quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Meme dos Filmes #29- Saída Pela Esquerda (Melhor Sequência de Perseguição)

Não tem pra ninguém, perseguição é no cinema americano (apesar de Ronin). Apesar dessa certeza, a definição da melhor sequência de perseguição não foi fácil. Os concorrentes para o posto de Saída Pela Esquerda marcaram minhas madrugadas:

Bullit (eu adoro as mudanças da câmera nessa sequência e fiquei agora imaginando se o relâmpago Mcqueen do filme carros é em homenagem ao Steve McQueen e sua incrível cena de perseguição quase sem música pra gente ouvir o motor do carro).


Operação França (porque Gene Hackman habita meu coração e tem aquela cena em que se persegue um trem – ou é um metrô? não sei distinguir quando estão fora do buraco – que é empolgante demais. Um dos melhores filmes policiais, realista, personagens complexos e cenas memoráveis). Não achei a cena, mas tem o trailer:




Intriga Internacional (porque Hitch resolveu se divertir e fez um dos filmes mais leves, empolgantes, interessantes e divertidos que já vi. Com o charme de Cary Grant em um personagem debochado, diálogos incríveis e aquelas duas sequências de perseguição deliciosas. O filme é um absurdo, mas intencional, Hitch nos convida a brincar com ele e é uma festa pros olhos. Ou não é uma brincadeira uma cena em que os bandidos embebedam o mocinho pra que ele dirija e caia em um desfiladeiro? Coisa de gênio. As melhores sequências beiram ao nonsense: a perseguição no milharal e o final no Monte Rushmore).


 As cenas que fazem de Intriga Internacional minha escolha final e filme campeão no quesito cena de perseguição não podem ser incorporadas, mas eu se fosse você ia me divertir um pouquinho espiando a cena do avião.

Também participando do Meme dos Filmes (saiba mais neste post aqui):

Tina – Pergunte ao Pixel 
Verônica - Will you do the fandango?
AndreV. – Lágrimas de Crocodilo
 Renata  Muitos e Duplos
Deise Luz – Sete Faces
Ludelfuego - Presbita e Emétrope
Peter – Câmera Antiga

Soluço



Eu julgava que tecia, mas desfiava, e esgarçado o desejo se revela. Tenho frio.  

Era ácido o querer, fez um furo no peito. 

Pela janela, observo: é minha vida lá fora.

Eu lembro quando nos amamos: ia ser no futuro.

Brincando de caber na sua mão, não vi os riscos na palma.

Sempre festa no meu corpo ao saber você. Mas ninguém avisou que era bota-fora.


Vem fácil, vai fácil. Tenho uma borracha cravada no lugar do coração. 

Não há nudez maior que a esperança.


terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Oficina do Diabo

Você, tão dentro e tão fundo,
e aquele vazio feito suspiro
tornado-se noite.

Às vezes eu penso nele. Não, dessa vez não é no meu coração. Às vezes eu penso no Oswaldo Montenegro. Ele nem é um dos meus compositores preferidos nem nada assim (tem até algumas canções bem bobinhas), mas eu penso nele. Por que eu penso nele? É que, um dia, conversando com amigas, uma delas disse (e as outras concordaram) que devia ser complicado ser a Paloma Duarte e saber que ele amou tanto e tantas mulheres antes, especialmente Madalena, amiga e parceira – eu sei, conversa antiga, faz tempo que Oswaldo e Paloma não estão juntos, mas eu sou assim: antenada (#not).  

Mas daí de vez em quando penso no Oswaldo, nas minhas amigas, nessa inquietação com os grandes amores passados: ué, e não é bom? Quero dizer, a capacidade de amar não é igual fluido de isqueiro pra gente dizer: ah, tá quase acabando! Não é algo que se gasta, é – penso eu – mais como um aprendizado, sobre si mesmo, sobre o mundo, sobre o par. Quanto mais, melhor. Eu acho confortador pensar que ele, meu cara hipotético (como a tia hipotética do Verissimo – obrigada, Rita!*) tem um histórico de sensibilidade, entrega, envolvimento. Acho assustador – sempre achei – envolver-me com alguém que me diz que nunca amou antes. Acho bonito – e verdadeiro – dizer que nunca amou antes como ama agora. Faz sentido, a forma como a gente ama cada pessoa passa um pouco pela nossa estrutura, pelo jeito de amar que vamos construindo; e outro tanto pelo que a outra pessoa demanda, por quem ela é, pela que ela nos dá e pelo que precisa. Assim, cada amor é peculiar, o que me parece bem mais interessante que ser único.

Nunca achei que querer bem precisasse de balança e daí nunca entendi essa demanda de ser a única marca no outro. Ser a última, vá lá, não é uma necessidade que me domina, mas consigo entender e, de vez em quando, até alimentar.  Mas precisar de exclusividade é demais pro meu pouco juízo.   

Quando penso no Oswaldo, penso também no medo que as pessoas têm do passado do outro. Como quase todo mundo prefere que o seu amado não tenha relacionamento (ou tenha maus relacionamentos) com quem ele já esteve envolvido. Ora, penso eu, ser amigo, gentil e generoso com quem se amou não devia ser considerado falha de caráter. É, no mínimo, coerente. Não é porque se deixou de desejar alguém que ela passa a ser má pessoa, não é? (excluídos aqui os casos em que a pessoa em questão é, sei lá, realmente cruel, manipuladora e outras fofuras assim). 

De maneira geral, o desejo se vai, mas a pessoa – aquela com quem se dormiu, chorou e riu junto, aquela que segurou sua mão no enterro da sua avó e fez companhia na doença do cachorro – continua sendo admirável: acolhedora, bem-humorada, inteligente e faz aquele café preto e sem açúcar no ponto. Porque mesmo o hipotético cara deveria automaticamente deixar de apreciá-la e apagá-la da sua vida como se ela não tivesse importância, não tivesse dado o primeiro livro do Caio Fernando Abreu, não tivesse convencido a ouvir a Sinfônica na praça ou apresentado Buster Keaton? O hipotético é quem é, também, por causa das pessoas que amou e que o amaram.

Eu sei, agora pelo outro lado da janela, que quando um relacionamento acaba, quem a gente era naquele relacionamento morre. Isso dói. Às vezes a saudade de quem éramos naquela relação machuca mais que a ausência do outro. E nem sempre conseguimos conviver com o fantasma de quem fomos. E, quase sempre, é mais de um fantasma. Porque morre quem a gente era e morre também quem a gente acha que seria. Morre quem a gente planejou, a pessoa que achamos que seríamos, tão mais feliz, resolvida e realizada do que quem a gente é na vida real. É difícil abrir mão desses eus que seriam tão felizes. É difícil fazer o luto pela relação, pelas esperanças, por nós, é difícil velar esse vazio e angústia que nos ocupam. Mas não é nada difícil, pra mim, entender que, depois do choro e vela, a dor virando memória, as belezas vividas possam manter boas amizades ou, pelo menos, relações cordiais de carinho, admiração e respeito mútuos.

Quando penso no Oswaldo, penso um tanto no Vinícius (guardadas as proporções da poesia). Penso que é bonito amar intensamente. Penso que deve ser um privilégio ser amada assim, com tanta verdade. Penso que não é à toa que suas ex-mulheres os estimam. Penso que “a vida só se dá pra quem se deu, pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu”. Penso que se perde muito tempo com medos, quando riso, aceitação e  cumplicidade é tão melhor.  E fico achando que tenho tanto tempo e tanta coisa pra pensar - até no Oswaldo, ai ai - porque coração vazio é oficina do diabo (o ditado não é assim, mas minha vida é).


*saiba mais apertando aqui.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Meme dos Filmes #28 - Quente e Úmido

Não ouso dizer que é a melhor, mas quando junto numa frase sexo e cinema eu lembro logo de Al Pacino, Ellen Barkin, uma parede, muita roupa, pouco tempo. Se você não viu Sea of Love (Vítimas de uma Paixão) não sabe do que estou falando. Se viu, não esqueceu, aposto.

No mais, sexo é um pouco como esse horário de funcionamento...

Encontrei visitando meu lindo cemitério: aqui

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Meme dos Filmes #27 - Porrada (Melhor Cena de Violência)


Quando penso em violência e cinema, lembro de Sam Peckimpah. Bom, não só eu, claro (não à toa é conhecido como “poeta da violência”). Eu sempre fui fã de faroeste, daquela coisa um a um, olho no olho e aí, de repente, aquelas metralhadoras todas, a morte como acaso, o sangue tão mais perto, os olhos tão mais vidrados, uma estética nova pra mim. Meu ódio será tua herança, é um dos poucos filmes que eu me lembro onde e com quem estava quando assisti. recordo meus olhos arregalados, a respiração suspensa, eu não acreditava, os assaltantes se misturando a crianças e velhos e os caçadores de recompensa atirando, a câmara lenta registrando todo o (meu) horror...o duelo de antigamente em uma vestimenta outra onde o bem e o mal não tinham participação nenhuma no desenlace. Doloroso. Impecável. Hipnótico.

Depois, claro, aperriava meu pai pelos filmes dele, eu não conseguia desviar o olho, putz, os filmes de Peckimpah são bonitos. Pistoleiros do Entardecer é comovente, sério. Há tanta nostalgia, que lembro do filme como um nó na minha garganta. Toda situação é de escolha, a escolha é liberdade e opressão, a desesperança ali na esquina, esperando, esperando e, claro, chegando, numa das mortes mais bonitas que me recordo.

Mas o tema é violência e nada como Sob o Domínio do Medo. Nada, mesmo. O filme não tem tempo pra gente respirar. Não faz concessões, não ameniza, não apresenta réstia de esperança. Está tudo sempre lá: a violência tão humana, crua, degradante, objetiva e simples. Olha, Dustin Hoffman dizendo com aqueles “oclinhos” que não vai permitir violência contra a cada dele (desconhecendo o que já tinha ocorrido), a mulher insistindo que se entregue o “idiota”, os xenófobos ali na porta, tudo isso é um caldeirão de sentir. É um filme ousado, inteligente, bem dirigido e cruel. Daqueles que a gente não sabe se tem coragem de rever mas não consegue esquecer. Daqueles que nos lembra a nossa humanidade e como ela nos deixa tão vulneráveis e, ao mesmo tempo, tão insensíveis. Sabe, às vezes fico pensando que é um filme tão forte porque amoral (não os personagens, como em muitos filmes onde se valoriza a ambiguidade e a complexidade humana, mas a forma como a narrativa é dirigida).

O que eu gosto dos filmes do Peckimpah é a intencionalidade da beleza, a estética da violência como um apuro do olhar narrativo, a reflexão sobre o humano, sobre a sociedade e a interação entre estes dois elementos que se precisam e se opõem. A violência nestes filmes pode ser gratuita e até banal, mas nunca é banalizada ou superficial (o mesmo não posso dizer de tantos filmes atuais que me cansam no seu repetir de situações extremas).

Porém. Pois é, porém. Mesmo com todas as – incríveis – cenas de Peckimpah, a minha cena escolhida como Porrada (Melhor Cena de Violência), aquela que permanece em mim como enigma e, ao mesmo tempo, como óbvia resposta, é de um outro – grande – diretor. Kubrick e sua Laranja Mecânica


Tudo é perturbador neste filme. Dos closes do protagonista à escolha de leite como bebida do grupo de Alex. As cores da primeira parte do filme, as cenas de “recuperação” de Alex no novo experimento, a volta dele pra casa, as consequências da repugnância à violência que o impede de defender-se, a linguagem partilhada por Alex e sua gangue, linguagem tão estranha e, contraditoriamente, tão familiar, como se estivéssemos prontos praquela nova língua – tudo isso é de um impacto visual e compreensivo impossíveis de descrever. É dos filmes mais atemporais que eu já vi. É obsedante. A cena que escolhi é a do estupro. Tudo é bem feito: a marcação dos gestos, a teatralidade das expressões dos personagens, o contraste de cores (aliás, a ironia até, o branco dos violadores, o vermelho da vítima) e, a mais absoluta expressão de genialidade: Alex assoviando Singin´in the Rain enquanto comete a ultraviolência (como definido na linguagem do filme). A leveza da canção e as recordações que ela irremediavelmente provoca no espectador contrastam com o mal-estar provocado pela cena e fazem desta, uma das mais impressionantes sequências que já vi (aperte aqui e veja, a incorporação foi desativada, sorry).

Também participando do Meme dos Filmes (saiba mais neste post aqui):

Tina – Pergunte ao Pixel 
Verônica - Will you do the fandango?
AndreV. – Lágrimas de Crocodilo
 Renata  Muitos e Duplos
Deise Luz – Sete Faces
Sandro - Vinil Digital
Ludelfuego - Presbita e Emétrope
Peter – Câmera Antiga
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