Passam. Chegam.
E não só os anos.
2011
A Lu me convidou pra uma retrospectiva no seu sótão. Disse ela: um livro, um filme, uma citação. Fiz. Talvez não com a atualidade desejável, mas com o sincero olhar de quem vê o tempo desfocado. Foi assim:
Eu e o calendário temos pouca intimidade. Conhecidos de elevador, apenas, um bom dia ou boa noite, e seguimos, cada um no seu ritmo. Assim, pouco sei do que acontece a cada dia, a cada mês, a cada ano. Já eu e o tempo temos intimidade, amigos de conversas na varanda, mãos dadas e cumplicidade. É ele que me traz mimos que me acompanham e sobre os quais não discuto procedência ou origem. O livro que tem me acompanhado, que anda na bolsa, que me convoca vez em quando ao mistério, é A Dor, de M. Duras. Não é seu melhor, não é o que mais gosto, mas é o que se faz necessário. Porque aprendo esperas. E mudanças. E a me aceitar em meus desejos, medos e desamores. Fez-me bem. Enquanto debruço-me pra ver luas que se revezam, escuto Maninha, com Miúcha e Chico sendo o que são: fraternos, doces, possíveis. É daquelas canções que doem no oco do peito, que salgam os olhos e secam a boca. Lembra a vulnerabilidade de cada um e a necessidade de encarar o passado. Tenho escutado ainda mais porque as coisas não correm como deveriam. Já se devia, no Brasil, ter aberto os arquivos da ditadura e feito valer o que é certo. Mas tarda. Quando os olhos deixam o céu e pedem enredo, encolho-me no sofá. Esse tem sido um tempo de Dvds, evitando os cinemas lotados de dublagens infanto-juvenis, revejo o que me agrada sempre. E sempre me agrada a suave beleza de The Band Wagon (A Roda da Fortuna), um filme que nunca perde a luz. Quando Astaire e Charise passeiam no parque, eu – que nunca consigo definir – sei o que é beleza. E respiro, com forças pra mais. Mais? Um dia, um ano, uma vida. Assim, sigo, meio Alice, com todo o País das Maravilhas como citação pro ano que vem. Mais leveza, cada vez mais leveza. E pra não esquecer, trago na cabeceira a citação de Oliverio Girondo: “Não me importa uma porra que as mulheres tenham os seios como magnólias ou como figos secos; uma pele de pêssego ou de lixa. Também é indiferente se amanhecem com um hálito afrodisíaco ou um hálito insecticida. Sou perfeitamente capaz de suportar um nariz que arrecadaria o primeiro prémio numa exposição de cenouras; mas, isso sim – e nisso sou irredutível –, não lhes perdoo, sob nenhum pretexto, que não saibam voar.”
2012
Que seja leve. E em cores.









