Você, tão dentro e tão fundo,
e aquele vazio feito suspiro
tornado-se noite.
Às vezes eu penso nele. Não, dessa vez não é no meu coração. Às vezes eu penso no Oswaldo Montenegro. Ele nem é um dos meus compositores preferidos nem nada assim (tem até algumas canções bem bobinhas), mas eu penso nele. Por que eu penso nele? É que, um dia, conversando com amigas, uma delas disse (e as outras concordaram) que devia ser complicado ser a Paloma Duarte e saber que ele amou tanto e tantas mulheres antes, especialmente Madalena, amiga e parceira – eu sei, conversa antiga, faz tempo que Oswaldo e Paloma não estão juntos, mas eu sou assim: antenada (#not).
Mas daí de vez em quando penso no Oswaldo, nas minhas amigas, nessa inquietação com os grandes amores passados: ué, e não é bom? Quero dizer, a capacidade de amar não é igual fluido de isqueiro pra gente dizer: ah, tá quase acabando! Não é algo que se gasta, é – penso eu – mais como um aprendizado, sobre si mesmo, sobre o mundo, sobre o par. Quanto mais, melhor. Eu acho confortador pensar que ele, meu cara hipotético (como a tia hipotética do Verissimo – obrigada, Rita!*) tem um histórico de sensibilidade, entrega, envolvimento. Acho assustador – sempre achei – envolver-me com alguém que me diz que nunca amou antes. Acho bonito – e verdadeiro – dizer que nunca amou antes como ama agora. Faz sentido, a forma como a gente ama cada pessoa passa um pouco pela nossa estrutura, pelo jeito de amar que vamos construindo; e outro tanto pelo que a outra pessoa demanda, por quem ela é, pela que ela nos dá e pelo que precisa. Assim, cada amor é peculiar, o que me parece bem mais interessante que ser único.
Nunca achei que querer bem precisasse de balança e daí nunca entendi essa demanda de ser a única marca no outro. Ser a última, vá lá, não é uma necessidade que me domina, mas consigo entender e, de vez em quando, até alimentar. Mas precisar de exclusividade é demais pro meu pouco juízo.
Quando penso no Oswaldo, penso também no medo que as pessoas têm do passado do outro. Como quase todo mundo prefere que o seu amado não tenha relacionamento (ou tenha maus relacionamentos) com quem ele já esteve envolvido. Ora, penso eu, ser amigo, gentil e generoso com quem se amou não devia ser considerado falha de caráter. É, no mínimo, coerente. Não é porque se deixou de desejar alguém que ela passa a ser má pessoa, não é? (excluídos aqui os casos em que a pessoa em questão é, sei lá, realmente cruel, manipuladora e outras fofuras assim).
De maneira geral, o desejo se vai, mas a pessoa – aquela com quem se dormiu, chorou e riu junto, aquela que segurou sua mão no enterro da sua avó e fez companhia na doença do cachorro – continua sendo admirável: acolhedora, bem-humorada, inteligente e faz aquele café preto e sem açúcar no ponto. Porque mesmo o hipotético cara deveria automaticamente deixar de apreciá-la e apagá-la da sua vida como se ela não tivesse importância, não tivesse dado o primeiro livro do Caio Fernando Abreu, não tivesse convencido a ouvir a Sinfônica na praça ou apresentado Buster Keaton? O hipotético é quem é, também, por causa das pessoas que amou e que o amaram.
Eu sei, agora pelo outro lado da janela, que quando um relacionamento acaba, quem a gente era naquele relacionamento morre. Isso dói. Às vezes a saudade de quem éramos naquela relação machuca mais que a ausência do outro. E nem sempre conseguimos conviver com o fantasma de quem fomos. E, quase sempre, é mais de um fantasma. Porque morre quem a gente era e morre também quem a gente acha que seria. Morre quem a gente planejou, a pessoa que achamos que seríamos, tão mais feliz, resolvida e realizada do que quem a gente é na vida real. É difícil abrir mão desses eus que seriam tão felizes. É difícil fazer o luto pela relação, pelas esperanças, por nós, é difícil velar esse vazio e angústia que nos ocupam. Mas não é nada difícil, pra mim, entender que, depois do choro e vela, a dor virando memória, as belezas vividas possam manter boas amizades ou, pelo menos, relações cordiais de carinho, admiração e respeito mútuos.
Quando penso no Oswaldo, penso um tanto no Vinícius (guardadas as proporções da poesia). Penso que é bonito amar intensamente. Penso que deve ser um privilégio ser amada assim, com tanta verdade. Penso que não é à toa que suas ex-mulheres os estimam. Penso que “a vida só se dá pra quem se deu, pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu”. Penso que se perde muito tempo com medos, quando riso, aceitação e cumplicidade é tão melhor. E fico achando que tenho tanto tempo e tanta coisa pra pensar - até no Oswaldo, ai ai - porque coração vazio é oficina do diabo (o ditado não é assim, mas minha vida é).
*saiba mais apertando aqui.
*saiba mais apertando aqui.




