sexta-feira, 29 de junho de 2012

Nordestina

O idioma ia ser nordestinense
A bandeira de renda cearense
"Asa Branca" era o hino nacional
O folheto era o símbolo oficial
A moeda, o tostão de antigamente
Conselheiro seria o inconfidente
Lampião, o herói inesquecido
Imagina o Brasil ser dividido
E o nordeste ficar independente



Eu acho fofinho quando os gaúchos se gabam. Ou quando os cariocas, cheios de marra, falam de seu terreno espremidinho – e lindo – entre serra e mar. Acho bonitinho todo mundo que tem apreço por um lugar, uma tradição, um jeitinho. Imagino que deve se parecer, mesmo que vagamente, com este morno no coração que é amar e se orgulhar do Nordeste.


 Não peço a ninguém compreensão. Não dá mesmo pra entender. É só muito sol na moleira pra pessoa sentir esse comichão no peito e marejar no olho quando se escuta um aboio. Quando se vê uma rua cheia de bandeirinha e todas aquelas comidas apetitosas e nutritivas como indicativo do bravo milho, brotando, teimoso, da terra seca. Ah, despalhar o milho, fiz muito. A gente descasca e, de repente, o cabelo do milho, farto, sedoso, encobrindo o sabor. Milho e feijão, as possibilidades daquela agricultura feita de esperança. Debulhar feijão verde, sentada no cimento frio, bacia de alumínio e conversa que vai e vem que nem cadeira de balanço.

É quente. É árido. E é tão bonito que se faz nó na garganta. Um território feito de suor, temperança e valentia. Um povo com cor de barro, olhinhos estreitos do sol, pele com arabescos do fácil sorrir. Tem coisa mais linda não, que minha bisavó, a pele tão enrugada e marcada que não se podia saber que um dia foi jovem. A mim, sempre pareceu que ela nasceu assim: com a história do mundo desenhada no rosto. Eu nunca tive medo de envelhecer e sei que é, muito, por causa dos meus tios-avôs, que existem fora do tempo.

Se você não cresceu tendo, pelo menos, relances do cedo virando enxada, sem provar o “leite mugido”, sem sentar na varanda pra ouvir história de trancoso, sem tirar uma novena, você, realmente, não pode saber. Pode procurar entender, estudar, até se comover, mas saber, no pulso e no peito, não dá.

Ser nordestino não é mais nem menos, é bom. É bom saber as carpideiras. As bandas de pífano. As quadrilhas. O nascer, incerto. A morte, certeira. As excelências.  


Eu hoje fui ver o Chuva de Balas no País de Mossoró. Sempre me encanta, um musical, ao ar livre, tratando de uma batalha entre moradores da cidade e cangaceiros, bem no justo lugar em que a peleja aconteceu. Sempre me emociona a morte de Jararaca, sempre me empolgo com a chegada de Lampião. E sempre, sempre, sinto-me mais vinculada a quem sou, mais eu, mais no eixo.

[é engraçado - ou talvez a palavra não seja essa - como o espetáculo é - ou parece ser - pra louvar a resistência da cidade e o mais aplaudido é, usualmente, Lampião. Um pouco mais compreensível quando se vê que a "resistência" é liderada por prefeito, padre, exército e coronéis.]

E choveu bala. E Jararaca tombou como valente que era e, até hoje, seu túmulo é dos mais visitados na cidade. E as viúvas cantam as excelências. E eu sinto. Tudo. Até saudade de quem eu não posso ser. Penso em todas as inúmeras escolhas que não fiz e que, assim, não me fizeram. E,aindaassim, nordestina. Lata d'água na cabeça. Terreiro pra varrer. Gonzaga pra dançar. Sereno pra temer gripe. Nordestina.

Então, é por isso que acho fofinho todo mundo que se sabe mais sabendo um lugar, um costume, uma gente. A minha gente sou eu. E eu sou, mesmo quando tão distante me sinto, um muito que é sertão.

domingo, 24 de junho de 2012

O Bom da Vida

Corre e vá dizer pro meu benzinho,
um dizer assim: o amor é azulzinho...

Um daqueles dias em que eu lembro: o bom. As panelas e temperos. O banho de espuma. Os livros, sim, os livros. E as letrinhas que chegam como abraços.

E tem o futebol. Que anda mal das pernas. Que importa? Há as cores. Os sonhos. Os ahhs e uhhs. E os amanhãs prenhes de ontem. Amar é um delírio.

Arrumar a estante. Empilhar a alegria. Nunca consigo terminar, claro. Folheio a memória. Quem eu era quando li isso a primeira vez? E a segunda? E sempre e mais? O que procuro, quando releio? A mim mesma, talvez.

Em dias como hoje, eu entendo que você precisa de espaço. De silêncio. E que você não precisa de mim. Em dias como esse, eu entendo que todo amor acaba, mesmo o que chamamos de amizade.

Pelas persianas, vejo: céu em azul e aquela nuvem, brincalhona, imitando o gato de Alice.

Porque há um abraço que me espera, eu sei, por entre serras, longe do mar. Ficarei sem fôlego, suspeito.

E eu não sei se você lê o Drops da Fal. Devia, viu. É como uma casa de espelhos, daquelas que só vemos em filmes, em que ficamos com nariz enorme e chapéu pequenininho (e só mesmo em filmes se anda de chapéu. Eu queria, mesmo, um daqueles pequenos, com véu, que se coloca inclinado na cabeça. E um outro, de abas enormes, meio Ingrid Bergman, fazendo um viver misterioso). O universo da Fal é fantasia, esse jeito delicado e mágico de dizer: a vida real.


Eu gosto de ler. Mas, suspeito, é só um passo pro que realmente me exalta: reler. Hoje, reli Minúsculos Assassinatos e Alguns Copos de Leite (compre aqui). O que todo mundo sabe: um livro elegante, beleza com senso de humor, onde o riso e a lágrima nem se alternam, mas se sobrepõem. O que eu digo: o livro em que eu reaprendi a respirar. Claro, antes a Fal me tirou a pele e deixou todos os nervos expostos. É um livro cheio de silêncios. De coisas a se adivinhar. As entrelinhas comovem. Gosto especialmente dos bilhetes, cartas, telegramas espalhados no texto. Fico com a sensação que ela abriu minhas gavetas e encontrou o que vivi e o que não, tudo arrumado em um lindo pacote amarrado com fita vermelha desbotada. Papel de carta, lembram? Daqueles bonitos, meio durinhos, quase transparentes e que faziam flop-flop quando nos preparávamos pra ler. Claro, claro, não é do meu tempo. Mas é como se. O livro da Fal é desses que faz o “como se” ser-nos tão íntimo que sentimos sem saber o quê. Isso: ser gente.

E o Manuel fez um post delicioso sobre Sete Noivas para Sete Irmãos. Disse: Donen sabia filmar a felicidade. E me fez ter vontade de aninhar-me no seu ombro e ver, em íntima alegria, Astaire fazendo dançar o cabide e os sonhos, Audrey descendo a escadaria com tanta beleza e promessa, ver Cantando na Chuva e sentir o coração pisotear poças d’água. Eu lembro a primeira vez que vi Sete Noivas...foi em uma madrugada na Globo e não havia espaço suficiente em mim pro que era, na falta de uma palavra mais precisa, bom. Leve, forte, saudável, pleno, bom. Como o dia de hoje.

Já é escuro. Noite. Tem estrela e tudo. Abro a porta da varanda, abro os olhos, abro o peito. Viver é uma coragem. 

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Poente




Já é poente. Minha vida como uma aquarela pueril.



Agora é depois. E ela já não sabe mais espalhar sentimento em forma de letra. Ela já não sabe aquietar o sangue, o pensamento, o anseio. Uma primeira vez. Como se faz isso de esperar? Ela não sabe. Ela erra. Ela teme. Ela quer. Sem ar. Esperando. Ela não lembra palavras. Ela não esquece a voz. Ela não lembra eventos. Ela não esquece sentidos. Pressa. Ela tem pressa. E sabe que não há nenhum rosto no espelho. Nenhuma mão estendida. Nenhuma ponte sobre o abismo. Solta a pipa que voa, solitária, zombando do que foi beleza.



Estou vendo House e pensando que eu não sou menos egoísta.
Meu Wilson, dói saber que eu não fui leal e paciente.
E que ainda espero que você lute.





terça-feira, 19 de junho de 2012

Final de Temporada



Status: brincando de tiro ao alvo com meus sonhos.

Então é assim: morrer um pouco.

Eu não sabia que doía. Não sabia o vento correndo no oco do peito e assoviando vazios.

E eu não tenho nenhum lenço branco pra acenar na estação.

Era uma vez. E não mais. O tempo zomba da minha imaginação. Eu pensei que. Mas não, nenhum peito, nenhum pouso, nenhum porto.

Eu não estou chorando, é só o amor se tornando água e sal. Saindo de mim.

Não há amanhãs pra quem está presa deste lado do espelho.

Qual a borracha adequada pra apagar da memória as letras azuis?

Um dia Zenóbia acordou sem olhos. Não havia mais futuros para ver.

Todos os dias como uma prece: não querer. Destemida, percorro os dias tão cheios de você. Como uma pontada: você nunca esteve aqui. Todos os dias, como uma prece: não pensar. Escrevo uma bula com meu método secreto para voltar a sorrir: o luto. Pra esquecer, procurar lembrar-se. Porque há um dia em que você não se lembra de lembrar. Só aí você esqueceu. 


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