terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Dos Deslumbramentos III


E quando o convite é sonhar? De olhos bem abertos e, ainda assim, sabendo que há sempre uma ou outra curva a escapar? E quando o convite é ao insólito de morar em ondas, em dunas, mover-se constante no que é – devia ser – raiz? E quando o topo não é o limite e se aponta para um mais além; e quando as escadas levam-nos pela mão mais e mais para o centro de nós mesmos, e quando se procura a palavra certa e só se encontra no corpo inquieto a mais exata descrição da beleza encontrada? E quando o quando se faz onde?




Pois foi assim, em mim, deparar-me com La Pedrera, que será minha Barcelona de sempre. Há belezas outras, muitas que nem espiei, outras que mal respirei ao ver, Barcelona é uma cidade linda que se sabe linda, alegre que se sabe alegre, rejuvenescida, sem tantos traços melancólicos e, quiçá, decadentes, que costumam me encantar. Há Barcelonas, um plural de cidade, de recantos, de possibilidades. Há Barcelonas e a minha está naquela construção que me sussurra: mar. E sonhos. E ousadias. Há Barcelonas e a minha está naquela construção que brinca com a cor que ainda não é ou já foi, não se sabe tempos.



O deslumbramento pode ser assim: um nó no estômago, um nós na alma, uma cor no teto, uma inesperada luz no pátio, uma dança de quereres. O deslumbramento pode ser um sonho que se carrega na sacola feito bilhete de viagem. Ida e Volta.

PS. As imagens que ilustram o post foram catadas no google. Assim que chegar em casa, serão substituídas pelas minhas toscas tentativas de registro.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Dos Deslumbramentos II

Torre de Belém - essa linda! -
 e suas escadinhas do mal
 Pra todo lado que se olha, ou quase, há uma beleza. Ora um azulejo, um detalhe da arquitetura, uma janela, um prédio inteiro de fazer o coração dar aqueles saltos que a gente não sabe nomear. Há grandes monumentos, sim. Torre de Belém, Jerônimos, o impressionante Castelo de São Jorge e por aí vai. Gosto de tudo. Mas gosto mesmo e mais daquela curva na equina, em que o encanto se chega, inesperado e sorridente. As coisinhas miúdas.

...e um intervalo pra bobices


Daí eu fico pensando: eles sabiam que construíam o Belo? Ou apenas faziam o mais “legal” possível dentro do que era referência estética da época? E, assim sendo, será que existirão tours daqui a um ou dois séculos, com excursões visitando nossas grandes construções e audioguias explicando: "isso era um shopping center no início do século XXI,, reparem na beleza do alumínio e vidro e no equilíbrio das linhas"...

...ou a civilização acabou e com ela a ética e a estética e ficamos apenas com a tentativa de uma barbárie organizada?

Dos Deslumbramentos


Eu não costumo fazer planos. Mas, os que faço, são ótimos. São excelentes porque costumam não dar certo. E, não funcionando, trazem, juntinho ao fracasso, um mundo de possibilidades que eu não cogitava. Até hoje um dos melhores planos foi aquele de casar, buffet certinho, vestido longo, buquê e padrinhos. Necasquipitibiriba. Gorou. Mas as alegrias que vieram por conta, as amizades, as viagens, as descobertas (o Borboletas é um blog aberto a todas as idades, não posso dar detalhes)... tudo isso faz minha vida ainda mais bela, complexa e divertida. Então, cá estou em Portugal. E a encontrar pessoas a quem eu já queria bem, mas que agora têm rosto, voz e abraço amigo a dar forma ao afeto. Lisboa é linda. Linda, linda, linda e fica mais acolhedora pela forma generosa como sou tratada. Tenho sorte, eu sei. Muita. Se a felicidade é saber que se está sendo feliz, sou das mais. Tenho uma exata noção do quanto as pessoas me dão mais carinho, presença, conversa, enfim, amizade, do que fiz por merecer. O mundo é bom comigo. A vida é boa. As pessoas são boas comigo. São pessoas boas em si mesmas e por si mesmas, eu sei. Mas é um além. São boas comigo, assim, dessa forma que põe o coração morno, sabe? Trago os olhos rasinhos e tenho uma pena de não podê-los levar, ao mesmo tempo em que é bom saber que ficam aqui, sendo eles mesmos, intensamente interessantes. 

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Uma Vista, Um Livro, Uma Personagem...todos queridos

O Borboletas adora receber visitas. Eu adoro receber visitas. Gosto de gente querida chegando e o riso e conforto de saber que é possível um tempo e um mundo melhor só de belezas feitas assim, que nem o texto da Caminhante Diurno que você vai ler aqui.

Foi assim: eu me meti num papo da Caminhante (no twitter), que estava incerta sobre ler ou não ...E o Vento Levou e eu disse que valia a pena (confesso que não com a ênfase necessária: e se ela não gostasse? E se passasse a me detestar por recomendar um livro que ela detestasse? Mil fantasias). Mas ela pegou pra ler. E foi gostando. E gostando (tanto que escreveu este post aqui: Feminilidade, por Scarlett O´Hara). Daí eu provoquei: e um post por Borboletas? E ela topou. Que bom. Pra mim. Pra quem visita este blog. Caminhante generosamente já escreveu pra um outro blog meu: Ana Terra, no Eu Sou a Graúna. Na ocasião, apresentei assim:

Eu não me lembro quando comecei a ler a Caminhante Diurno, mas não esqueço de lê-la, agora. Com sua escrita ora delicada, ora ácida, ela consegue manter-se entre os que tratam seus textos e personagens com ternura e generosidade sem perder a perspectiva crítica. A Caminhante já fez e aconteceu, até já estudou chinês (duvida, conheça-a aqui). Tem, publicados, dois livros: Cegueira e normatividade social e Prazo Expirado, este com textos do blog. Hoje em dia, além do seu blog sobre nada (ela que assim o definiu), também anda Caminhando por Fora, onde trata de livros, filmes, enfim, de produções culturais. E eu já contei que, entre tantos textos intensos, eu sempre releio este que me diz tanto sobre ser mulher e me sentir poderosa? 

Acrescento que hoje ela também escreve para o Livros e Afins. Entre muitos ótimos textos, este aqui se destaca: Menos lições, mais sinceridade.


...E o vento levou, by Caminhante Diurno


Apesar de ter preconceito com filmes baseados em livros, com relação ao ...E o vento levou tive a reação contrária, de achar que o livro sujaria minha memória afetiva do filme. Eu, como quase todos da minha geração, entrei em contato com o filme quando criança, vi inúmeras vezes e o guardava na memória como uma das grandes produções que vi na minha vida. Achei que o livro não seria digno dessas lembranças e só resolvi arriscar quando a Luciana me garantiu que era uma leitura agradável. Sabia que, na sua época, o livro tinha legiões de fãs, por isso a super produção. Já havia lido que a escolha de Vivan Leigh foi polêmica, porque ela não tinha os famosos olhos verdes da Scarlett - o que explica os inúmeros vestidos e chapéus verdes que a personagem usa, porque com eles Scarlett ressaltava a cor dos seus olhos. Vivan Leigh só convenceu a multidão de fãs quando o filme estreou viram seu desempenho fantástico. Pior de tudo é saber que o galã Rhett, vivido por Clark Gable, era bafudo. Dizem que o hálito dele era tão ruim que Vivian Leigh chegava a passar mal depois das cenas de beijo.


Não imagino que impacto o livro causava na época, quando ninguém conhecia de antemão o que aconteceria. Eu vi o livro tendo o filme como referência, e as imagens me voltavam a medida que eu lia. Como era de se esperar, o livro tem detalhes que explicam muito melhor a trama, se aprofunda nos personagens e tem uma ação mais lenta. Então, através de algumas informações, os fatos adquirem novas luzes, motivações e contextos mais elaborados do que a tela pôde mostrar. O filme se volta para o romance de Scarlett e Rhett, e os tornou um dos casais mais emblemáticos do cinema. O livro se concentra na vida de Scarlett; o narrador, embora onisciente, quase sempre fala das motivações e pontos de vista dela. Da maneira como a história é construída, não é tão certo que eles são feitos um para o outro. Rhett faz parte da vida movimentada de Scarlett, do mesmo modo que as famílias sulistas, a guerra, a luta pela sobrevivência e Tara. Outro grande mérito do livro é o de não duvidar da inteligência do leitor. Parece pouca coisa mas não é - um bom cinéfilo percebe rapidamente que o diretor Woody Allen, tido como tão cult, não resiste e sempre coloca alguém para dizer, com todas as palavras, as respostas que o filme se propôs a dar. Em ...E o vento levou, os indícios são fornecidos, mas a autora confia que o leitor perceberá o que está acontecendo.

Somente dentro do contexto social e familiar em que ela vive, temos noção do que as atitudes de Scarlett significaram, a ruptura dela em relação à sua criação, ao que se esperava de uma mulher na sua posição. A todo momento somos informados da repercussão negativa da sua independência, manifesta em atitudes que hoje nos parecem sem importância como: tirar o luto cedo (com menos de um ano!), dançar e se divertir com a companhia masculina sendo viúva, estar a frente dos negócios, andar sozinha e se mostrar em público quando grávida. Só lendo o livro para descobrir que qualquer referência à gravidez era vergonhosa. Ou que os casais podiam se instalar na casa de parentes durante anos, sem causar qualquer incômodo. Ou dos casamentos que surgiam apenas para não gerar comentários de pessoas aparentadas morando juntas. Scarlett pode ser vista como uma feminista, pela maneira como rompe com as convenções - e punida por isso, pelo seu final solitário. O livro fala de um mundo que não existe mais, de um código cavalheiresco de conduta que protegia e oprimia a mulher; de um poder entre famílias, que formava uma rede de ajuda ao mesmo tempo levava uma pessoa ao ostracismo quando contrariada.

Outras coisas, acredito, não apareceram no filme porque não era conveniente colocar no filme. O livro faz muita referência ao ódio aos Yankes, à crueldade e a corrupção que a guerra significou para o sul. A escravidão é vista de uma maneira favorável aos sulistas, que dizem tratar os seus negros com o carinho e o cuidado que se reserva às crianças. Com a abolição da escravatura, o norte estimula e dá poder aos antigos escravos, mas no trato pessoal é muito mais distante e preconceituoso que as pessoas do sul. Embriagados e despreparados diante do seu novo poder, os negros se tornam libertinos, manipuláveis e violentos. A gota d´água é quando, estimulados por motivos políticos, lhes é dito que eles têm direito às mulheres brancas, e é essa a origem do ataque à Scarlett, quando dirigia sozinha. Esse episódio que leva o leitor a descobrir algo que já se avizinhava: todos os homens brancos de famílias sulistas tradicionais são membros da Kun Klux Kan. Inclusive o idealizado Ashley Wilkes. Depois de tudo que o livro diz, é fácil entender que o movimento surge como uma tentativa de estabelecer um pouco de ordem e proteção para as famílias, uma nostálgica e violenta volta ao passado. Mas seria muito difícil colocar isso numa tela de cinema sem sofrer acusações de racismo.

A mística do casal Rhett-Scarlett fica bastante diminuída quando lemos que o que Rhett queria, desde o início, era fazer sexo com Scarllet. Quando ele diz "esperei por você como nunca esperei por mulher nenhuma, desejei você como nunca desejei mulher nenhuma", ele está propondo que ela se torne sua amante, e lhe diz isso com todas as letras. É o amor por Ashley que mantém Scarlett distante e apenas essa distância permite que um dia Rhett se apaixone. O livro deixa claro que ela não tinha prazer no sexo. Como manda a educação das mulheres da sua época, Scarllet vê no sexo uma obrigação marital desagradável que engravida - coisa que ela detestava por prejudicar suas formas e por não gostar de crianças. Mesmo quando casada com Rhett, ela sente prazer pela primeira vez quando ele a toma à força, bêbado, durante uma crise de ciúmes. Ou seja, ela não se nega por charme, e sim porque não tem interesse no que ele lhe oferece. Sim, Rhett protagoniza gestos românticos inesquecíveis, que fazem parte do imaginário coletivo: oferece uma grande quantia em dinheiro para tirar Scarlett para dançar, beijos ardentes, uma conversa maliciosa e provocante. Ao mesmo tempo, é um homem que zomba dos maiores ideais, que não liga para ninguém. É o pior tipo de pessoa que surge durante uma guerra - aquele que lucra com a miséria dos outros. Com um pequeno gesto ele poderia ter poupado Scarlett de quase todos os seus problemas, e não o faz. Os meus suspiros por Rhett terminam quando ele abandonou Scarlett exausta e cheia de problemas à caminho de Tara. A fome e as dificuldades matam a moça de família que Scarlett era, que a partir daí se torna uma pessoa endurecida e ambiciosa. Ter um homem que aparece de vez em quando, presta homenagens e vai embora não é nada diante de tudo o que ela faz para sobreviver. Só o livro nos dá dimensão da solidão e da mágoa de Scarlett. Ele tinha motivos para estar apaixonado, ela não.

Nas últimas vezes que vi ... E o vento levou, deixava de assistir quando eles casavam. Tive vontade de fazer o mesmo com o livro. Porque o fim sempre me pareceu um grande engano - quando Melania morre, Scarlett descobre que o que sente por Ashley é uma ilusão; quando chega para Rhett pronta a se declarar, ele lhe diz que agora ela está livre para se casar com Ashley, e sai pela porta dizendo que não se importa mais com ela. É um gesto agressivo e ciumento, muito diferente do que o livro nos faz ver. No livro é possível perceber que os dois vivem numa disputa constante, de quem seria o mais forte ou estaria menos envolvido, nenhum tem clareza dos sentimentos do outro. Que eles se amam muito e se magoam muito. Ao longo do casamento, e principalmente com a paternidade, Rhett muda, amadurece, faz as pazes com seu passado. Scarlett, com dinheiro, pode dar vazão aos seus caprichos e parece a própria imagem da decadência moral. Quando ela volta da casa de Melania e confessa seu amor, Rhett lhe diz, tranquilamente, tudo o que havia se passado entre os dois: o amor imenso que sentia, sua incapacidade de se aproximar, a morte da filha, as dúvidas, o desgaste. Ele acredita na sua fidelidade e no seu amor, eles apenas chegaram tarde demais. Quando ele a abandonou, eu senti alívio - quem nunca viveu algo assim, algo tão grande quanto doloroso? Foi um gesto de sobrevivência. O amor tem uma época certa para acontecer e não resiste a tudo. Sob outro ponto de vista, seria possível dizer que o que eles tinham nem era amor.

Se eu fosse pensar uma continuação da história, não os veria juntos. Ou se os visse, eles seriam como aqueles casais que precisam de muito tempo para curar suas feridas, que tentam encontrar uma outra forma de amor. Rhett jamais a abraçaria com um ardor de amolecer os joelhos; Scarlett não poderia reconquistá-lo sorrindo de maneira a ressaltar suas covinhas. Numa continuação de ...E o vento levou, ambos estariam maduros, e a situação política mais tranquilla. Tranquilidade e maturidade não rendem páginas emocionantes. O que me leva a concluir que o livro terminou exatamente no momento que deveria.


domingo, 22 de janeiro de 2012

Novelo

Mais perto. É isso. Mais perto do meu medo. Mais perto do meu desejo. É que, em certas noites, o coração brinca de ser fogueira e acende o riso. Tudo é luz em histórias de um dia outro que já sinto hoje. Eu adivinho abraços, podia usar no meu cartão de visitas. Em silêncios, antecipo sua mão, onde vou caber inteira. Sei miudezas, coleciono pequenos acertos: o próximo carro é azul! É que, em certas noites, essa pequena brasa insiste em bater em meu peito. Um exagero! leques acelerados e uma certa recriminação no tom. Não há comportas para o meu sentir. Extravaso. Escapo, agora. Sou maior. E mais só. Ainda brilho, mas só no escuro. E me espanto, às vezes, como quem vive. Apontam. Sou eu? Sou. Nem ligo. A tal brasa, acesa, morna, no centro do peito. Tem querer bem de todo jeito. O meu é feito noite de São João. Tem fogueira e festa, na rua, no céu, no corpo. Mas me antecipo. Não preciso dizer tudo. Ou não agora. Não preciso, repito, como se fosse uma certeza e não uma inquietação. Eu vou muito rápido. Epa! E já pus os pés pelas mãos e, ele, um pé atrás. Eu só queria dizer que não aprendi a fazer nós. Mas me calo, não me interessa quem não põe a mão no fogo do peito. Estou cansada. Cansada de me perder nas esquinas de um corpo que ainda não visitei. Trocamos memórias como se fossem segredos. Colecionamos o outro. Insistimos em mensagens que não se complementam. Não há encaixe, não há felicidade. Sim, preciso de mapa. Se te percorrer, me acho – e no momento que escrevo sei que é mais uma das fantasias que usamos pra não latejar tanto. Tento me convencer, armando castelos de cartas, bilhetes, telegramas, mails e sinais de fumaça: um, dois, três...era uma vez: eu. Toda vez. Outra vez. A distância. Gosto das distâncias. De diminuí-las. De transformá-las. Gosto das distâncias, de sabê-las, de encontrá-las para, a seguir, perder-me em encontros. Gosto de encurtar as distâncias, modificar geografias. Gosto de pensar: aqui. Mais, gosto de pensar-te: aqui. Eu queria colocar em um bilhete curto todas as saudades que eu ainda vou sentir, todo o querer que ainda vai pulsar, todo adeus que eu ainda vou chorar. Como já não consigo, suspeito felicidades e aprendo a soletrar desejo com as letras do seu nome.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...