sexta-feira, 13 de abril de 2012

Viuvinha*

Simples


E se for mesmo simples? Um dia, um lugar, uma vez? Uma esquina? E se for mesmo simples, um querer e a rima? E se for mesmo simples? Sem dor, sem medo, sem esperas? E se for mesmo simples, as letras azuis construindo estradas e abraços?

E se for mesmo simples, eu, você e o tempo espiando a gente aprender o prazer? E se for mesmo simples, eu vou, você vem, as estradas se fazem quarto para um tempo sem amanhãs. E se for mesmo simples, café forte, música na vitrola e olhos se fazendo poços?

E se for mesmo simples, a pele arisca, os desejos inquietos, as saudades antecipadas? E se for mesmo simples, gentileza, malícia e aquela vontade de não dormir nunca mais? E se for mesmo simples: todos os verbos no presente, todas as perguntas no pretérito, todas as vontades no gerúndio?

E se for mesmo simples, beijos curiosos, mãos pacientes e horas fora do calendário? E se for mesmo simples, sem memória, sem história, sem álbum de fotografias? E se for mesmo simples, um pouco sem razão, um tanto sem esperança, o reconhecimento tranquilo do outro.

E se for mesmo simples: coragem?

Eu tenho confusos planos de me perder em você. Nada de hora seguinte, nenhuma informação de trajeto, só a seta, certeira, no mapa: aqui. Em qual esquina de mim mesma te espero?

Era Vidro...



Não é você, sou eu. A mais odiosa das frases porque tão verdadeira. Aparentemente fácil, revela o que tantas vezes nem sabemos: não é você que não é capaz de me completar mas eu que sou incapaz de ser completa e, não reconhecendo isso, permaneço buscando. Não há nada que você possa fazer, dizer, sentir que possa me fazer sentir, dizer e fazer algo além disso: reconhecer em outro lugar o aparente que anseio. Pode ser um jeito de inclinar a cabeça. Uma frase inteligente. Um riso límpido. Um pulso largo. Uma mão grande. Um jeito de me abordar. Em qualquer outro lugar sempre parece estar, tão longe daqui onde eu sinto, queimando, o vazio. Um buraco negro, é o que eu sou. Não é que eu me engane, não é que eu os engane. É sempre amor. Desse que faz a alma em festa e o corpo em desalinho, sem pedir licença. É sempre um amor, aquele brilho para além de onde estou, esta certeza absoluta de: "agora sim" e, um pouco mais adiante, a desolação de: "ainda não". Sou eu que não sei fazer borda ao meu gozo, sou eu que ainda o suponho possível, sou eu que em tantos corpos pareço adivinhar o encontro que não há. 

E foi assim que ele chegou. O primeiro. E eu o magooei porque não sabia da minha voracidade. E magooei ainda o próximo. E o outro. Sempre que parecia sim, o mundo me acenava com uma possibilidade de ser outro, de estar em outro lugar. E eu segui como na quadrilha de Drummond mas com variações: eu é que, amando todos, não amava ninguém. E eu descobri: quem imagina os começos deve saber escrever os fins. Que não haja bondade, nem pureza, nem sabedoria em mim, isto é o de se esperar em quem segue correndo atrás de um novo pássaro** mesmo já havendo música. Mas que haja a letra certa, é o que me resta. Para que o amor que era vidro e se quebrou*** não corte ninguém mais do que o necessário pra nos sabermos vivos.


 * Viuvinha da mata da lena, ela quer se casar, mas não acha com quem...não é com você, não é com ninguém, é com a pessoa que eu quero mais bem.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Vem Cá, Luiza 02

Como eu sempre digo, visitas são bem vindas, acarinhadas e convidadas a voltar. A Luiza voltou. Quem não lembra, ela já esteve aqui contando um pouco do seu sentir no texto Desassossego/Flerte?? lá pelo meio de fevereiro. Teve gente que ficou curiosa sobre o desenrolar (eu mesma, por exemplo). Daí que a Luiza veio nos atualizar. 


Urgência, por Luiza

Não sei o que houve, mas ele está mais atirado, mais descarado, correndo mais riscos. Será que leu meu texto? Será que entendeu que falava dele, de nós? Às vezes tenho quase certeza que ele sabe da minha identidade secreta e, sim, estamos flertando. Não tenho mais dúvidas.

Continuamos não falando a respeito, exceto por alguns pequenos deslizes não desenvolvidos propositalmente que rendem muitas risadas. Gosto desse jeito. Mas, confesso, adoraria que me surpreendesse e fosse direto. Acho que perderia o chão... Ele acha que sou movida por paixão, não faz ideia do quanto. Meu único senão é que estamos longe e confessar desejos assim pode ter efeito contrário.

Tem dias que me oferece colo e me derreto. Nossas conversas começaram assim, ele me percebendo nas entrelinhas e querendo saber mais de mim, se colocando a disposição para desabafos, se fazendo perto. Sempre atento à  reações e dizeres, aprendeu a ler-me. Em poucos meses de conversas mais íntimas me sabe toda. Me perderia em seus braços desde o primeiro segundo, sem freios ou pudores... Alguém que sabe tanto da minha alma saberá também do meu corpo. 

Não tenho expectativas maiores sobre futuro ou relacionamento. Só quero estar com ele, sabê-lo em profundidade. Quero saber suas risadas ao pé do ouvido, quero seus sentidos nos meus, seu coração e respiração cadenciados em mim. Queria um final da tarde só nosso para umas cervejas e sentar pertinho, olhar nos olhos finalmente, sentir o cheiro, o toque da mão, o joelho esbarrando por engano... 

Como se não tivesse nada mais importante na vida para fazer, só penso em encontrá-lo. Continuo não sabendo como ou para que o desejo, só quero. Quero muito. E a urgência que não existia agora toma conta. 

terça-feira, 10 de abril de 2012

Das Dores e Alguma Alegria

 Doendo




Tinha um lugar. Eu visitava sempre que podia. Alheio, mas de tanto lá estar, tornou- se um pouco meu. E, assim, um pouco eu. Descobri, hoje, que já não existe. Apagaram. Sumiu. Tudo, tudo. Fiquei sem chão. Sem ar. Doeu. Apagaram-me junto, sabe. Um tanto de mim que lá estava, em letras e linhas, já não existe. E eu gostava daquela Luciana. Gostava muito. Ela era um pouco mais espirituosa, sagaz e esperançosa do que a que costumo encontrar no espelho.  Eu costumava ter saudades dela e ir espiá-la. Fazer visitas, sei lá. Re-conhecer-me. Agora, já não posso. Ela/eu torno-me esgarça memória e, breve, serei vaga lembrança. Perdi-me. E isso nem é o que mais dói. Perdi as companhias. Os diálogos. Perdi mais um pouco de você, que se levou para tão longe, onde o dito não parece alcançar.


Vou sentindo as faltas. Morrer é assim?

Possível


Tenho que confessar, nesse feriado fui ao cinema e vi Fúria de Titãs 2. Gente, o filme é muito ruim. Não, estou sendo generosa, é péssimo. Bom, tem o Ralph Fiennes e o Liam Nesson, por isso dá pra ver sem tentar se matar. Vi em 3D o que mais uma vez me fez pensar: quem #%&*/@ inventou essa besteira? Nenhuma contribuição estética ou narrativa, só uma monte de pedras voando em nossa direção. Enfim. Depois da galhofa necessária, fiquei pensativa. Sim, sempre se pode tentar dar sentido ao sofrimento. Daí pensei que o filme não é de todo perdido. Ele faz uma bela síntese – ou eu assim quis entender – da transição de um mundo com deuses para um mundo sem eles. Os deuses, as divindades, as crenças, de uma forma ou de outra, organizam estética e eticamente as relações sociais. O certo e o errado, o bem e o mal, a noite e o dia. Tudo repartidinho e esclarecido. Sem a organização, o caos. E, olha, o caos não é um negócio bonito de se ver, menos ainda de se viver. Tudo poder é a barbárie e eu não estou dizendo isso no bom sentido. Mas, e daí? Agarrar-se a um modelo falido que aliena, discrimina e exclui porque sem ele não se chupa um chicabom, como diria o Nelson? Não, abram alas e soem as trombetas, diz o filme – e eu com ele – ou digo eu e finjo que é o filme: há uma ética a ser construída não a partir de referências externas mas decorrente da reflexão do homem e de suas limitações. Nossa fraqueza é nossa força. É o homem que pode dizer: opa, senhor caos, dê o pira que nós temos mais o que fazer. Pescar, por exemplo. E admitir: é um pesado fardo garantir isso, mais fácil esquivar-se e responsabilizar os deuses. Pesado mas necessário. E, olha, rende filmes melhores.


Quando o Dia tem Cheiro de Festa




Há pessoas que já chegam cantando "ô, abre alas que eu quero passar" e vão se instalando no banco da frente, na área VIP, no quarto com vista por mar. Tem gente que chega discreta, pega a cadeira vaga, brinca na pipoca e, lentamente, a gente vai tendo vontade de trazer pro centro da roda e aplaudir o samba. Hoje é aniversário da Anne. Eu juro que tentei lembrar quando ela se tornou tão importante e constante na minha vida e não sei narrar. Sei, claro, que foi depois do Blogueiras Feministas existir, sei que se aprofundou de alguma forma no Feministas na Cozinha, mas isso tudo não explica o imenso afeto que sinto aqui no peito e a vontade de passar tempos e tempos assim, ao seu lado, rindo, que nem na foto aí em cima. A Anne sabe cuidar, eu preciso contar isso pra vocês. Mas não só. Sabe rir junto, festejar, pensar, sentir o que incomoda, perguntar, apoiar. Ela é linda. Tem luz e calor. Hoje é aniversário da Anne e eu só queria estar pertinho pra abraçar e dizer uma centena de vezes: parabéns por você ser assim, disponível. Pra os outros, pra si mesma. Disponível pra aprender, pra amar, pra ser em relação. 


Feliz Aniversário, querida. Que seus desejos se tornem matéria e narrativa. Que haja doces surpresas. Que haja gente e carinho. Que seja em alegrias. Que seja esse dia, mas não só. Voc~e sabe, não sabe, o tanto que te quero bem?

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Da Cintura...



Diz a Jufinaflor que gosta dos posts em que entrevê minha rotina e, assim, um pouquinho mais de  mim (nhoim, sua linda). Assim, esse post é pra ela.

Tem umas coisas esquisitas na minha casa. Por exemplo? tenho uma cama de casal, mas é no quarto de visitas. No meu quarto, colchão no chão.

Hoje resolvi me mimar: foi sushi e banheira.

Preciso comprar um anel novo para o gás.

Tenho ímãs na geladeira. Sou dessas.

Já contei aqui que trabalho não me define, que não está na lista das 15 coisas mais importantes da minha vida, nem mesmo se eu juntar família num balaio só, assim como amigos, livros e outras coisas assim? Pois é. Trabalho não é central na definição de quem sou nem é fundamental pra minha alegria. Se eu ganhasse na mega sena, por exemplo, garanto que não trabalharia mais e não sentiria falta. Mas. Sim, tem um mas. Mesmo com essa convicção de que eu sou mais eu sem trabalhar, gosto muito do que faço. Ser professora universitária em uma Universidade Federal em crescimento é muito, muito bom. A flexibilidade de horário, a possibilidade de abrir novos rumos de pesquisa, a disponibilidade para a extensão, tudo isso me dá prazer. Mas o que gosto mesmo e mais é da sala de aula. Eu nunca planejei ser professora. Desde bem nova suspeitava que o sistema educacional, se não estava falido, estava bem perto. E, ainda assim. Vocês não podem imaginar como é quando um aluno faz uma pergunta absolutamente pertinente. Que alegria! Quando trazem um olhar novo sobre uma questão, quando dão saltos teóricos, quando relacionam conceitos, quando dão um exemplo adequando, quando brilha um olho...ah, gente, eu adoro. É uma delícia aula com turma pequena, disciplina eletiva, deixar os interesses construírem as abordagens e produzirem conhecimento. Eu tenho apreciado este semestre, muito. Mesmo cansativo, uma disciplina a mais, o projeto de extensão e ainda esse lance da vara criminal, nada tira o prazer de preparar uma aula pensando no que pode agradar, de interagir com os alunos, de ler os trabalhos, de espiar pra onde vagam os pensamentos.


Da Cintura Pra Baixo



Essa sou eu, adiando o post sobre a viagem. O certo é que cheguei. Estou em casa, embora às vezes uma estrada qualquer, sem saber direito onde estou e onde é o norte, muitas vezes me pareça mais eu mesma que qualquer lugar onde desfaço a mala. Mas, enfim. Cheguei.

Antes? Foi assim: surreal. Se duvidam, é só pensar, quem já comprou um vôo que não existe? Isso aí: dia inteiro no Galeão, sozinha, vendo o tempo passar, porque a banda já tinha ido pra beira-mar curtir sol faz tempo. Eu, serelepe e faceira, pensando que ia embarcar imediatamente, logo fiquei sabendo: chá de cadeira. Chama o Kafka. Além disso, duas unhas quebradas. Não, não é vaidade. Doeu pra caramba. Sabe quando rasga a unha até a pele? Foi assim. Mas tive boa companhia. Amigo virtual pegou na mão e ficou. Amei.

Antes do antes? A alegria. Os encontros. Tem um ditado francês assim: “a gratidão é o coração da memória”. Meu mapa de viagem é feito de abraços e sorrisos. Meu percurso é em pessoas. Foi uma linda viagem. Generosos olhos, braços e palavras me acolheram. Obrigada.

Não sei como agradecer – e ainda bem que ele me adivinha – toda a cumplicidade, colchão partilhado, comidinhas e chamegos que o Lemuel me oferece. A absoluta convicção de amar é assim, eu sei.

Um obrigada em risos e afeto pela forma suave e decidida que a linda Bárbara euteamoparacaraleo Lopes tem de se fazer presente. Sampa é esse lugar de encanto porque ela está lá.

O obrigada da certeza: ter a Iara mais perto, mais tempo, foi como eu pensava. Não, foi melhor. Aquela amiga que a gente conta tudo menos por querer dizer e mais para ouvir depois.

Gratidão pelo calor no peito e riso n’alma que a amizade da Renata Lima me causa. São muitos os quilômetros que percorremos para um abraço, mas vale cada um, bem sei.

A ternura imensa de saber a Cláudia Gavenas, essa mulher-menina com olhos desbravadores e coração de leoa: forte, intenso, belo.

Tenho muito a agradecer: a beleza de saber o noivo-ogro Gilson, os sorrisos feministas na pizza da Marília, a companhia empolgada e empolgante da Barbara Manoela no show do Chico, as novidades cúmplices do Paulo, a gentileza do Fernando, até o desencontro gentil com meu querido Mario.

De Sampa a Curitiba onde fui me instalar de mala, cuia e riso no cantinho do Anderson. Esse amigo que se fez de distâncias e mudanças e que sabe fazer meu sono mais manso. Nessa cidade de frios, os mais lindos cuidados. A constância da Anne, o calor da Xênia, a cumplicidade da Thayz. As surpresas: a Caminhante em presença muito mais doce do que eu supunha, a Tina excepcionalmente delicada, tão envolvente e leve, a rápida e querida Cris, o companheiríssimo Anderson Galdino. Preciso dizer: um querido. E que, agora, é oficialmente meu fornecedor. Se rolar uma crise de abstinência, já sabem a quem culpar.

E, último pouso, Floripa. No calor daquela família de filme de Capra com direito a crianças lindas, espertas e amorosas. Com noite nordestina, barzinho em casarão histórico e um passeio por pertinho da água que fez batucada no peito. E conversê, segredinhos, planos, letras, muitas letras.

Meu peito cigano se expande em risos. Já tem vontade de partir outra vez. Fazer, da estrada, casa.



Minha estrada, meu caminho, me responda de repente
Se eu aqui não vou sozinho, quem vai lá na minha frente?
Tanta gente, tão ligeira, que eu até perdi a conta
Mas lhe afirmo, violeiro, fora a dor que a dor não conta
Fora a morte quando encontra, vai na frente um povo inteiro
Sou uma estrada procurando só levar o povo pra cidade só
Se meu destino é ter um rumo só, choro em meu pranto é pau, é pedra, é pó
Se esse rumo assim foi feito, sem aprumo e sem destino
Saio fora desse leito, desafio e desafino
Mudo a sorte do meu canto, mudo o Norte dessa estrada
Em meu povo não há santo, não há força, não há forte
Não há morte, não há nada que me faça sofrer tanto
Vai, violeiro, me leva pra outro lugar
Eu também quero um dia poder levar
Toda gente que virá
Caminhando, procurando
Na certeza de encontrar


  
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