domingo, 17 de junho de 2012

Membro Fantasma


Eu ainda espero tua voz. Uma palavra qualquer que faça seguir a conversa interrompida. Ainda trago entre os braços o vazio do teu abraço. Ainda arde uma vontade de saber. Há sempre uma pergunta a mais. E aquela sensação de ser tão inadequada. De querer tanto acertar e tropeçar em batentes, esbarrar nos cristais, derrubar os quereres delicadamente construídos. Afasto a cortina e espio os futuros: nunca, nunca, nunca mais, zomba o vento que assovia nas esquinas e corredores. Chorar não é uma opção, engulo todo o sal e deixo a saudades esculpir meu rosto. A amizade é o amor mais difícil de esquecer.


Alguém quer destruir o mundo. Surge um monte de mocinhos, todos indisciplinados, ativos, valentes e indestrutíveis. Eles brigam entre si até que a ameaça se torna próxima e mata um coleguinha da tangente da turma. Aí eles se invocam, unem-se e zás, resolvem tudo. Entre uma coisa e outra umas piadas fáceis, cenas de ação e belas explosões. Você já viu isso? Eu também. O que não significa que eu não me diverti vendo Os Vingadores.

Quando aquele longo relacionamento acabou, por uns dias chorei pelo amor que se foi. Mas, quase sempre, o que doeu foi perder a relação, não a pessoa. Por uma porção de tempo, quando as memórias do querer bem já me vinham em P&B, a falta do quentinho do lado da cama, de ter pra quem telefonar quando via um passarinho na janela ou com quem combinar o fim de semana, essa ausência ainda era muito nítida. Foram dez anos. E as pessoas que morrem levando com elas um relacionamento de 35 anos? Uma amizade de 50 anos? Ou 60 anos de vida em comum e passeios de mãos dadas? Eu sei que a vida segue. Mas suspeito que a vida que segue deixa-nos com um membro fantasma que coça quando menos se espera.

Eu adivinho o moço bonito, de mão no queixo, em verdes esperas. Quase escuto seus silêncios. E digo, o querer inquieto: estou chegando.

 Rio lembrando de um livrinho em que havia filósofos gregos, mão no queixo, José Wilker e serras querendo virar mar (quem não leu Ana e Pedro?).

domingo, 10 de junho de 2012

Outro Lugar

Eu queria um montão de abraços.
Um milhão de amigos.
Uma passagem aérea.
Um intervalo.
Um lenço pra alma.
Eu queria encontrar as palavras.
As pessoas.
O rumo.
Eu queria acertar as coisas.
O passo.
Eu queria mudar o tempo verbal.
Presente.
Eu quero.
Outra vez. Mais uma vez.
E não.
Oco.
Portugal? Tão longe – você disse.
Eu disse: eu te amo.
E aquele beijo, que será sempre sabor na lembrança.
Eu queria um montão de abraços.
Ou um só: seu.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Ao Vento


Talvez alguém tenha reparado que estou mais calada... é que estou ali, mudando o mundo. Por uns dez dias, sou a delegada da minha seção sindical no Comando Nacional de Greve.

Preciso aprender a arrumar mala, dez dias de viagem e trouxe 08 livros. Dos grandes. E comprei outro... mas não tive culpa, putz, tem uma Saraiva na esquina e o Umberto Eco ficou me paquerando que nem as duas almas no portão do cemitério...

Às vezes acho que a minha coragem, a minha alegria, as minhas virtuais virtudes são como o comportamento heróico de Stoddard: em algum lugar tem um Tom Doniphon me sustentando (não entendeu? Pergunte-me porquê)

Sabem uma coisinha que sempre me dá vontade de rir? O lance “seja você mesma”. Olha, quando eu crescer, eu não quero que meu apartamento seja a minha cara. Eu quero que meu apartamento seja a cara do Lemuel.

Cheguei em Brasília e já tive a mais linda recepção: Lia e Caê me esperando no aeroporto. Depois, foi mais alegria: Bete Davis Eyes, Pri, Dandi, Camilla Diva Magalhães, Fabiano Master Plus Fofo Camillo, Carol delícia. Ganhei uma casa só pra mim, sou rycah! Não satisfeita em me agradar assim, Lia se mudou comigo pra um apartamento quase vizinho ao meu local de trabalho em Brasília. Conversa boa. Gente linda. Existe amor em Brasília, viu.

Ela, que nada sabia de relógios, agora marca o desejo em minúcias. E se as mãos se entrelaçassem, ela se pergunta e ruboriza de saber, assim, íntima, a felicidade. Em sonhos percorre serras, montanhas e dorme em um peito que é mar, com peixes a seu redor.

Confesso, em luas como essa, sinto falta que alguém me escreva em guardanapos: eu preciso é te provar que ainda sou o mesmo menino, que não dorme a planejar travessuras e fez do som da tua risada um hino...

Sempre estrangeira: sou à esquerda demais, revolucionária de menos, mais baderneira do que deveria, menos dura do que deveria, gentil demais, criteriosa de menos, muito incomodada, pouco preocupada, apressada demais, planejo rápido... Meu lugar é outro.

"Você não entende! Eu poderia ter classe! Eu poderia ser um lutador. Eu poderia ter sido alguém, ao invés de um vagabundo, que é o que eu sou."

domingo, 3 de junho de 2012

Se a Canoa...


De novo? Pois, é, de novo. Já tentei e tentei (aqui e aqui, por exemplo), explicar o que me acontece em Canoa, mas sempre parece pouco. È muito esquisito se sentir totalmente em casa em um lugar que é totalmente diferente de você? Pois é. Subindo e descendo a Broadway e reparando: forró eletrônico, tecnogbrega, dance, tecno, reggae, funk e eu me sentindo feliz com cada um e com a mistureba louca que acaba acontecendo em alguns espaços. E as pessoas? Nada de espelho. Roupas, cabelos, relações, comportamentos, tudo tão outro. E, ainda assim, tudo tão meu, tudo tão eu. Sinto o vento brincando com meu vestido e tenho vontade de rodopiar. Aquela escada maluca, o pastel de arraia, o mar invadindo as barracas e lambendo os meus pés. O céu, azul, azul, azul. O mar, ah, o mar. Maresia me entontecendo, alegrando, provocando, incitando. Sugerindo.

Viver Canoa é ser uma eu mais feliz, tolerante e livre.

PS. Tem, de novo, Bar do Meio. Com programação musical alterada, mas quem se importa? Foi lá um tanto de felicidade.
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