Quando penso em violência e cinema, lembro de Sam Peckimpah. Bom, não só eu, claro (não à toa é conhecido como “poeta da violência”). Eu sempre fui fã de faroeste, daquela coisa um a um, olho no olho e aí, de repente, aquelas metralhadoras todas, a morte como acaso, o sangue tão mais perto, os olhos tão mais vidrados, uma estética nova pra mim. Meu ódio será tua herança, é um dos poucos filmes que eu me lembro onde e com quem estava quando assisti. recordo meus olhos arregalados, a respiração suspensa, eu não acreditava, os assaltantes se misturando a crianças e velhos e os caçadores de recompensa atirando, a câmara lenta registrando todo o (meu) horror...o duelo de antigamente em uma vestimenta outra onde o bem e o mal não tinham participação nenhuma no desenlace. Doloroso. Impecável. Hipnótico.
Depois, claro, aperriava meu pai pelos filmes dele, eu não conseguia desviar o olho, putz, os filmes de Peckimpah são bonitos. Pistoleiros do Entardecer é comovente, sério. Há tanta nostalgia, que lembro do filme como um nó na minha garganta. Toda situação é de escolha, a escolha é liberdade e opressão, a desesperança ali na esquina, esperando, esperando e, claro, chegando, numa das mortes mais bonitas que me recordo.

Mas o tema é violência e nada como Sob o Domínio do Medo. Nada, mesmo. O filme não tem tempo pra gente respirar. Não faz concessões, não ameniza, não apresenta réstia de esperança. Está tudo sempre lá: a violência tão humana, crua, degradante, objetiva e simples. Olha, Dustin Hoffman dizendo com aqueles “oclinhos” que não vai permitir violência contra a cada dele (desconhecendo o que já tinha ocorrido), a mulher insistindo que se entregue o “idiota”, os xenófobos ali na porta, tudo isso é um caldeirão de sentir. É um filme ousado, inteligente, bem dirigido e cruel. Daqueles que a gente não sabe se tem coragem de rever mas não consegue esquecer. Daqueles que nos lembra a nossa humanidade e como ela nos deixa tão vulneráveis e, ao mesmo tempo, tão insensíveis. Sabe, às vezes fico pensando que é um filme tão forte porque amoral (não os personagens, como em muitos filmes onde se valoriza a ambiguidade e a complexidade humana, mas a forma como a narrativa é dirigida).
O que eu gosto dos filmes do Peckimpah é a intencionalidade da beleza, a estética da violência como um apuro do olhar narrativo, a reflexão sobre o humano, sobre a sociedade e a interação entre estes dois elementos que se precisam e se opõem. A violência nestes filmes pode ser gratuita e até banal, mas nunca é banalizada ou superficial (o mesmo não posso dizer de tantos filmes atuais que me cansam no seu repetir de situações extremas).
Porém. Pois é, porém. Mesmo com todas as – incríveis – cenas de Peckimpah, a minha cena escolhida como Porrada (Melhor Cena de Violência), aquela que permanece em mim como enigma e, ao mesmo tempo, como óbvia resposta, é de um outro – grande – diretor. Kubrick e sua Laranja Mecânica.

Tudo é perturbador neste filme. Dos closes do protagonista à escolha de leite como bebida do grupo de Alex. As cores da primeira parte do filme, as cenas de “recuperação” de Alex no novo experimento, a volta dele pra casa, as consequências da repugnância à violência que o impede de defender-se, a linguagem partilhada por Alex e sua gangue, linguagem tão estranha e, contraditoriamente, tão familiar, como se estivéssemos prontos praquela nova língua – tudo isso é de um impacto visual e compreensivo impossíveis de descrever. É dos filmes mais atemporais que eu já vi. É obsedante. A cena que escolhi é a do estupro. Tudo é bem feito: a marcação dos gestos, a teatralidade das expressões dos personagens, o contraste de cores (aliás, a ironia até, o branco dos violadores, o vermelho da vítima) e, a mais absoluta expressão de genialidade: Alex assoviando Singin´in the Rain enquanto comete a ultraviolência (como definido na linguagem do filme). A leveza da canção e as recordações que ela irremediavelmente provoca no espectador contrastam com o mal-estar provocado pela cena e fazem desta, uma das mais impressionantes sequências que já vi (aperte aqui e veja, a incorporação foi desativada, sorry).
Tina – Pergunte ao Pixel
Verônica - Will you do the fandango? AndreV. – Lágrimas de Crocodilo