda me intriga.

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