quinta-feira, 10 de maio de 2012

Das Provocações

Eu sei que é agressivo, mau educado, machista e antigo. Mas, olha, eu achava tão bonitinho aquele negócio de cospe-aqui-se-tu-for-homem. Porque, sei lá, é tão ingênuo e cinematográfico ter a crença infantil que é possível saber com certeza alguma coisa. E ainda mais inocente achar que se vai acertar o cuspe, claro.

Cospe aqui
E já que eu estou controversa, eu queria dizer: nós não temos nada a aprender com os animais. Não no que se refere à cultura, à sociedade e à nossa humanidade. É, mal guardadas as proporções, estudar a anatomia e a fisiologia de um coração pra tentar entender o amor de que falam os poetas. Não me importa como eles comem, fazem sexo, dividem tarefas. Não há nada de natural na biologia humana, quanto mais no resto do nosso cotidiano. Eu não entendo (ou entendo muito bem) os discursos que ainda insistem na busca de simetria comportamental. Somos seres de cultura. Ponto. Cansa um pouco essa conversa: ah, mas isso é cultural! Alô, baby, o ser humano é uma invenção dele mesmo. Somos em linguagem e não há como escapar do que nos falta. Mas insistimos na busca da resposta certa, da tampa da panela que apazigue a dúvida: se não pode ser a religião, nem o superhomem, que seja a ciência, não é? Que venha a resposta completa, a explicação absoluta, cada coisa no seu canto: assim porque assado. Eu não, violão. Não é ser melhor. É ser diferente. É, assim, parar tudo pra ver o Neymar jogar futebol. Tendeu?

Coisas que eu queria exatamente agora:
Pipoca doce
Massagem no pescoço
Colo da minha mãe
Livro novo
Madadayo
Prato de torresmo
Beijo no pé
Banho de mar
Dormir de conchinha
Aquele abraço

Percorrer-te
Eu nem sei o que ainda tenho a dizer. Mas o certo é que ainda preciso. Suas ruas estreitas. O cheiro de café e cigarro. O olhar arguto. As explicações tão detalhadas. É mais que amor, não é, não saber ficar sem você?

terça-feira, 8 de maio de 2012

Sei Que Não Vou Por Aí


Eu escolho meus amigos do Facebook. Seleciono quem vou seguir no twitter. Só vou – por opção – a ambientes que considero acolhedores. Tenho um grupo de amigos maravilhoso. Sempre fui criteriosa com quem partilho meu riso no trabalho, na rua, na universidade...eu construo meu mundo de várias formas e, uma delas, é estando com pessoas que me fazem bem. Não faço de conta que os problemas não existem, não fecho meus olhos para as tensões sociais, não ignoro as opiniões que considero toscas, inconsistentes ou limitadas. Apenas escolho não ter que lidar com elas mais do que o necessário. Não vou ler Reinaldo Azevedo, por exemplo. Porque? Pra que? Não acrescenta e me ofende. Me faz mal E me faz má. E eu detesto não ser o melhor possível. Eu não sou boa, já disse antes. Mas isso não me faz má, me faz humana. Limitada. Imperfeita. Mas há ambientes, textos, discursos me fazem má, mesmo. E eu detesto. Detesto me sentir mesquinha, intolerante, irascível. Cruel. E é o que sou quando leio certas coisas. 

Por exemplo? Eu vivo em um mundo onde se divide, de forma machista, as mulheres entre vadias e santas. Biscates X mulheres pra casar. Não ignoro isso. Tô na rua, com meu decote grande e minhas ideias barulhentas. Escrevo num blog chamado Biscate Social Club. Mas não vou conversar sobre isso como se fosse um tema passível de dúvida. Não é matéria aceitável na minha mesa de bar. Na minha casa. No meu coração. Não é pauta. Não tem um se. Dividiu o mundo assim, amigo? Tá fora. Pega seu boné. Ou melhor: eu estou fora. Não sei se me explico bem, como cantava a Maysa, é que não dá pra ser feliz, como dizia o guerreiro Gonzaguinha. E os instantes de felicidade são preciosos pra mim. Já tem muita angústia, dor, desassossego sem que eu procure mais. Porque, olha, dói. Não é figura de linguagem, não é drama (e sim, eu sei, sou dramaqueen), não é recurso estilístico: dói. Dói em mim, fisicamente, ver pessoas tão à vontade para pautar o desejo alheio. Tão levres para julgar a vivência alheia. Me dói ver tanta gente com o carimbo na mão, disposta a usá-lo...e rápido. Tanta gente que tem tanta certeza do que é certo não só pra si e sim pra todos. Dói perceber tanta gente indiferente à dor e delícia de cada um de nós ser o que é. Dói, de chorar sabe? De precisar ir pra varanda respirar devagar, devagar, pra não aposentar o sonho. Dói.

Então, eu guardo o brilho no olho com muito carinho. Protejo o riso. Alimento o calor no peito, a vontade de dar as mãos, a fé no homem, fé na vida, fé no que virá...

Então eu prefiro manter os balões e os sonhos coloridos. Escolho a generosidade e a tolerância. Não escolho pros outros, escolho pra mim. Escolho não me ofender e não ofender alguém. Não ser cínica, sarcástica, cruel. Escolho ter palavras boas, abraço bom. 

E aí agora há pouco eu vi um filme divertidíssimo chamado Wedding Fever In Campobello. Em certo momento um dos personagens diz: sabe a diferença entre os alemães e os italianos? É que os alemães procuram problemas e os italianos já tem problemas. E completa: como já temos problemas, não precisamos mais procurar e já podemos ir pra praia. Eu estou nesse time, sabe. Já tenho um montão deles, não estou precisando de mais e vou partindo pra praia. Porque, como cantava a bethania: aqui faz muito calor, no Nordeste faz calor também, mas lá tem brisa. Viver de brisa é melhor, #ficadica.


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Mãe de Cesárea

Meu filho não está morando comigo. Está morando com o pai: outra cidade. Quase todo o tempo, sinto que isso foi uma boa decisão. Uma parte, ainda maior, do tempo, sei que foi uma boa decisão - e só não digo: “todo o tempo sei que foi uma boa decisão", porque sempre considerei salutar manter uma ou duas portas abertas à dúvida. Lá ele tem uma vida mais estruturada, colégio melhor, mais opções de lazer e muito mais família e amigos amorosos por perto. É uma rotina melhor.

Vou aprendendo algumas coisas: um jeito cotidiano de sentir saudades, mais especialmente. E outras. Por exemplo, a respeitar aqueles pais que se costuma condenar: os que compensam presença e afeto com dinheiro e presentes. São uns incompreendidos, garanto. De forma geral, se diz: displicentes. Eu tentava ser mais profunda e dizia: culpa. Hoje, sei: também é culpa. Uma grande parte. Mas é, também, uma complexa trama de impossibilidades, dificuldades materiais de deslocamento, compromissos, obrigações, vontade de agradar e incerteza quanto à realidade concreta. É diferente ver cotidianamente o tênis com o qual o garoto vai a escola e supor que ele precisa de um novo. É diferente abrir o guarda-roupa ou tirar a roupa da máquina e imaginar se ele tem uma blusa adequada pra comemorar o aniversário. A distância faz miragens.



Então, essa sou eu, sem poder ir à festa de 15 anos do meu filho e comprando coisas pra estar lá. Eu estava no tênis novo, na blusa nova, na mesa de chocolates. Estava, também, eu sei, de outras formas e na lembrança dele e de um monte de gente legal. Mas, olha, não é a mesma coisa. Dava uma dorzinha fina receber, no celular, fotos do bolo, das mesas arrumadas, do jogo de luz, das pessoas se divertindo. Não foi uma festança, foi uma celebração divertida do viver. E isso é mais complicado de lidar. Saber que se morássemos juntos seria muito, muito mais difícil isso acontecer em um momento que eu não pudesse estar.

O certo é que a festa foi e eu a saberei sempre e apenas em relatos e imagens às quais tento dar um sentido e narrativa. Depois tivemos um almoço, feliz e festivo, com a família. Com bolo, parabéns e brincadeira de valsa. Não compensa, claro. Não a ele, a mim. A ele, se perguntarem e eu perguntei, fiz falta na noite de sexta, mas não a ponto de incomodar de verdade, porque ele sabia que eu iria me fazer presente no almoço, um dia depois. Acho bonito que ele sinta isso e, mais ainda, se sinta capaz e à vontade para enunciar isso. 


Quase sempre ainda é assim: um não-saber ser mãe. O menino, a curuminha, escrevi eu, em post antigo. Podia ser, quase sei agora: Uma aprendizagem. 

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Pensando Nisso

Privilégios

Hoje estou cansada. Muito cansada. E é quando chego em casa de um dia, de uma semana, de um mês inteiro de intensa atividade e muita preocupação e ainda cheia de coisas para fazer, que mais percebo o tamanho dos meus privilégios. Porque tenho casa, óbvio. Porque pude passar no supermercado e comprar queijo, salame e quinquilharias afins pra não ter que cozinhar. Porque chego, abro uma cerveja, ligo o som, encho a banheira e fico lá, meia hora adiando tudo que ainda falta realizar. Porque posso, inclusive isso: procrastinar um tiquinho. Porque posso reclamar. Porque tenho colos que acolhem meu cansaço. Porque saio da banheira, pego outra cerveja, belisco os petiscos e fico vendo a tv, muda, em imagens de jogos passados. Futebol é relaxante, sabia? Porque tenho esse blog que recebe as letras que eu me fizer. Porque posso planejar dias de menos cansaço sem sabor de impossível. Porque posso escrever e-mails pensando em juntar Minas e França bem ali, em Canoa Quebrada. Porque hoje venta gostoso, na varanda. Ah, pois é, tenho casa com varanda. Sou privilegiada. Tudo isso ser resultado de estudo, trabalho e empenho não muda o fato de que eu pude ter estas coisas todas em uma sociedade que muita gente não pode. Mais ainda, suspeito que posso ter e fazer isso tudo porque tanta gente não pode. Não se trata de culpa, mas de reconhecimento. Tenho privilégios e, olha, hoje eu usei e apreciei cada um deles. Me julguem.



Das Discussões 

Eu não sei de nada. Exagero meu, claro. Sei de alguma coisa. Pouca coisa. Pouquinha mesmo. Quase nada. E as que sei chegam-me muito mais vezes em forma de pergunta que no jeito de resposta.


Sempre me fascinou a acentuada convicção com que algumas pessoas carregam e acenam suas bandeiras. As certezas absolutas. A completa negação da inquietação. As concepções definitivas. A irrestrita falta de espaço para a dúvida. Estão certas, sabem o que é melhor, o que é verdadeiro, o que é necessário e não se furtam a dizer, letra a letra, tudo isso: a quem se interessa ou não.


Fica tudo melhor (só que ao contrário) porque geralmente as ideias defendidas com tanto vigor costumam vir apresentadas em uma lógica estropiada, carregada de moralismo e aquela argumentação super válida (só que não): aconteceu comigo, acontece assim com todo mundo. Não há nem um espacinho pra compreensão de que um exemplo pessoal é isso: um exemplo, uma narrativa simbolicamente individualizada e não uma cartilha.


Todo dia – e cada dia mais – eu vou sabendo (essa é daquelas lá de cima, das pouquinhas) todo meu des-saber sobre mim, sobre o mundo e, com nitidez, sobre o Outro. Perguntar parece, cada dia mais, necessário. Não supor, não prever, não prescrever e, especialmente, não julgar. As razões, os motivos, os desejos são do Outro e do seu próprio des-saber. Por isso, aferro-me ao mundo de gentilezas. De generoso olhar. De tolerância. De indagações mais do que de afirmações. Não parece bom? A mim, sim.


Tua 

Não dormir. Deixar a porta aberta pras estrelas entrarem e tecerem firmamentos no meu desejo. Fazer-me imagem. Chegar a seus olhos e suspiros. Criar palavras que brincam de laço. Não pensar. Querer. Deitar no cantinho da cama planejando partilhas. Ser boba. Rir. Entregar os pontos. Em confissões: ficar na tua mão.


Parabéns, Teresa! 

E hoje já é amanhã em Portugal e já se canta o parabéns pra minha querida Teresa Font. Eu nunca soube (mais uma das coisas todas que desconheço) como as amizades me surgem. Às vezes brinco de pensar que já estavam em mim e a vida só tratou de me relembrar. Como boa materialista, desconfio da minha própria idéia. Pior, eu rio dela. Sei das concretudes. E, no entanto, há os que chegam dispensando os salamaleques e pegando lugar VIP, com vista pro mar e serviço de bordo. Vou logo querendo bem. Minha amiga Teresa foi assim: mal a li, já dizia, amiga. Um gostar que chegou quase antes dos motivos. Chamego. O que importa é a alegria de uma cumplicidade que se adivinha. Pouco importa que ainda não exista um abraço. Virá. Posso esperar o café, a risada cúmplice, as impressões do dia a dia. Posso esperar a ligação no meio da tarde e o passeio no fim do mês. Escrevi uma vez: Não tenho amizades virtuais. Todos os meus afetos são reais, apenas os braços necessários ao aconchego são de outra matéria que não carne e sangue, são abraços de encanto. É exatamente assim, a vontade de sabê-la por perto. Perto o bastante pra dizer que a festa do seu aniversário é, também, celebração minha. Pertinho o suficiente pra sussurrar votos de um dia, um ano, uma vida, de risos, prazeres, letras, surpresas, encontros, afetos, sabores e sonhos. Uma vida, um ano, um dia especial. Perto que dê pra dizer da minha admiração, carinho, preocupação e ternura. Perto. Amiga, Feliz Aniversário!


quarta-feira, 2 de maio de 2012

Coisas Inúteis e Belas


Tem um filme maravilhoso – do Frears – chamado Coisas Belas e Sujas. Um filme pesado, daqueles que nos arrastam da zona de conforto. Tramas que se encaixam, personagens bem construídos, temas adultos e necessários. Um filme triste. Com diálogos amargos e que apontam, com clareza, o fim do túnel. Um filme de desesperança. De fim de estrada. É? Só que é lindo. Daquelas belezas que arrebatam, fazem ninho no peito e marca nos olhos. Beleza daquelas que, de tão intensas, pra nada servem. E é dessa incrível e absoluta falta de razão pra existir, a inutilidade da beleza, que ela me parece redentora. Gosto especialmente das coisas inúteis. Como um poema. Os arabescos que a espuma do mar desenha na areia antes de nela sumir. O cheiro da cabeça de um bebê. O tempo passado olhando o negro em uma reprodução de um quadro de Caravaggio. Ficar ali, balançando a cabeça e ouvindo uma sonata de Chopin. As formas das nuvens em dia de sol intenso. Um bom diálogo em um filme. São coisas que, ocasionalmente, podem fazer pensar, podem causar ações, podem, podem, podem...mas não existem pra isso. A bem da verdade, existem pra nada a não ser a fruição. É claro que afirmar que a beleza é inútil não é dizer que não se possa dar-lhe sentido ou perspectiva. Pode-se. Deve-se. O que não se consegue é dar-lhe limite. Ou razão.

É inútil querer-te. É belo. Quero. Ainda mais em Sinatras rodando na vitrola perdida no tempo. Em noites com lua cheia. Em sorrisos. Em camas na varanda.


Espetacularmente Inútil



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