Sexta-feira é dia de convidados ilustres tratando de cinema no Borboletas (você lembra? começamos neste post aqui). Os queridos, vocês sabem: o Manuel e suas crônicas (a culpa das imagens e legendas é minha, a beleza do texto é dele) e logo a seguir, as inteligentes resenhas do Sérgio.
Temo que Robert Redford não se aguente*,
por Manuel Fonseca
Confesso: enganei-me. Há três anos, em conversa musculada e gritada com um amigo meu que é economista, jurei que a crise larvar de 2008 era o sonho húmido de um pessimista. Profético, berrei: “Vai passar! Vêm aí tempos de leite e mel.” O meu amigo, teimoso como burro, insistiu. E eu atirei um prato ao chão só para não lhe dar com ele na cabeça.
Queriam saber de quem é a culpa? É minha! Aquela conversa mudou o destino das finanças pátrias: o meu exaltado optimismo inchou o deficit; a dívida soberana tropeçou na minha descabelada ingenuidade. O meu amigo assustou-se e foi viver num resort, em Moçambique: pés descalços e preguiçosos, lânguido calção de banho, por vezes uma camisa havaiana, come lagostas com as mãos. Nem em Itapoã Vinicius sonhou gozar tardes destas, quanto mais dias: o Índico ali, estúpida e mansamente verde.
Portugal passa pelo que passa e a culpa é do irresponsável que redige esta crónica. Faça-se justiça, mereço a prisão. Em tirocínio, fui ver filmes. Fugi de obras-primas como diabo da cruz e escolhi um, honesto e competente, do bom ano de 1980.
Entrei em Wakefield, a prisão de “Brubaker”. Cheguei de autocarro, com mais condenados e Robert Redford. Também ele vem cumprir pena. Ele é Brubaker e esconde na farda de presidiário a identidade de novo director dos calabouços. É uma solução para futuros primeiros-ministros: começarem clandestinos pela cadeia.
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| Redford / Brubaker |
Ainda presidiário, o cabelo loiro de Redford vai pôr-se em pé com o que vê: um hediondo caldeirão de violência, corrupção. A administração é complacente e ociosa, os guardas regalam-se com a extorsão dos presos, comida que não se põe no prato de um cão, maus tratos a deixarem roxos os saudáveis olhos azuis de Redford.
É então que a identidade de Redford se revela. Para salvar Morgan Freeman, já a adivinhar a personagem de “Shawshank Redemption”. Todos ficam a saber que Redford, ou seja, Brubaker, é o novo director.
Chega, alvoroçada, a reforma. Brubaker traz mesmo ao colo a reforma: um punho para esmagar a corrupção intestina, uma faca lúcida para cortar as gorduras da prisão. Mas a prisão é mais do que a prisão. Volto aos cabelos louros de Redford, aos seus olhos azuis: o que os espanta agora não é a prisão, é a rua ou, como é que se diz, os interesses. Todos se cevam naquele porco: as seguradoras que seguram sem segurar, as construtoras que constroem para que caia, o comércio que fornece com desvios, mesmo os teóricos da reforma que “no sítio certo, dizem as coisas certas” com a condição de que não se estrague a teoria com prosaica execução.
Insisto, os idealistas olhos azuis de Redford, o seu cabelo dourado, não podiam imaginar que a prisão fosse tão vasta, uma cidade inteira, afinal. Receio que Redford não se aguente. Prisão por prisão, que se lixe “Brubaker”, ala para Portugal.
Passeando no 50 Anos de Filmes
Lendo a deliciosa crônica do Maneul, pensei em a) Robert Redford e b) filmes sobre as prisões e o que há de melhor nelas: fugir-lhes. Vi que o Sérgio não se exime de nenhum dos itens. Vamos pois a:
Todos os Homens do Presidente / All the President’s Men. É um filme admirável, impressionante. Ao revê-lo agora, três décadas e meia depois da primeira vez, fiquei muito impressionado – o termo é este mesmo – como o filme consegue prender a atenção, envolver, mesmo que o espectador já saiba de tudo da história, já conheça de cor e salteado seu final. É de fato fantástico, fascinante, como o diretor Alan J. Pakula e o roteirista William Goldman conseguiram contar uma história que todo mundo conhece bem, uma história que envolve política e jornalismo, duas coisas que muitas vezes são entendiantes, como se fosse um thriller, um bom filme policial. É um filme mais longo do que a imensa maioria – são 138 minutos, contra os habituais 90 ou 100 –, e passa rápido, como passam rápidos os grandes filmes. (leia o post todo aqui)
Um Sonho de Liberdade / The Shawshank Redemption. Extraordinário, magnífico, soberbo, fascinante desde a primeira tomada – um jovem banqueiro da Nova Inglaterra, Andy Dusfrene (Tim Robbins), sendo interrogado no júri, acusado de ter assassinado a mulher e o amante dela, intercalando com cenas dele em um carro se embebedando com um revólver na mão. O filme é impressionante por tudo. A história é riquíssima, cheia de sutilezas misturadas às obviedades das histórias sobre condenados vivendo em penitenciária; e que surpreende sempre com reviravoltas. Os diálogos são excepcionais, brilhantes, trabalhadíssimos, cheios de grandes verdades. A narrativa é clara, direta, mas se permite alguns brilhos. A câmara, cheia de planos longos com gruas que sobem e descem, zooms, uma beleza de se ver. Os atores, todos ótimos, mas sobretudo a dupla central, dois gigantes. (o post inteiro você lê aqui)



