sábado, 18 de agosto de 2012

Fracassamos

"Porque se chamavam homens
também se chamavam sonhos
e os sonhos não envelhecem"



“Nós, os humanos, fracassamos como espécie”. Tenho escutado isso com frequência e venho me pegando repetindo vez ou outra (especialmente em situações onde aparece o uso da força, homofobia, racismo, etc.). Entretanto, hoje, dirigindo quatro horas na companhia de caixas e sacolas, fiquei pensando que o próprio fato da expressão existir já demonstra que ela não é absoluta. Pensamos que fracassamos como espécie porque temos expectativas. Porque esperamos ser melhores. Porque sabemos que podemos ser. E que os outros também podem. Expectativas são constituídas de fantasia e imaginação mas também de memória, leitura da realidade e vivências. Ao apontarmos que podemos ser melhores, indicamos que, por vezes, somos. Ao dizermos que fracassamos como espécie, mais que um diagnóstico, identificamos o potencial de mudança.

Sim, eu sou meio Pollyana. E recentemente tenho que exercitar muito, muito, muito, esse lado, porque tenho ouvido cada bobagem que sai de baixo. Sobre as cotas sociais, por exemplo.  E nem vou falar do blá-blá-blá classe-média-sofre no estilo #mimimi injustiça #mimimi pagamosimpostos #mimimi privilégios. 

Não é nem pelo #mimimi classe média a minha indignação. É pela situação surreal de ouvir/ler professores universitários propondo, com uma naturalidade assustadora, medidas excludentes em represália ao dispositivo das cotas. Ler, assim, sem preparação nenhuma, sem indicação de que é uma piada mal elaborada, que os professores das Universidades Federais deveriam organizar uma espécie de “operação-padrão” pra reprovar – logo no primeiro semestre - os alunos que entrassem pelas cotas. Para limpar a Universidade (sentiu o cheirinho higienista?). Para ficar só com os melhores. Como, eu penso, alguém se sente apto a julgar, classificar e hierarquizar pessoas assim? Como alguém se sente capaz de, por princípio e opção, identificar-se com a manutenção da exclusão e da injustiça? Ah, Luciana, mas eles chegam “despreparados”. E daí? Isso só indica que já falhamos com eles, como sociedade, uma vez. E a opção é manter e aprofundar o erro? Se eles chegam à Universidade "despreparados" cabe a nós desenvolvermos estratégias de inclusão.

Foi tão inquietante pra mim saber que existem pessoas que realmente pensam assim: existem pessoas melhores que outras. Foi tão inquietante imaginar que, em sala de aula, estão lá os professores julgando que alguém merece mais alguma coisa que outros. Foi tão inquietante pensar que quem está elaborando esse discurso não é uma pessoa louca e desinformada ou patologicamente cruel, mas gente simpática, que brinca no parquinho com os filhos, com quem cruzo no corredor e que poderiam, potencialmente, até frequentar minha casa.

Fiquei assustada, confesso, pensando em quantos obstáculos mais estes alunos, estas pessoas, estes humanos, terão que enfrentar na rotina de estudo. Fiquei assustada com a perversidade de um sistema que quer manter-se para privilegiados, que se legitima com a ideia distorcida de mérito, como se ignorasse as circunstâncias sócio-históricas. Fiquei assustada imaginando os professores, estas pessoas, estes humanos coalhados de privilégios, destilando seus preconceitos em pequenas (imensas) mesquinharias cotidianas. Fiquei assustada com a tranquilidade com que as pessoas se julgam "superiores", "melhores", mais "aptos", mais "dignos". Assustada com a falta de empatia, com a completa anulação do Outro como sujeito, com a virulência e violência. Fiquei assustada, indignada, ferida narcisicamente, porque, né, eu sou professora.

Pode-se ter boas razões pra discordar das cotas, eu suponho (embora não as conheça). Mas, por favor, por favor, por favor, não me venham com argumentos de mérito, merecimento e afins. Não há bondade, inteligência ou sabedoria em valorar pessoas. 

Ah, gente, de quantas formas a gente pode desenhar que não é privilégio quando alguém obtém um direito que muitos já tinham “naturalmente”?



quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Não é Sobre Taças. Ou é.



Acordei e, antes de mais um dia de maratonista, resolvi reler o lindo texto da linda Camila Pavanelli e fiquei pensando nas minhas maletuxas e no que mantemos com a impressão de que são coisas realmente importantes na nossa vida. Ou melhor, fiquei pensando no que eu mantenho com a impressão de que é realmente importante na minha vida. Obviamente não estou falando de pessoas. Tô falando daquele bibelô que fica em cima do rack – ou, talvez, do próprio rack – que a gente nem concebe ficar sem ele. Ao encaixotar minha vida mais uma vez, minhas certezas viraram muitas perguntas. Corta pra uma digressão:

Eu não sou uma pessoa desapegada, gente. Eu gosto de conforto. Gosto de tv por assinatura. Gosto de ventilador. Delivery. Gosto (acho que gostaria, se pudesse comprar) dos produtos do polishopping (sei lá o nome) que “facilitam sua vida” como a escada dobrável, um ralador multi-uso e nem sei mais quantas geringonças divertidas assim. Então, é isso: não sou desapegada. Voltando ao meu encaixotamento:

O que eu não pude vender (com preços hilários às vezes em que o comprador que tinha que dizer: “Lu, isso tá barato, não é esse preço” ou “Lu, assim tá mais caro que um novo”) eu dei. Ontem foi o dia de ver o povo ir embora levando prato, copo, panelas, lençóis, toalhas, usados ou nas caixas ainda. Sem falar dos mévies da cozinha, cama, guarda-roupa... tchau micro-ondas, foi legal te conhecer. Fiquei com um frigideira, uma panela, um prato, uma colher, um garfo, uma faca e uma xícara. Alguns outros itens maiores, como geladeira e fogão, irão embora dia 30 de agosto.

Encaixotei e não entrou na festança, ficou esperando minha volta: minhas taças (lógico que os livros e os dvds eu ainda estou procurando um jeito de manter todos, não cabem nos vários espaços que me ofereceram gentilmente pra abrigar alguma coisa que eu quisesse conservar. É livro pra caramba, gente). Aí acordei hoje pensando: sou uma mulher de taças. Queéqueéissogente? E eu nem tenho a desculpa de ser um lance emocional, já que minha memória de geléia não me permite lembrar quem me deu quais taças (porque, claro, todas elas foram presentes, eu sou uma mulherdetaças mas nunca fui uma mulher de comprar coisas. Eu ganho. Obrigada, mundo). Matutei, matutei e não consigo (me) saber... não é pelo valor, há coisas que dei bem mais caras pra adquirir na volta. Não é pela necessidade ou utilidade – copos fazem o mesmo papel. É porque são frágeis? Porque são belas? Porque são praticamente inúteis e eu antecipo que, na volta, sem dinheiro e aperriada, certamente não poderei ficar sem comprar prato e garfo por cima de pau e pedra, mas poderia ficar tempos e tempos sem comprar uma tacinha sequer? Não sei. Não (me) sei. Sei que caprichosa e amorosamente embrulhei cada uma para um demorado sono.


E mudo pro outro lado do mar levando roupas, sapatos, notebook, uma porção de medos, outra porção de sonhos. E afetos. Andam me perguntando do que eu acho que sentirei saudades nesses aninhos que passarei longe. Eu não sei. Quase sempre respondo: dos abraços. Hoje tem o Skype, o FB e tantas tecnologias que dão a impressão que o longe é logo ali. Conto com elas pra me manter no eixo. Tento imaginar como era passar tanto tempo longe quando não se podia acessar sons e imagens conhecidas tão rapidamente e imagino: angústias. O certo é que estou pronta. Sabe, na pontinha do pé pra se lançar? Sou eu. Um olho no gato, outro no peixe. “Medo de ir embora, vontade de não ficar, estrela de muitas pontas, que não se consegue olhar, lampejo, brilho cegante, uma dor dilacerante, lâmina em seda enrolada, coisa muito complicada...”

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Toada



Eu gosto desta canção. E gosto ainda mais que você a tenha tocado em minha cama, sem que eu lembrasse de pedir, sem que você esquecesse de lembrar que eu gosto tanto desta canção. Felicidade é isso, pergunta a menina inquieta que joga amarelinha em meu peito. Esse instante que é arte e, por ser assim, é completamente inútil? Felicidade é isso, esse momento quase tela, quase som, quase letra, uma perfeição que do outro lado do espelho só poderia ser sussurrada: angústia?

Eu gosto desta canção, digo, depois, deitada em teu corpo, as mãos brincando de dedilhar notas antigas e preguiçosas, escorregando na pele que se desfaz e, em um susto, sabemos: toca-se o coração.

Cá dentro, eu sei: gosto, de uma forma terna e dolorida, que não cheguemos nunca a nos amar, mesmo com toda essa fome que temos um pelo outro. Gosto que não cheguemos nunca a nos amar, tantos futuros se desencontrando.

Gosto que não cheguemos nunca a nos amar, eu repito, agora em voz alta, e as nossas mãos se procuram e são mornas e salgadas. Você entende e me conta do seu primeiro bichinho de estimação: um porquinho da índia que um dia, tão velho, tão velho, sumiu e você quis acreditar quando a sua mãe abraçou apertado e disse: ele fugiu.

E eu também, eu também quis acreditar na fuga do porquinho. E em futuros. Porque você sempre sabe o jeito certo de encaixar as pernas, a piada, os sonhos. Porque nunca nos falta vontade, assunto ou fôlego. Porque brincamos nus, bebemos no mesmo copo e fazemos caretas. Porque podia ser pra sempre, porque é tão mais fácil ficar, eu quis acreditar e dizer: onde será que ele está agora? Mas eu sei as mortes todas, respiro como quem se afoga e faço silêncios.

De novo, o violão. Nunca uma Toada foi tão bonita. Dizem que o belo é feito de impossíveis.

sábado, 11 de agosto de 2012

E Por Falar...

 Saudade do vermelho daqui. Aliás, saudade é palavra na ordem do dia em mim. Saudades de quem deixei agora há pouco. Saudades de quem há muito tempo não tenho em um abraço. Saudades de quem eu via sempre e agora verei pouquinho, pouquinho. Saudades de quem eu nem sabia que era e agora já se faz enorme na minha vida.

Saudade é fio que, quem ama estrada como eu, não consegue deixar de tecer. Só espero que seja ele, sempre, a me levar para fora do labirinto que, por vezes, tantas vezes, torno-me.

Bom, o certo é que eu estava na rua. Fui e vim, parei, voltei, caminho se fazendo pele. Entre esquinas, tanta gente linda que se sabe amada e cabe certinho nos meu abraços, os reais e uns já esperados no futuro. Gente linda, como diz a Iara (uma delas, aliás) quanto mais e mais perto, melhor.

De tanta gente linda, preciso dizer que Renata é meu número da sorte. Ou letras. Ou nome. Pessoas. Amigas. Lindas. Queridas. Delícias de instantes, conversas, abraços, descobertas. Renata Lima, você me mima demais. E eu gosto, laralilá. Obrigada, por tudo, tudo que você sabe, ou sente.

E, já que estou falando das estradas tantas, pra quem não sabe: em setembro vou pra Portugal. Doutorado. Ainda tem um problema ou outro pra resolver, mas as malas já estão sendo feitas. Torçam pra dar tudo certo, pode ser? 

Doutorado: tenho medinho. De não saber o que preciso saber. De não conseguir escrever uma tese inédita. É isso que me assusta: inédita. Mas vamos lá. A (minha) Universidade é linda e meu curso é inspirador. Sociologia Econômica e das Organizações. Hora de descascar esse negócio. Antes de bater o martelo: Lisboa, paquerei Belo Horizonte. Tinha atrativos, a cidade encrustada entre serras. Mas nós fazemos as escolhas ao mesmo tempo em que somos feitas por elas, não é? 



Pois será Lisboa e todos os receios, eu sem rede de proteção, sem aquela certeza de que, ali do lado, tem gente que me ama. Será Lisboa e o pseudoconforto de uma língua quase minha. Será Lisboa com seus azulejos encantadores, suas ruas estreitas e aquela sonoridade constante que aquece o coração. E, claro, será Lisboa e seu cheiro de mar.


Minha vida em travessias, eu sei. Deve ser por isso que eu sempre gostei de filmes de pirata. Aquela frase ecoando no peito: içar velas! Coração estufado de memórias, segue-se singrando o tempo. Simbad, é claro. Com minha espada curva, vou inventando meus monstros só para os destruir. 



 Cada vez mais andarilha, as raízes crescendo em cima da terra, mirando, talvez, o sol. Cada vez mais cigana, voltar é palavra que desconheço. Mas vou descobrindo, consolada, que o lugar mais perto de ser pouso é esse aqui. Em vermelho.


segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Mais Uma de Olimpíadas...

Vivendo e aprendendo a jogar... ou, pelo menos, a torcer. Tenho um bocado de chateação com a forma como os Jogos Olímpicos são transmitidos. Parece que cada brasileiro que entra em quadra (ou na piscina, ou no tatame, etc) tem chance e a obrigação de vencer. Ignora-se, nas narrações e comentários, dois lances primários:

1) esporte é treinamento e imprevisto. Especialmente em competições de alto nível, onde as diferenças de desempenho são pequenas, minúsculos deslizes, circunstâncias incontroláveis e triviais, podem ser o diferencial para a vitória.  

2) uma competição não é um evento isolado de todo um conjunto de marcas anteriores. Não adianta esperar que a moça bonita que (hipoteticamente) tem como melhor marca 2’32’’ e, como média de desempenho nos últimos dois anos, 2’44’’, ganhe uma prova em que as principais concorrentes tenham um tempo médio de 2’13’’, por exemplo. É irreal e irresponsável.

Eu só espero dos atletas olímpicos que eles tentem fazer o que estão treinando pra fazer. Nada mais. 

I have a dream: que a cobertura esportiva seja informativa e não (ou pelo menos não exclusivamente) torcedora. Custa, ao começar uma partida qualquer, seja de esgrima, tiro, vela, vôlei, natação, tudo, tudo, sermos informados da posição do nosso atleta no ranking mundial, sua última marca e a marca esperada como vencedora? Porque, olha, se um atleta brasileiro costuma ser o 21º em uma categoria e nas Olimpíadas vai lá e chega em 18º, por exemplo, eu vou vibrar e me emocionar. Todo esse furor-vibrador-torcedor-cego contribui para banalizar certas críticas que seriam pertinentes. É claro que – como torcedor consciente que Fabiana Murer já foi campeã mundial – alguém possa achar frustrante o desempenho dela nas Olimpíadas. Mas junta-se isso ao fato de que “putz, perdemos mais uma na esgrima” como se fosse tudo do mesmo balaio. Não é.

Informar sobre políticas de investimento, sobre tipos de formação, técnicas, práticas de treinamento específicas, competições que o atleta participou recentemente, desempenho usual, tudo isso enriquece a transmissão e proporciona a formação de um torcedor melhor capacitado para vibrar, comemorar, lamentar e xingar o que ele quiser.
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