sexta-feira, 30 de março de 2012

Samarcanda Particular



Estava o cavaleiro, na praça, à toa na vida, vendo a banda passar. Ao longe avista a morte, que lhe acena, enfática. Aterrorizado, corre ao rei e implora pelo mais veloz cavalo, decidido a fugir, ligeiro, ao ponto mais distante do reino: se me deixar ir, senhor rei, ainda esta noite estou em Samarcanda (adoro a sonoridade desse nome). O rei, generoso, concede. O mesmo rei, curioso, manda chamar a morte. Os dois, rei e morte, cada um com sua xícara de chá, conversam, e o rei pergunta à morte porque assustou o cavaleiro. A morte, delicada, responde, algo surpresa: assustei? Não buscava lhe impigir medo, apenas espantei-me de vê-lo aqui, quando temos encontro marcado esta noite em Samarcanda.

Se há alguma moral nessa história, desconheço. Ela me faz rir, aquele riso que vem em discreta interrogação. Mais desconforto que alegria. Tudo me dá coceira no juízo: a precipitação do cavaleiro, o poder do rei que pode pedir satisfação à morte, a falsa inexorabilidade do destino. E, especialmente, a compreensão que a morte precisa da cumplicidade dos vivos. Que é no só depois que tudo passa a ter sentido. O gesto surpreso da morte torna-se uma incitação. Uma vez escrevi: vais me magoar. Eu sabia, mas esqueci. Passou o tempo e nada aconteceu. Fui feliz. Tornei-me desatenta. Ou, ainda, eu não pude evitar. O que? Ser eu. Dizia o Nelson, o assassino interessa bem pouco, é a vítima que conta. É nela que se esconde o segredo de sua própria morte. É isso: sou egoísta demais pra achar que esse amor não deveria ser assim, exatamente como ele é. Tanto te amo que me deixo morrer um pouco em tuas mãos. Mas até isso é um egoísmo, quero a intimidade das tuas mãos ao redor do meu pescoço, tirando meu fôlego naquele abraço último.


Ou seja, fui mais feliz do que mereço e por mais tempo do que esperei. Saber disso não faz doer menos o oco que trago nos amanhãs. Reconhecer que não faria nada diferente não se fará risadas compartilhadas, segredos trocados, cúmplices escritas e aprendizados. Entender que não poderia ser senão eu mesma não me fará companhia. Guardo as lembranças como velhas fotografias. Eu sabia que me machucarias. Eu sabia, ainda e antes, que isso seria por um erro meu. Nunca antecipei qual, mas intuía minha Samarcanda particular. Precipitei-me em direção à saudade.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Eu, Canoa


Tem lugares que a gente não conhece, reconhece-se neles. Quando ouvi o nome Canoa Quebrada, a primeira vez, o eco de uma felicidade pulou no oco do peito. A vida seguiu, mas a vontade do indefinível me acompanhava. Um dia, lá desembarquei. Eu ia dizer que foi como voltar pra casa, mas não, seria impreciso. Não havia nada lá que eu já soubesse, mas também nada havia que eu desconhecesse. Foi como voltar pra mim. Canoa é, provavelmente, o lugar em que sou mais inteira. Praias são todas muito parecidas – alguns dirão iguais, até. Pode ser. Canoa não é praia. Canoa é estado de espírito. Um lugar que tem sua rua principal denominada Broadway, desde que era uma aldeia de pescadores, tem senso de humor. Eu amo tudo em Canoa. Suas areias vermelhas nos morros, a branca areia que o mar salga em idas e vindas, a miscelânea de pessoas, a absoluta diversidade de estilos e propósitos, a sensualidade fácil, o ritmo, a segurança na rua. A lua. Amo a lua em Canoa. Amo Canoa por quem eu sou lá. O riso ainda mais fácil, a pele temperada, o olho gentil. Canoa mudou. O Bar do Meio, aquele cantinho em que o coração batia no quadril, os encontros eram bons e a cerveja gelada, não existe mais. A Broadway já não é de barro. As pousadas cresceram e eu acho bem difícil ainda conseguir um quarto simples de pousada pra passar o fim de semana todo por 15 reais. Mas. Mas ainda é Canoa, ainda é aquele lugar onde todo o mundo e todo mundo se sente em casa. Ainda é o reggae no fim da madrugada, à beira d'água. Ainda é o forró simples com o pescador cheirando a mar. Ainda é rock, pop, mangue, fado, tarantela, ópera, sinuca e jogo de dardos. Ainda é a comida farta. A beleza explícita. Ainda é muito mais sim do que não. Quando estou em Canoa, isso que se convencionou chamar alma, canta. E afinado, viu. Canoa é uma face de mim que gosto de ver, que gosto de ser. Quando levo alguém querido em Canoa, o que estou dizendo é: veja, sou amável, me queira bem. Canoa tem meu umbigo. O mar, quando quebra na praia, é bonito. Quando quebra em Canoa, sou eu me fazendo espuma. 


quinta-feira, 15 de março de 2012

Dos Mitos


Vou colocar na conta da Clarice. É, da Lispector. E, um tantinho, no deslumbre que é a beleza. Como essa: felicidade clandestina. Aprendi a viver a felicidade como um jogo de sombras. Há, claro, o que grito em praças públicas, mas quem garante que não é pra distrair? Minha mente é um lugar perigoso. Insalubre. No rosto, o riso, mas cá dentro há despenhadeiros e monstros arcaicos que devoram sonhos. Eu ainda acredito: os deuses tem inveja da felicidade humana. E falo baixinho. Espio por cima do ombro. Suspeito de mim mesma, faço inquéritos. É preciso conhecer a anatomia da felicidade, advogo, e já empunho o bisturi. Preparo autópsias, o assassinato é só uma escala. Quando mesmo comecei a desconfiar de sonhos sinônimos? No sempre, talvez. Respiro. É preciso mais coragem para viver em sim do que pra lamentar o não. Esse é meu verso. O único que escrevi. São os dias ímpares, esses de ter a o tempo do mundo feito idade e entender que a esperança é roupa esgarçada que já não encobre a verdade: a dor é o que indica o vivo.

E, no entanto, há sol e ele invade as persianas e faz desenhos no meu colchão. E eu, que em nada acredito, faço uma prece para que você ainda esteja lá, na esquina que já vou dobrar. Acelero o passo e percebo: é o labirinto que ando a percorrer. Já não me importo: seja meu, minotauro.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Um Dia de Cada Vez


Hoje é aniversário do meu pai. Ele é um baita cara, sabe. Quando eu era criança, queria ser igualzinha a ele. Hoje, muitos anos passados e experiências vividas, muitas pessoas e situações conhecidas, ainda quero exatamente a mesma coisa. Ser como ele é. Meu pai sabe amar e ser amado. Com ele aprendi a tolerância. O sorrir fácil. Foi espiando sua fala que fui aprendendo que ser gente é bem mais difícil do que parece: exige bondades. Foi observando seus dias que fui descobrindo: ser gente é bem mais fácil do que parece: demanda entregas. Meu pai é de coragens. E força. Meu pai é de vulnerabilidades. E generosidade. Construiu Brasília com as próprias mãos. Construiu um mundo de afeto pra nós com seus próprios sonhos. Com ele aprendi a dizer, inclusive não, mesmo pra ele. Aprendi as cores vermelho e preto para a paixão. Aprendi o cavalgar para o destino. Aprendi o sofrer na canção. Deu-me ele: flamengo, faroestes e Maysa. Deu-me o mundo. Não preciso da sua aprovação, ele me ensinou isso. Mas a quero. Quero colo, ainda. O saber-me no lugar certo. Princesa, bacorinha, rapariga, moleca, sábia, ser nos seus olhos. Ser sua filha. Igualzinha a ele.  

Mais amor por ele aqui e aqui.

Amigos

E eu, que tenho as mais doces e belas e inteligentes e saborosas amizades, deixo aqui minha alegria por receber tanto carinho em forma de letras. As Mulheres de Freud. Amei. 

Ainda eles: hoje eu e aquele cearense metido a cosmopolita tivemos dos papos mais engraçados. Sabe alívio? os dois suspirando. Sintonia fina. 

Mas tem você, em silêncios que me doem. Sei que sou egoísta, preciso de você na minha vida, sua palavra me dá sentido. Já tentei percorrer o abismo em letras. Talvez deva enchê-lo de lágrimas. 


Somático

E é isso: ontem, adoeci. Hoje, mais um pouco. Mas já entendi. Será um mês assim: em aflições. Aprender a lidar com a dor que sai no jornal. Entendi hoje que não vai ser fácil. Incomunicável, por exemplo, pesa. Assim o prometo, corta. São desassossegos. De qualquer forma, um dia de cada vez, vou a São Paulo. E Curitiba. E Florianópolis.  Um alento. Mesmo que tenha dado tudo errado, algo deu certo. Vou vivendo em Tara: amanhã eu penso nisso.


domingo, 11 de março de 2012

Das Dedicatórias



Nunca fui de poesia, mas me descubro – cada vez mais – de poeta. Esse, tão eu, meu nordeste feito letra. Outro, tão meu, uma letra feito norte. 

E de todas as coisas que desaprendi a fazer, deixar o coração sem véus é a que mais me faz falta agora. Só queria mesmo dizer...

O problema é que eu te amo
Não tenho dúvidas que eu queria estar mais perto
Juntos viveríamos por mil anos
por que o nosso mundo estaria completo...

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