E o sorteio? Devia ter sido dia 05 de janeiro, sorry, mas a vida anda me lembrando que os dias são curtos pra tanto sentir. Enfim,é hora. Em 2010 foram vários comentários, tanta gente queria os livros oferecidos...este ano o movimento no blog aumentou, mas na caixa de comentários diminuiu significativamente. Tem mais gente lendo, menos gente papeando. Sei bem que a culpa é minha, ando silenciosa nos blogs queridos. Ando silenciosa até nesse. Assim, fui apurar os interessados e pensei: porque não presentear um por um? Então ficou assim:
Juliana - Fina Flor - livro - Janeiro
Clara - Gaveta Virtual - livro - Fevereiro
Anne - Feministas na Cozinha - livro - Março
Renata - As Agruras e as Delícias... - livro - Abril
Caminhante - Caminhante Diurno e caminhando Por Fora - filme - Maio
Niara - Pimenta com Limão - livro - Junho
Rita - Estrada Anil - livro - Julho
Lu Guedes - Menina no Sótão - livro - Agosto
Maré Cheia
No mar repouso meu olhar. Agora, maré cheia, plena, alta, mulher grávida. Este mar é um espelho. Também eu estou grávida. Não de filho, já entreguei à vida um pedaço de mim com pele, coração, sangue e sonhos. Estou plena é de felicidade. Felicidade não é alegria, fui descobrindo, ao mesmo tempo que ela ocupava meu ventre. Felicidade não exige riso, não exige viço, não precisa de exibição. Felicidade é pra dentro, quase tímida, implodindo o frágil corpo num arroubo. Felicidade é matrona na porta de casa. Não tem sorriso nem euforia, tem a espera do marido que regressa à casa, cansado. Felicidade é maré alta.
Mas logo vem a menstruação do mar. Vazante é o dia a dia de quem é feliz. Suportar a alegria, a raiva, a incerteza, a dor, a gargalhada, pois disso a maré sofre e disso a maré enche. Eu, por exemplo, quedo meu olhar nos arabescos que o beijo da água desenha na pele da areia e recordo fragmentos de vida. Recordo o vai e vem das águas no meu corpo, ensinando-o a suportar a vazante e a abrigar a enchente, para conhecer a plenitude. Um dia, o homem. O espanto de existir um homem para mim. E a maré começa a encher. A partilha do passado, o entendimento das idéias, a alegria do sexo, o conforto do abraço, os projetos. Maré enchendo é boa de pesca. Os mais belos e maiores peixes. Sim, neste encher-se de vida, muito se pode apanhar. Isca certa, paciência, e eis o pescado.
Depois, a felicidade. Inexperiente, eu não sabia lidar com ela. Quis retê-la. Vã tentativa, não se pode represar o mar sem conseqüências. Quando a água superou as paredes da barragem, a vazante foi ainda maior. Recuo, palavras ásperas, ciúme, confinamento. As águas indo-se e deixando à mostra a infertilidade de um campo sem agricultura e sem peixe. Tal como os rios para o mar, nossas vidas corriam uma para outra. E a repetição dos ciclos acabou por miscigená-los. Não enche o mar apenas dos momentos de gargalhada mas também de deliciosas confusões, altercações, oscilações de humor e desejo. A vazante não prescinde, hoje em dia, de um solidário abraço, de um caloroso beijo, de um esvair-se de gozo. E a felicidade. Que precioso perceber que ela permanece mais e mais bela quando livre. Suas águas possibilitadas de ir, deixam-se ficar mais um tempo, confortáveis no seu domínio. A felicidade é a companhia deste homem. Ainda mais, é a certeza dele em mim. Mesmo que ausente, ele em mim.
O desejo prescinde do gozo, é corda tensionada, maré enchendo e secando. O gozo prescinde do esforço. O gozo é o instante fulgás de não vigiar-lhe o pensamento no desconhecimento lúcido de que ele se voltará para mim. Maré cheia. Vida boa, diz o pescador, vizinho e amigo que penetra - quase nu, frágil em sua frágil jangada - no silêncio misterioso do mar, em um ritual de extorqui-lhe a vida , para que possam permanecer e renovar-se: ele, o mar e a vida. Meus olhos perdem-se na contemplação destes segredos até encontrar os passos que me procuram. Mão no meu ombro, corpo ao meu lado, olhos encontrando o horizonte nos meus. Maré cheia.




