sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Sobre as Marés e os Presentes Atrasados

E o sorteio? Devia ter sido dia 05 de janeiro, sorry, mas a vida anda me lembrando que os dias são curtos pra tanto sentir. Enfim,é hora. Em 2010 foram vários comentários, tanta gente queria os livros oferecidos...este ano o movimento no blog aumentou, mas na caixa de comentários diminuiu significativamente. Tem mais gente lendo, menos gente papeando. Sei bem que a culpa é minha, ando silenciosa nos blogs queridos. Ando silenciosa até nesse. Assim, fui apurar os interessados e pensei: porque não presentear um por um? Então ficou assim:

Juliana - Fina Flor - livro - Janeiro
Clara - Gaveta Virtual - livro - Fevereiro
Anne - Feministas na Cozinha - livro - Março
Renata - As Agruras e as Delícias... - livro - Abril
Caminhante - Caminhante Diurno e caminhando Por Fora - filme - Maio
Niara - Pimenta com Limão - livro - Junho
Rita - Estrada Anil - livro - Julho
Lu Guedes - Menina no Sótão - livro - Agosto

Por favor, mandem seus endereços pro mail do blog:  borboletasnosolhos@gmail.com. Ah, quem quiser fazer um post sobre o livro/filme recebido, o Borboletas está de asas abertas...


Maré Cheia

No mar repouso meu olhar. Agora, maré cheia, plena, alta, mulher grávida. Este mar é um espelho. Também eu estou grávida. Não de filho, já entreguei à vida um pedaço de mim com pele, coração, sangue e sonhos. Estou plena é de felicidade. Felicidade não é alegria, fui descobrindo, ao mesmo tempo que ela ocupava meu ventre. Felicidade não exige riso, não exige viço, não precisa de exibição. Felicidade é pra dentro, quase tímida, implodindo o frágil corpo num arroubo. Felicidade é matrona na porta de casa. Não tem sorriso nem euforia, tem a espera do marido que regressa à casa, cansado. Felicidade é maré alta. 

Mas logo vem a menstruação do mar. Vazante é o dia a dia de quem é feliz. Suportar a alegria, a raiva, a incerteza, a dor, a gargalhada, pois disso a maré sofre e disso a maré enche. Eu, por exemplo, quedo meu olhar nos arabescos que o beijo da água desenha na pele da areia e recordo fragmentos de vida. Recordo o vai e vem das águas no meu corpo, ensinando-o a suportar a vazante e a abrigar a enchente, para conhecer a plenitude. Um dia, o homem. O espanto de existir um homem para mim. E a maré começa a encher. A partilha do passado, o entendimento das idéias, a alegria do sexo, o conforto do abraço, os projetos. Maré enchendo é boa de pesca. Os mais belos e maiores peixes. Sim, neste encher-se de vida, muito se pode apanhar. Isca certa, paciência, e eis o pescado.

Depois, a felicidade. Inexperiente, eu não sabia lidar com ela. Quis retê-la. Vã tentativa, não se pode represar o mar sem conseqüências. Quando a água superou as paredes da barragem, a vazante foi ainda maior. Recuo, palavras ásperas, ciúme, confinamento. As águas indo-se e deixando à mostra a infertilidade de um campo sem agricultura e sem peixe.  Tal como os rios para o mar, nossas vidas corriam uma para outra. E a repetição dos ciclos acabou por miscigená-los. Não enche o mar apenas dos momentos de gargalhada mas também de deliciosas confusões, altercações, oscilações de humor e desejo. A vazante não prescinde, hoje em dia, de um solidário abraço, de um caloroso beijo, de um esvair-se de gozo. E a felicidade. Que precioso perceber que ela permanece mais e mais bela quando livre. Suas águas possibilitadas de ir, deixam-se ficar mais um tempo, confortáveis no seu domínio. A felicidade é a companhia deste homem. Ainda mais, é a certeza dele em mim. Mesmo que ausente, ele em mim.

O desejo prescinde do gozo, é corda tensionada, maré enchendo e secando. O gozo prescinde do esforço. O gozo é o instante fulgás de não vigiar-lhe o pensamento no desconhecimento lúcido de que ele se voltará para mim. Maré cheia. Vida boa, diz o pescador, vizinho e amigo que penetra - quase nu, frágil em sua frágil jangada - no silêncio misterioso do mar, em um ritual de extorqui-lhe a vida , para que possam permanecer e renovar-se: ele, o mar e a vida. Meus olhos perdem-se na contemplação destes segredos até encontrar os passos que me procuram. Mão no meu ombro, corpo ao meu lado, olhos encontrando o horizonte nos meus. Maré cheia.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Um, Dois...

É tua hora de sair, eu sei. Deixo meus olhos fechados e lembro de respirar suavemente: um, dois, expira, um, dois, expira – esse contar silencioso é uma espécie de âncora. Ainda durmo? Durmo. Não me acorde. Eu sei todas as lágrimas de amanhã. Sei teu lado da cama já frio, sei do armário vazio, sei do silêncio. Mas, agora, durmo. Ou pareço. Pise devagar. Suave. Lembra a primeira vez que entrou na minha casa? Pé ante pé. Meio de lado, diria Leminski. Um amor cheio de cautela. Eu ri. Mas agora já não rimos. Há sombras em nossos rostos. Nas esquinas do nosso afeto. A vida feito um noir... a sequência de péssimas metáforas se impõe. Um, dois, expira – eu dizia pra mim mesma, o desejo me pedindo logo, pressa, tudo: você em mim. Aquele dia, tantos dias, muitos dias de vontades cegas, de mãos ansiosas, de roupas e idéias em desalinho – mais uma imagem requentada. Será o amor necessariamente o reino das palavras fáceis? Ou, penso, olhos bem fechados, essa acidez é uma forma de defesa por sentir tanto, mesmo sabendo que há um alívio guardado esperando pra virar suspiro logo que vires o quarteirão? Por um tempo, sentimos o tempo e era bom. Você, aprendendo a ficar. Os anos, virando linhas: no rosto, destino na palma, pontos de costura, tecendo alegrias, dores e aquela forma morna que as mãos têm de se encontrarem e cuidarem uma da outra. Eu não me arrependo, diria se estivesse acordada, mas não estou. Durmo. Não me acorde. Meu sono abre a porta pra você. Porque durmo, tua mala vai mais leve. Um, dois, expira. Um-dois, feijão com arroz. Um-dois, deve-se mastigar vinte vezes antes de engolir, lembrança remota de dicas de saúde. Mastigo tua partida. Um-dois, mas a sensação que tenho é que não sei contar tão longe. Engulo logo, antes de engasgar. Antes que um de nós dois descubra que há alguma coisa em mim que permanece acordada. O amor te espreita. De olhos fechados, eu permaneço, mas ele, zeloso, acompanha a sequência inexata que usas num arremedo de despedida. Os olhos meio vazios que não se acostumaram à penumbra, a mão na maçaneta, o respirar profundo. Um-dois, é preciso que alguma coisa durma em teu íntimo para que consigas sair. Ainda sabemos a espelhos. E a encaixes. Se eu estivesse acordada estenderia a mão e ficarias mais uma hora, um dia, uma vida, quiçá. É preciso que eu durma e eu durmo: um-dois, nenhum sonho a mais. Um-dois, um-dois, marcha soldado. Um-Um, faremos somas em outros corpos. É tua hora de sair. Feche a porta. 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Cinza



Uma criança foi queimada. Queimada. Queimada. Preciso repetir isso muitas e muitas vezes porque meu corpo, meu juízo, eu toda me recuso a compreender, a aceitar, a dar sentido a uma atrocidade dessas. Queimada. Uma criança. Assassinada. Carbonizada. Porque? Porque era índia. Ou apenas porque era. Porque a existência do outro, diverso, diferente, hoje, é sempre uma ameaça. E eu e você fazemos parte disso, chorando, sentindo, calando, escrevendo, protestando, doendo, sendo. Fazemos parte. Somos nós, os humanos. Somos nós, são nossos valores, nossa sociedade, nossos comportamentos. Nossas palavras. Nossas trancas, nossas amarras. Somos nós e essa criança que já não é: cinza. Meu dia, meu mundo: cinzas. Eu sigo, daí a pouco é aniversário da amiga, é sobrinha no colo, é lua no céu. Eu sigo, você segue. É tão absurdo, cada um ainda na sua vida, depois do susto, e ela, a criança, permanece. Queimada. De quantas formas e quantas vezes precisarei escrever isso? Porque não é o meu doer que importa, não é a sua indignação, não é esta tentativa de dar sentido pra melhor lidar que importa...só importa isso: uma criança de 8 anos foi assassinada e queimada. 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Cansada

Pendurando as Chuteiras

Cansei. De pesar as palavras, de domar os afetos, de esgueirar os sentidos. Cansei de explicar. De justificar. De emprestar minhas mãos para que se cavem abismos. Cansei das unhas quebradas e das pontas dos dedos em sangue. Não quero mais a cabeça baixa, os olhos famintos, a alegria capenga de um entendimento fugaz. Cansei de chegar antes, de esperar sentada, das mãos postas. Cansei de abrir portas e janelas, cansei de arrumar sala, cansei de servir o chá. Cansei do sorriso educado, da frase de efeito, do melhor ângulo pra fotografia. Cansei de esperar a palavra, o sorriso, o abraço. Cansei da dor que deixo surgir em mim. Cansei da garganta em sal, dos olhos molhados, do oco no peito. Estou cansada das horas, das páginas, das suposições. Cansei de adivinhar. Sou eu. Essa. Cansada. Sorriso mais triste, sigo. No espelho, desconheço a melancolia que pinta despedidas no meu olho. Lavo as mãos, a alma, largo os sonhos. Rasgo os diálogos planejados, as tiradas espontâneas disciplinadamente ensaiadas, volto um a um os passos que dei em direção ao nada que eu chamava encontro. Como quem cutuca a ferida, investigo as boas memórias que vão perdendo adjetivos. Não foram boas, não são memórias, são narrativas que fiz sobre o vazio. Ou quase. Nem isso. Nem posso dizer-te personagem meu. Estás ali, fora, inteiro, sem precisar e sem saber de mim mais do que o gesto fácil e a palavra leve. Então é isso: um lamento. Só um instante a mais antes de bater a chinela, sacudir os ombros, espiar a estrada e deixar o vento fazer seu serviço. Só um instante pra fazer de conta que escrever ajuda. Mas não. Bastava dizer: dói, vou ali chorar um pouco.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Permaneço



Trago uma mala permanente no pensamento, cigana e bandoleira que sou. Mas quando paro, retorno ao aqui que é tão meu. Tão eu. O lugar que me recebe, sempre, tem cheiro de sal. Fico porque é perto do mar e dele preciso pras partes áridas do viver. Porque o ritmo na fala me encanta, porque há abraços fáceis, redes na varanda e cafuné. Fico porque há nas palavras únicas, uma magia que só quem cresceu no chão rachado pelo sol, entende: lundu, chamego, cangote, remexer, rebolar. Fico porque os dias são longos e as noites são claras. Porque o vento assanha os cabelos e os desejos. Fico porque as comidas têm gosto de saudade e as saudades têm promessas de encontro. Fico porque há olhos que me viram tanto que agora me vejo neles. Porque há quem me entende inteira e o que não entende, ama. Fico porque o café é forte, as mangas são doces e o feijão é verde. Porque quando chove a terra tem cheiro de alegria, as pessoas rodopiam sob a água e há mais riso e mais verde. Fico porque há dança e o forró é ajeitar um corpo no outro como se viver fosse em encontros. Fico porque se fala alto e se ama fácil. Porque o céu se avermelha em adeus todas as tardes. Porque se canta muito e sempre. E nem todo mundo é Bethania, mas ela há. Porque por aqui já foram Rosa, João Cabral e Patativa. Porque há um Gonzaga em cada lua. Fico porque há varandas, cadeira de balanço e vizinhança pra prosear. Fico porque, aqui, as minhas certezas: padaria, farmácia, emergência, bar. Porque os problemas já são íntimos: trânsito, varrer pó de asfalto, lado do sol. Porque sei os atalhos: onde cobrir um botão, onde comprar papel laminado, onde consertar uma bolsa. Porque conheço os intervalos. Há sempre um céu e um mar a me refletir. Porque aqui há cerveja entregue em domicílio e colos à vontade. Fico porque posso deitar encolhida e saber que a minha dor tem canto certo. Porque posso gargalhar na janela e ouvir o eco. Porque, aqui, mesmo as ruas desconhecidas já são tão minhas antes mesmo de chegar lá. Fico porque a família é grande. Porque a dor é pequena. E tanto escrevo quando em imagem seria mais simples, há um filme que em seu nome já resume: Viajo porque preciso, volto porque te amo.
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