sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Levante as Mãos, Izma! (corrigido)





Porque ela acreditou, bordou camisola, bateu colcha, abriu janelas. Acendeu a lenha no fogão, fez fogueira no terreiro, deixou a pele em brasa. Porque ela acreditou, criou trilhas, espalhou mensagens em garrafas, deixou feijões e sonhos como guias. Porque ela acreditou houve meninice nos olhos e antiguidade nos gestos, ansiosa expectativa, jogos e risos. Porque ela acreditou fez o dia correr pra noite e o sol se vestir de suave negro pra espiar o que ela soletrava como felicidade. Porque ela acreditou a ninguém culpou quando o nada se fez e foi fel que ela bebeu em grandes goles. Aceitou as sombras, aceitou a dor, aceitou a cama fria. Porque ela acreditou arrancou o coração com as mãos nuas, chorou o sal sem soluços e deixou-se morrer sem suspiros.


nenhum laço. nenhum nó. nenhum nós.






Se eu pudesse te amar, fazia do coração violino e tocava as notas mais agudas. Se eu soubesse te amar eu mandava ladrilhar meu coração com pedrinhas de brilhante. E abria o gás.



* Se você não sabe quem é Izma, provavelmente não viu a "A Nova Onda do Imperador". Trate de corrigir isso. E aguarde post qualquer hora dessas. Eu simplesmente a-m-o esse filme.



terça-feira, 28 de agosto de 2012

À Espera de Pitacos


A Rita mudou a cara da Estrada Anil e o blog ficou tão, tão lindo que me fez refletir: faz tempo que penso em mudar o design/layout do Borboletas, mas não tenho coragem. Tenho medo, gente. Medo de não ficar parecido comigo, talvez. Medo de vocês pararem de vir aqui e não gostarem mais de mim (eu sou meus textos, ora pois). Medo de chegar na página e não me saber. Medo de não me reconhecer. Medo de não ser vista. Medo. Daqueles que paralisa. E ficaria assim, feito passarinho diante da cobra, mais um tempão, se não fosse a beleza do inesperado. 

Porque hoje, como se letras fossem esquinas, ele estava. Toda saudade se desfez em frases triviais que me chegavam como confortáveis abraços. E foi tão fácil e perto e bom, tanta conversa, a intimidade voltando ligeira, que eu soube (e logo tratei de escrever à Rita, fechando o círculo): não há perto e longe quando se está dentro. E, em pêndulo, como diria Vinícius, amar é querer estar perto, se longe e mais perto, se perto. Nunca basta, e tenho que me haver com isso. Assim sendo, é hora de mudar.

Pra mudar, tenho algumas perguntinhas na cabeça, se quiserem responder, eu fico mais feliz que pinto no lixo...

1) alguém ainda lê o blog aqui mesmo? Ou só por feed e talz? O layout faz diferença pra você?

2) alguém vai ao blogroll de verdade? Quantas vezes na semana? No mês? E a listinha dos meus outros blogs... serve pra alguma coisa? Alguém já foi lá pelo link no Borboletas?

3) se você acha legal blogroll, quantos blogs você acha que fica legal indicar sem superpovoar o blog?

4) faz diferença ter a minha foto aí do lado? Ou é desnecessária? Caso seja melhor com foto, essa tá boa?

5) a lateral vermelha...quem gosta? cansa a vista de vocês?

6) essa lista de posts mais visitados do blog? É útil ou só vaidade minha?

7) quem curte ver os últimos comentários na barra lateral?

8) Não sendo vermelho, que cor vocês acham que é legal pro blog?

9) alguém lê os textos linkados no corpo do post? Dá pra notar pela distinção simples de cor ou é melhor quando assinalo com um “aperte aqui”?

10) tem alguma sugestão ou comentário sobre o blog que as perguntas não cobriram? “pó falar”

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Foi Bom Pra Você?

Psicanálise é assim: solene. #Sóquenão


Geralmente quando eu digo algo como, “ah, é essa minha estrutura histérica brincando de ter um sintoma perverso”, as pessoas tendem a me olhar estranho. Ok, eu sou estranha, não é essa a questão. A questão são as questões que advém de conversas assim e que me deu vontade de tratar neste post.

Eu queria, uma vezinha na vida, fazer uma declaração peremptória: a psicanálise não é pra fazer juízo de valor. É isso, não tem avaliação moral em dizer: estrutura histérica, estrutura perversa, estrutura psicótica. Nem explicitamente (não existe uma escala de doidice, tipo: de neurótico a psicótico, por exemplo), nem implicitamente (a estrutura é o que somos – tipo Flaubert: eu sou Madame Bovary – e ninguém se cura de si mesmo). É assim: estrutura a ou b não é julgamento nem diagnóstico.

E o que é esse lance de estrutura então? Tentando ser simples, a estrutura é a forma como cada um sustenta seu discurso, o modo como se lida com a falta que organiza nossa subjetividade, é a operação de defesa ante o gozo do Outro. A estrutura é um indício de onde nos colocamos na relação com o desejo, com as ausências, com o objeto de amor.

A psicanálise não deveria servir para rotular, para excluir ou para classificar. Não deveria servir para subsidiar um discurso intolerante nem dar suporte à ideia de manifestações subjetivas como doença. Os conceitos psicanalíticos não são ofensas. Não são etiquetas. Não são senhas de entrada em qualquer festa – pobre ou não.

E pra que serve a psicanálise, afinal, se não é possível curarmo-nos de nós mesmos ou deixar de ser quem somos e nem mesmo serve para conhecermos completamente quem somos e o que desejamos? Diria eu: para sermos um tantinho mais adultos. Diria assim: para atravessar a rocha da castração. Hein? Pra reconhecer que somos incompletos e nos havermos com isso. Para transmudarmos nossas dívidas amorosas infantis em responsabilidade. Para transformar o sofrimento em infelicidade banal. Serve pra dizer: morte, amor, gozo, entrega, defesa, eu, você, os outros, diferença, sem peso e sem medida.

A psicanálise é, quando muito, pra gente usar chapéu na chuva, blusa de bolinha com calça de estampa de tigre, rir alto, dizer por favor, aprender a dizer "quando meu pai (mãe, marido, etc) morrer" e não "se meu pai (complete aqui com quem quer que seja) morrer".

A psicanálise serve pra não servir, pra não ser útil, pra nos lembrar que a vida é mais do que o que fazemos dela e nela, é também o que resta, o que escapa do dito, o riso solto, a dor aguda, o que sobra. A psicanálise serve pra escrever um post assim, sem pé nem cabeça, quando se queria dizer tantas outras coisas que não querem ser ouvidas.


domingo, 26 de agosto de 2012

Geografia, História e Duas Doses de Vodka


 Disse a CamilaTendemos a privilegiar um aspecto ou outro da nossa biografia de acordo com a conveniência do momento. Gostar de Tom Jobim é um dado biográfico muito mais condizente com minha personalidade de hoje do que a posse de uma maletuxa. Mas, se eu for honesta comigo mesma, terei de reconhecer que Tom Jobim não era mais significativo para mim, na época, do que minha maletuxa, que estava sempre recheada de maquiagens, lantejoulas, brilhinhos, adesivos de letrinhas e lápis de cor.


E fiquei eu matutando um tempão, bem no estilo coisa-de- grego-de-vestido-longo: quem somos? Porque somos? Quando somos? E todas as variações que vocês conhecem. Como tenho meu xodó pela Teoria Crítica, já deu pra sacar que as quatro ou cinco perguntinhas “simples” foram tornando-se um turbilhão no juízo. Somos quem somos mesmo (existe isso?), somos o que nos tornamos (geografia + história+ duas doses de vodka, sacode bem, etc.) ou somos quem dizemos que somos se nos esforçamos pra cumprir o dito, fazendo, da narrativa, profecia?

Não esperem resposta. Eu tenho pouquíssimas e as que tenho uso pouco. Mas me inclino para as historinhas. Como as que conto nas madrugadas sem sono, me acalentando baixinho: passados e futuros inventados, especialmente quando aconteceu tudinho. Agarro um guarda-chuva imaginário e colorido e posso ser minha própria Mary Poppins. Posso ser. O que digo, sou. Corro pra ser aquela Luciana construída em mosaico de influências e desejos. E aí me lembro das maçãs do Manuel (lembro porque o mundo é uma bila e esbarrei na Fal do Drops lá no meu cantinho triste). As maçãs dele, suculentas, foram essas (morda aqui). E as minhas vieram assim (já estavam neste galho aqui, mas trago-as para cá):

Continuo eu, para usar as palavras do post que deflagra este, impolida e mal areada. Mas houve um tempo de mais ainda. Convidada a pensar sobre o tempo em que eu nem sabia que gostava de coisas finíssimas - e outras nem tanto, mas continuo a apreciá-las - diverti-me recordando, muito mais do que se divertirão os que lerem a lista, estou bem certa. Não é uma lista de incontestáveis, é uma lista das belezas que me afetam a respiração e incendeiam a alma.

Havia regras, é preciso dizer. Só seriam o fruto, "coisas (livros, pintura, música, ideias, and so on) de valor intelectual que descobrimos sem ser pela voz do Mestre!". E, também, "só se aceitam descobertas feitas até os 18 anos de idade. Depois, virgindade perdida, já não conta".

As maçãs que lá estavam:

1) Eu era rueira, pega-pega, joão-atrepa, carimba. Mas tinha hora certa de sair e entrar. Assim, sobrava-me tempo dentro de casa, entre as coisas que os pais tinham sem tempo de apreciar. Desta maneira, chegou-me Nara Leão, com seus joelhos bem-afamados e sua voz mansa e forte a cantar "Opinião", mas principalmente, "A estrada e o violeiro", dando-me logo vontade de partir, viajar, andarilha eu me descobri foi ali.

2) Eram muitos vinis, quase todos de músicos brasileiros por quem até hoje tenho bem-querer. Mas havia uma coleção que não era nunca manuseada por pai e mãe. Havia sido um presente, na época era uma lembrança apenas. Mas eu, menina, gostava. Era uma coleção de vinis de Ópera com respectivos libretos. Era isso que eu amava e lia dia após dia: as histórias. As histórias de morte, porque - como já me perguntei uma vez - porque fica tudo mais dolorosamente bonito quando se morre no final? Até que um dia. Um dia eu ouvi Maria Callas. Rasgou-me por dentro de forma tal que até hoje não houve jeito de remendar, nem com amores, e eu bem tentei.

3) Depois, secundarista, sabia que devia estudar e preparar-me pro vestibular. Passava a noite em claro, no último aposento da casa, pensando em fazer isso. Pensava, juro que sim. Mas que culpa posso ter, se havia a Sessão de Gala e depois os Corujões com filmes que me escravizavam os olhos? Talvez seja essa a maçãzada mais severa, os filmes. De três tipos até hoje sou escrava... os musicais: meu coração saltita junto com os pés de Astaire e passarei a vida ansiando por aquele charme e graça - eu que tenho dois ou três pés esquerdos; os westerns - com John Wayne e sua noblesse oblige tão disfarçada de dureza e ardor; os italianos - Antonioni, Fellini, Sergio Leone, Pasolini, Rossellini, Scola, De Sica, Visconti e, já mais agora, Tornatore. Eu nada sabia do neorealismo ou do cinema de autor, não sabia que cinema é luz, quando as lágrimas acompanhavam os ladrões de bicicleta ou o dia especial de Marcello e Sophia Loren ou quando eu morria junto com Dirk ou desenvolvendo minha afamada fixação pela Fontana di Trevi. Não sabia de nada e de tudo fiquei a querer saber por aqueles Pretos e Brancos que alguns chamavam filmes.

4) Entre os livros que moravam na prateleira alta, logo descobri: A Carne - que há muito não escandaliza mas ainda tinha vigor quando o li; O Castelo de Kafka - não informada sobre a dificuldade de lê-lo, na época não encontrei nenhuma; e o meu xodó: Machado de Assis e suas Memórias Póstumas. Depois deste devorei tudo que dele encontrei de romances a críticas de teatro de peças que, claro, não assisti, apenas para encontrar sua prosa seca e devastadora.

5) Também antes dos 18 assumi o prazer da nordestinidade e já me esbaldava com os cantadores de viola, com os cordéis luxuriantes, com o chamego do forró do Luiz Gonzaga...sem que ninguém me dissesse eu me sabia cigana de enraizada alma sertaneja, uma combinação improvável e contraditória.

6) As idéias de Ortega y Gasset me atropelaram e ajudaram a montar meu esquema mental egoísmo-hedonismo-redenção- pouca culpa. Com ele aprendi que civilização é, antes de mais nada, vontade de convivência (eu já tinha aprendido com Lampedusa que é preciso que tudo mude pra que tudo permaneça o mesmo). Deixei Ortega, há tempos, mas há de ter uma ou outra ideiazinha espreitando atrás da cortina.

Foram muitas as maçãs, não há cesto que as caiba, mas o que me abalroou, mesmo, na juventude, foi um certo gosto pela decadência, uma inclinação pelos tempos idos, certa impaciência com a falta de savoir-faire, devotado amor pela infelicidade literária e um grande prazer no que me dá prazer.

(relendo essa lista, logo me vieram muitas outras maçãs, tantas e tantas que vão me pedindo outro post, talvez).

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Caçada


Eu não tenho jeito pra matadora de leões, quando muito me saio bem como estapeadora de muriçocas. E, entretanto. Nesses dias, acorda-se cedo, afia-se a lança e parte-se pro corpo a corpo. Ou mata o leão ou ele te come (e nem liga no dia seguinte, não importa quantas dicas de nova você siga).



São meus dias de caça. Não sei ao certo se caçadora ou caça, mas classificação nunca foi meu forte mesmo. Só espero chegar ao fim do dia com o sorriso de sempre. Tem funcionado. Não me importo com as cicatrizes, vão fazendo rima com as ruguinhas da alegria.

Mas eu quero falar mesmo de outra coisa. De amor. A gente chega da floresta (é na floresta que tem leão, né), cansada, o sorriso esmaecendo, com fome e sede, escorrendo suor nas costas (nas florestas o clima é tropical, eu vi no filme do Bogart)... e aí: amor. E todo o mundo ganha sentido. E a gente sabe a beleza e o encantamento. E fica o coração quente. E o sorriso volta, fácil.

Por exemplo? Um sapatinho vermelho. Mais exatamente, uma sapatilha. Presente da Renata Lima. Foi assim: eu, meio ansiosa, meio excitada, completamente amedrontada com a vida nova que vem aí, mesmo que por poucos anos, outros lugares, pessoas, jeitos. Outras roupas. E ela ali, presente, disponível: essa não, essa sim, ficou linda. E quando eu dizia ah, esse não vai dar, lá estava na sacola, é presente. Não é a coisa em si (embora a coisa, nesse caso, ou as coisas, mais exatamente, sejam lindas, úteis e incríveis). É a delicadeza, o desprendimento e o olhar certeiro. Ela me vê, me sabe, me ama. Entende que o sapatinho vermelho me indica: um passo depois do outro. E um rodopio. Pronto, já sei dançar. E viajar.

Por onde? Mais amor. Sabe timing? A Iara e o Daniel sabem. Sabem fazer de páginas, abraços. Que chegam no dia certo, na hora certa, mesmo quando os Correios inventam de trocar os Ceps. Todo mundo sabe, e eu sei mais que todo mundo, o quanto sou inapta pra estar no mundo. Estou de teimosa. Desorientada (mas feliz, nem precisam me consolar). E o olhar amoroso me encontra e faz ninho lá onde vou pousar. Um livro. Tão lindo. Feito colo. Feito abismo. Vai, ele – livro - me diz. Eles – amigos -  me dizem. Se joga. Tem beleza, tem riso, tem amor, lá, aqui, é só olhar. E me mostram, porque são delicados. E aquele peso no peito ainda está lá, mas já não é angústia, é afeto. É certeza de que se não sou certinha pro mundo, tem gente no mundo que é certinho pra mim. Encaixa ali, entre uma vértebra e outra, segura o coração com as mãos e o ajuda a bater.

Tum, tum. Tem que ter ritmo. E constância. A Camilla sabe como. Desde que a caçada começou, ela sempre esteve aqui. O que ela me deu tem um nome: presença. Foram respostas, esperanças, suporte, tempo. Tanto. Saber esquecer-se para me fazer lembrar. A Camilla é farol. A gente vê ao longe e sabe o rumo. E mesmo quando não o conseguimos alcançar de uma vez só, aquela luz é companhia. Assim, a noite e seus temores são atravessados. Por causa do farol. Por causa da Camilla.

Minha mãe me diz: eu te amo sempre que vamos desligar o fone, sempre que escreve um cartão, sempre que dá boa noite. Minha mãe me diz eu te amo o tempo todo. E é sempre tão bom. “Despudorou” o amar. Eu aprendi que isso que sinto no peito, esse morno, essa vontade abraçar, de cuidar, de xamegar, de estar perto, esse pensar, esse esquecer, esse surpreender, esse já saber, esse conforto, esse encontro, tem nome: amor. Mais que nome, tem tempo e conjugação verbal: eu amo. Aprendi que sentir é bom, mas ainda melhor é dizer. Sempre. Todo dia. É isso, esse post inteiro pra dizer: Eu amo vocês, Renata, Iara, Daniel, Camilla e sou muito, muito, muito grata por vocês estarem no meu viver.
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