"Porque se chamavam homens
também se chamavam sonhos
e os sonhos não envelhecem"
também se chamavam sonhos
e os sonhos não envelhecem"
“Nós, os humanos, fracassamos como espécie”. Tenho escutado isso com frequência e venho me pegando repetindo vez ou outra (especialmente em situações onde aparece o uso da força, homofobia, racismo, etc.). Entretanto, hoje, dirigindo quatro horas na companhia de caixas e sacolas, fiquei pensando que o próprio fato da expressão existir já demonstra que ela não é absoluta. Pensamos que fracassamos como espécie porque temos expectativas. Porque esperamos ser melhores. Porque sabemos que podemos ser. E que os outros também podem. Expectativas são constituídas de fantasia e imaginação mas também de memória, leitura da realidade e vivências. Ao apontarmos que podemos ser melhores, indicamos que, por vezes, somos. Ao dizermos que fracassamos como espécie, mais que um diagnóstico, identificamos o potencial de mudança.
Sim, eu sou meio Pollyana. E recentemente tenho que exercitar muito, muito, muito, esse lado, porque tenho ouvido cada bobagem que sai de baixo. Sobre as cotas sociais, por exemplo. E nem vou falar do blá-blá-blá classe-média-sofre no estilo #mimimi injustiça #mimimi pagamosimpostos #mimimi privilégios.
Não é nem pelo #mimimi classe média a minha indignação. É pela situação surreal de ouvir/ler professores universitários propondo, com uma naturalidade assustadora, medidas excludentes em represália ao dispositivo das cotas. Ler, assim, sem preparação nenhuma, sem indicação de que é uma piada mal elaborada, que os professores das Universidades Federais deveriam organizar uma espécie de “operação-padrão” pra reprovar – logo no primeiro semestre - os alunos que entrassem pelas cotas. Para limpar a Universidade (sentiu o cheirinho higienista?). Para ficar só com os melhores. Como, eu penso, alguém se sente apto a julgar, classificar e hierarquizar pessoas assim? Como alguém se sente capaz de, por princípio e opção, identificar-se com a manutenção da exclusão e da injustiça? Ah, Luciana, mas eles chegam “despreparados”. E daí? Isso só indica que já falhamos com eles, como sociedade, uma vez. E a opção é manter e aprofundar o erro? Se eles chegam à Universidade "despreparados" cabe a nós desenvolvermos estratégias de inclusão.
Foi tão inquietante pra mim saber que existem pessoas que realmente pensam assim: existem pessoas melhores que outras. Foi tão inquietante imaginar que, em sala de aula, estão lá os professores julgando que alguém merece mais alguma coisa que outros. Foi tão inquietante pensar que quem está elaborando esse discurso não é uma pessoa louca e desinformada ou patologicamente cruel, mas gente simpática, que brinca no parquinho com os filhos, com quem cruzo no corredor e que poderiam, potencialmente, até frequentar minha casa.
Foi tão inquietante pra mim saber que existem pessoas que realmente pensam assim: existem pessoas melhores que outras. Foi tão inquietante imaginar que, em sala de aula, estão lá os professores julgando que alguém merece mais alguma coisa que outros. Foi tão inquietante pensar que quem está elaborando esse discurso não é uma pessoa louca e desinformada ou patologicamente cruel, mas gente simpática, que brinca no parquinho com os filhos, com quem cruzo no corredor e que poderiam, potencialmente, até frequentar minha casa.
Fiquei assustada, confesso, pensando em quantos obstáculos mais estes alunos, estas pessoas, estes humanos, terão que enfrentar na rotina de estudo. Fiquei assustada com a perversidade de um sistema que quer manter-se para privilegiados, que se legitima com a ideia distorcida de mérito, como se ignorasse as circunstâncias sócio-históricas. Fiquei assustada imaginando os professores, estas pessoas, estes humanos coalhados de privilégios, destilando seus preconceitos em pequenas (imensas) mesquinharias cotidianas. Fiquei assustada com a tranquilidade com que as pessoas se julgam "superiores", "melhores", mais "aptos", mais "dignos". Assustada com a falta de empatia, com a completa anulação do Outro como sujeito, com a virulência e violência. Fiquei assustada, indignada, ferida narcisicamente, porque, né, eu sou professora.
Pode-se ter boas razões pra discordar das cotas, eu suponho (embora não as conheça). Mas, por favor, por favor, por favor, não me venham com argumentos de mérito, merecimento e afins. Não há bondade, inteligência ou sabedoria em valorar pessoas.
Pode-se ter boas razões pra discordar das cotas, eu suponho (embora não as conheça). Mas, por favor, por favor, por favor, não me venham com argumentos de mérito, merecimento e afins. Não há bondade, inteligência ou sabedoria em valorar pessoas.
Ah, gente, de quantas formas a gente pode desenhar que não é privilégio quando alguém obtém um direito que muitos já tinham “naturalmente”?





