Este post deve grande parte de sua existência à Alessandra,
que me fez pensar que, talvez, alguém se interessasse.
Hoje eu vou
apresentar e discutir meu projeto na aula de Seminários de Formação Avançada. E
esse processo deve prescindir do power point e, de preferência, de qualquer
suporte ou registro. Isso me dá um medinho de deixar alguma coisa de forma. Não
que a turma seja especialmente crítica ou que o professor seja excessivamente
minucioso. Mas é que apresentando da maneira mais completa as sugestões serão
melhor direcionadas e o risco de eu complexificar demais diminui. O que é, é o
que é, e eu resolvi testar aqui minha capacidade de seguir o raciocínio.
Pois bem, meu
trabalho de tese decorre de aprendizados e inquietações da época do mestrado.
Minha dissertação versou sobre o processo ensino-aprendizagem e a pesquisa foi
realizada em uma empresa metalúrgica, de processo produtivo estruturado e, na
forma de uma palavra menos técnica pra cá, tradicional. Ou seja, já há um tempo
fazia-se aquilo do mesmo jeito. Poucas inovações tecnológicas seja de divisão,
processo ou gestão do trabalho. Neste mesmo período realizei uma pesquisa
(junto com um grupo de estudo) em uma indústria de perfil diferente, que tinha
passado por mudanças no processo produtivo, inserções de tecnologia, inclusive
no nível gerencial. Em ambos os trabalhos, o tema reestruturação produtiva
emergiu, tanto nas leituras teóricas, como nos discursos e práxis nas empresas.
Também em ambas emergiu narrativas de sofrimento psíquico, articulado com as
relações de poder, a divisão de tarefas, as cadeias de comunicação, etc.
Esses processos se
inserem em uma compreensão do trabalho como espaço de formação e informação,
integrando-se à idéia de que o homem se educa e se humaniza na produção e nas
relações de produção, via um processo de contradições entre educação e
deseducação, qualificação e desqualificação, humanização e desumanização.
Um dos autores que
trabalha nessa perspectiva, Schurman, indica que é possível investigar os
efeitos educativos da organização através dos modos de organização do trabalho,
desvelando crenças, valores, pressupostos imbricados nos processos. Essa
compreensão, claro, incorpora a ideia de que os modos de organização do
trabalho não são arbitrários, mas inscritos no processo histórico.
Neste e deste
cenário surge a minha questão de pesquisa pra o meu doutorado: como a empresa
capitalista educa o seu trabalhador em tempos de capitalismo flexível.
Uma pausa pra esclarecer:
capitalismo flexível é um termo cunhado por Sennet pra identificar o período de
produção e relações de produção caracterizados por: 1. Reinvenção descontínua
das organizações, 2. Especialização flexível da produção e 3. Concentração de
poder sem centralização.
Então, a pergunta
é essa: como a empresa capitalista educa seu trabalhador em tempos de
capitalismo flexível. Para operacionalizar a investigação, alguns pontos se fazem necessários:
(1) identificar as
concepções de aprendizagem que fundamentam os processos de formação nas
empresas; (2) apresentar as estratégias de formação subjacentes às práticas
formais e informais das empresas estudadas; (3) analisar as relações entre as
concepções de aprendizagem e as estratégias utilizadas no processo de
ensino-aprendizagem presentes nas organizações; (4) analisar as relações entre
a subjetividade do trabalhador e as concepções e estratégias de formação das
empresas estudadas.
Evidentemente eu não tenho tempo nem condições de tratar
da “empresa capitalista” como um todo – além de ser teoricamente
contraproducente, já que trabalho na linha dos Estudos organizacionais Críticos
que tendem a não generalizar proposições sobre organizações. Assim, vamos aos
recortes. Primeiro, decidi comparar dois cenários que fogem à idéia de
homogeneização do processo de globalização: o Brasil, que se caracteriza pela
expansão da produção, obras para a Copa do Mundo...e Portugal, cenário de crise
econômica e produtiva. Segundo, é preciso dimensionar o campo empírico: a) escolhi
trabalhar com indústrias. Porque? Pela familiaridade com o campo e por estas
caracterizarem de forma mais acentuada a divisão de trabalho, os processos
produtivos, a inserção de tecnologia, etc. b) escolhi dar voz aos trabalhadores,
essa é uma posição política, dado ser este o lugar silenciado na maior parte
das produções da Teoria Organizacional e Administrativa.
Eu ainda não sei
como será o acesso ao campo. Inicialmente eu tinha pensado em encontrar um setor
da indústria no Brasil e em Portugal (têxtil, metalurgia, etc), caracterizar as
indústrias pelo porte, tempo de funcionamento, processos empregados, número de
funcionários e aí realizar as comparações, aproximações, etc. Porém estou
insegura se conseguirei acesso. Pensei – mas ainda preciso conversar com minha
orientadora – chegar aos trabalhadores via sindicatos. Aí seria necessário
caracterizar os sujeitos de pesquisa individualmente, especificar porque forma
escolhidos, etc. Esse é um ponto que preciso desenvolver.
Metodologicamente,
penso em realizar entrevistas em profundidade e trabalhar com grupos focais
para levantamento dos dados. Talvez a técnica da história de vida seja
empregada junto às entrevistas. Na análise dos dados a idéia é desvelar a lógica
discursiva dos sujeitos via discussão as contradições e compreensão das
ferramentas discursivas utilizadas, como metáforas, analogias, alegorias, etc.
A análise dos dados supõe, nesse contexto, uma perspectiva interdisciplinar.
É isso que vou
tentar apresentar... sugestões? dúvidas? Comentários aleatórios?