sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A Palavra é...



Então, é isso, a palavra mais carinhosa da língua portuguesa é Morena (reclamações, protestos e divergências encaminhar para o guichê 1, atenção: formulário verde). Morena brinca na língua, pede um suspiro, escorre nos olhos. Morena se diz com um gesto de mão: meio convite, meio afago. Morena tem – implícitos – uma interjeição (ai) e um pronome (minha). Morena tem um “ai”, antes ou depois, não ouviram? Como se o simples existir da Morena fosse uma dorzinha daquelas de ser tão bom. Como se a Morena, sei lá, andasse por aí dando mordidinha no ombro. Ai, morena. É quase um protesto de se ser tão feliz. E Morena tem um “minha”, tem sim. Não de posse, uma Morena não se tem, mas de referência. Um “minha” que é mais anseio que certeza, que é mais pergunta que resposta, que é mais promessa que presente.

Morena é a palavra mais carinhosa da língua portuguesa. Nunca ouvi um morena que não seja de bem querer. Quem diz: Morena, fica com o doce na boca. Quem escuta Morena fica com arrepio na pele. Morena é palavra morna. E é rubra. É boa. Não se usa Morena pra repreender, ofender, magoar. Ninguém diz, irritado: “sua, sua...morena!”.

Penso Morena e lembro belezas. Lembro o Morena do primeiro menino, beijo em canto do muro, morena como se fosse um futuro possível. Não era. Lembro o Morena experimentado numa nova língua, vizinha língua, incerta da pronúncia mas ciente do sentido. Lembro o morena em outras vozes, morenas que eu fui em olhos em que me demorei menos do que devia.  

Morena é a palavra mais carinhosa da língua portuguesa. É úmida, fértil, jocosa. Palavra com ziriguidum intrínseco. Morena tem outros carinhosos ditos resguardados em si: chamego, cafuné, molejo, dengo, xodó. Morena tem passados. Morena tem memória. Da pele.

Morena by Boca Livre
Vem morena ouvir comigo essa cantiga
Sair por essa vida aventureira
Tanta toada eu trago na viola 
Prá ver você mais feliz
Escuta o trem de ferro alegre a cantar
Na reta da chegada prá descansar
No coração sereno da toada, bem querer
Tanta saudade eu já senti, morena
Mas foi coisa tão bonita 
Da vida, nunca vou me arrepender

Morena by Gonzagão
Vem, morena, pros meus braços. Vem, morena, vem dançar
Quero ver tu requebrando. Quero ver tu requebrar
Quero ver tu remexendo.
Resfulego da sanfona inté que o sol raiar
Esse teu fungado quente, bem no pé do meu pescoço
Arrepia o corpo da gente, faz o véio ficar moço
E o coração de repente bota o sangue em alvoroço...

Morena by Gonzaguinha
Espere por mim, morena, espere que eu chego já
O amor por você, morena, faz a saudade me apressar.
Tire um sono na rede, deixa a porta encostada
Que o vento da madrugada já me leva pra você.
E antes de acontecer o Sol, a barra vir quebrar
Estarei nos teus braços para nunca mais voar.
E nas noites de frio serei o teu cobertor,
Quentarei o teu corpo com meu calor
Ah, minha santa, te juro, por Deus Nosso Senhor,
Nunca mais, minha morena, vou fugir do teu amor.

Morena by Chico Buarque
Morena, dos olhos d'água, tira os seus olhos do mar.
Vem ver que a vida ainda vale
o sorriso que eu tenho pra lhe dar.
Descansa um meu pobre peito que jamais enfrenta o mar,
Mas que tem abraço estreito, morena, com jeito de lhe agradar.
Vem ouvir lindas histórias que por seu amor sonhei.
Vem saber quantas vitórias, morena, por mares que só eu sei.

Morena by Zeca Baleiro
Baby! I'm so alone, vamos pra Babylon!
Viver a pão-de-ló e möet chandon
Vamos pra Babylon!
Gozar! Sem se preocupar com amanhã
Vamos pra Babylon
Comprar o que houver. Au revoir ralé
Finesse s'il vous plait, mon dieu je t'aime glamour
Manhattan by night, passear de iate
Nos mares do pacífico sul...(...)
Ai, morena! Viver é bom, esquece as penas
Vem morar comigo em Babylon!

Morena by Vinícius de Moraes
Morena flor me dê um cheirinho, cheinho de amor
Depois também me dê todo esse denguinho que só você tem
Sem você o que ia ser de mim, eu ia ficar tão triste
Tudo ia ser tão ruim...

Morena by Vinícius de Moraes II
Morena, tem pena
Mas ouve o meu lamento
Tento em vão
Te esquecer
Mas, olhe, o meu tormento é tanto
Que eu vivo em pranto e sou todo infeliz
Não há coisa mais triste, meu benzinho
Que esse chorinho que eu te fiz
Sozinha, morena
Você nem tem mais pena
Ai, meu bem
Fiquei tão só
Tem dó, tem dó de mim
Porque estou triste assim por amor de você
Não há coisa mais linda neste mundo
Que meu carinho por você.


Morena by Paulinho da Viola
No samba de roda, morena faceira
Mexeu a cadeiras, foi um desacato
Tirou o sapato, dançou miudinho
E quase que mata um pobre mulato
(...)
Eu fui à Bahia, paguei a promessa
Estava com pressa, queria voltar
Mais uma morena, num samba de roda,
Me deu uma volta que me fez ficar.




quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A Passeio

Pergunta o Chico: e se de repente a gente não sentisse a dor que a gente finge que sente? Seria ótimo. É ótimo. Um exemplo fictício: a pessoa está no limiar, um tantinho de angústia, meia dose de tédio, um porção de solidão. E toca o telefone, ficticiamente. E, bem, só pode ser o seu jeito de dizer meu nome, ops, o nome da pessoa – imaginária, claro, que faz toda diferença e já tem um riso no olho e um brilho na boca, confundo-me, é o contrário, não importa, um brilho risonho que faz engasgar em palavras ligeiras.

Não é a primeira vez, claro. Você me sabe de um jeito que eu até me espanto. O conforto de estar ao seu lado. A cumplicidade. O morno. É tão certo. O que? Qualquer coisa. Nunca ter que prestar contas. Nunca ter medo. Nunca medir palavras. Ouvir: eu gosto de você. Eu senti saudade. Eu queria ouvir sua voz. Dizer: eu gosto de você. Eu senti saudade. Eu queria ouvir sua voz. E ser exatamente isso. Não menos. Não mais.

Porque eu vim ao mundo a passeio. E você está por aí, com tempo livre. São as coisinhas miúdas da felicidade. Como uma ligação no fim da manhã. Ou um livro pelo correio. Ou uma surpresa com violino. É isso, meu segredo: eu adoro violinos. São lindos, não são? A curva sinuosa, o jeito preciso com que se assentam sob o queixo, a postura que demanda um preparar para o abraço... Ah, e ainda tem o som que eles produzem. É mais ou menos assim: tum, tum, tum. Não, não, esse é o som do meu coração batendo um tantinho mais acelerado.

Pois é, se a gente não sentisse a dor que a gente finge que sente saía por aí cantarolando e sentindo em ternuras, calor, encanto, afeto – como eu:


No Clima

E por causa do Meme dos 30 livros (já me leu no Eu Sou a Graúna? Está acompanhando todo o povo que participa? Renata, do As Agruras e Delícias de Ser, a Rita, do Estrada Anil, a Niara do Pimenta com Limão, a Marília do Mulher Alternativa, a Cláudia do Nem Tão Óbvio Assim, a Mayara do Mayroses, a Grazi, do Opiniões e Livros, a Juliana do Fina Flor, o Pádua Fernandes do O Palco e o Mundo e a Tina, que me inspirou e escreve o sempre ótimo Pergunte ao Pixel) como eu dizia antes do parêntese enorme, por causa do meme dos 30 livros, dei uma arrumadinha em pensamentos antigos:

Hoje só tem prazer, riso solto, desfrute. Adoro essa palavra: desfrutável. Bonito, né? Alguns livros são assim: para o deleite. Livros que se fazem alimento do gozo. Livros tenros, pra serem apreciados não só com olhos, mas com mãos e boca e nariz. Livros pra ler com a pele. 

Eu, hoje, me quis livro. Ali, nas tuas mãos, revelar-me letra a letra. Como se o que já foi dito fosse futuros. Eu recordo no futuro do pretérito. Você ali, parado, e eu me despindo. Tiraria palavra por palavra. Em algumas letras me demoraria, entre excitada e encabulada, o rubor que você antecipa me cobrindo o colo, o rosto, os sonhos. Você ali, parado, e as palavras se amontoando no chão, meu pensamento nú, meu desejo explícito. Mas não, eu sei, os nãos se avolumam ocupando todas as prateleiras, todas as escrivaninhas. Os nãos fazem barulho. Não dizer que me roubaste o fôlego. O chão. Eu quase sei. Quase sei a tua mão virando a minha e tua língua brincando em meu pulso. Eu quase sei a mordida em minha nuca. Quase sei tua barba fazendo cócegas em minhas coxas. Quase, quase sei tuas mãos levantando minha saia só para me fazer corar. Mas não. É só por hoje, eu penso. Nem por hoje, eu grito. Mas se eu pudesse, faria todas as perguntas e saberia, talvez, o que é o impossível de nomear: o que você vê quando você não me vê? Você me adivinha? Antecipa textura, gosto, cheiro? Você anseia? O coração bate mais e melhor? Tem mãos de artista que percorrem um corpo que não está, reinventando-me no seu desejo? Tem dores e medos e planos? Tem saudades e vontades e vazios? O que você quer? de mim? Das minhas histórias? Onde você vai me encontrar? Em você? Em letras? No que não vê? Tateie. Ache. Pegue. Venha. Desfaça os laços da camisola ou os nós da história, mas chegue.


Um Piquenique pra Chamar de Meu

“A vida é como um sonho;
é o acordar que nos mata.”

Eu ando distraída pelo mundo. O “eu ando” não se refere a uma questão temporal, mas a um movimento permanente. Distraída é meu sobrenome secreto. Assim, tenho uma leve tendência à irreverência, sou um pouco como o Odilon, não pego bem a proposta e acabo em situações inusitadas. Esse preâmbulo é pra justificar meu desvario. Bom, eu estou no twitter (mal e porcamente, já que não sei usar a metade das ferramentas e nem entendo as gírias). Por lá, muita gente divertida, muita interação sagaz. Papo vai, papo vem, enxerida como sou, acabei me metendo numa conversa da Renata. Reparem, só porque tinha na frase clube (ou seja, ruma de gente) e leitura (ou seja, livros) já fui me oferecendo: quero brincar. Generosa, Renata topou e me incluiu. Só depois eu vi o tamanho do desassossego. É que as companhias são do mais alto gabarito. Não é leitura assim, como eu faço, só pra gozar mesmo. Não, é outro nível, metalinguagem, tradução, reconstrução e vários outros aspectos que eu nem sei nomear. Bom, quem mandou ser oferecida? Tá na chuva é pra se molhar. Isso tudo e não disse ainda de que se trata: ler Virgínia Woolf, mas especificamente Rumo ao Farol.

Fui direto pra minha prateleira, eu sabia que tinha um exemplar de Rumo ao Farol em uma tradução portuguesa herdada do meu orientador. Esqueci que, como muitos dos meus livros queridos, este anda na casa de alguém ainda mais querido que o livro. Em outra cidade. Com pouca previsão de volta num prazo curto. Comprei outro no sebo. Dei sorte e a tradução é brasileira.

Primeiro, um pouco de “eu e ela”. O certo é que não sei nada. Não sei quando foi que li meu primeiro VW nem sei qual foi. Foi, certamente, depois da minha primeira Clarice e antes do meu primeiro Faulkner. Não lembro minhas primeiras impressões, como me senti, nada. Sei de hoje. Basta ler o nome da lombada e já sinto um arrepio. Não importa se é nova leitura (comprei no mesmo sebo o antes apenas folheado na casa de amigos Um Teto Todo Seu) ou se é reencontro (quem vive sem reler Orlando de tempos em tempos?). Sei, também, que eu já a sabia em morte antes de conhecer-lhe as letras. A culpa é da Sylvia Plath, claro. Porque matou-se e colocou no meu olhar essa procura. VW foi, antes, pra mim sua história. E que dolorida que é.

O que eu devia dizer era só: entre eu e ela, a liberdade. Que sinto. Que perco. Que encontro. Que preciso.

Minhas credenciais pra participar do clube, assim, meio de longe: nunca estive em uma proposta tão sofisticada intelectualmente, não leio em inglês, não fiz curso de Letras, leio rápido e várias coisas ao mesmo tempo. Vou de um post por semana (espero).


O Clube, lá onde ele acontece: To The Lighthouse  
Os participantes: Renata Lins, Denise Bottman, Fabiano Camilo   
Chegando ao Farol, por um caminho ou por outro: euzinha e a Rita.



terça-feira, 13 de setembro de 2011

Espaços

Sabe o coração inquieto? Trago-o cansado hoje. É que bateu por muito tempo e forte demais, aprendendo a soletrar teu nome em sons. Era um coração grande, mas tão leve que não me custava levá-lo. 

Você lembra? Te cabia inteiro e com folga, você chegou discreto, pedindo licença, desacostumado à liberdade de ir e vir. Foi ficando, foi ficando e daí passou a trazer visita, fazer bagunça, deixar a porta aberta...eu nunca me incomodei, meu coração era de mãe joana, coração festeiro, pra muita gente. Mas já não era tão leve, você trazia uma bagagem imensa, malas de memórias, baús de historietas doloridas, sacolas repletas de imagens que eu fui aprendendo a carregar junto. Tão cheio que você passou a reclamar do espaço. E a ficar mais tempo fora. 

O coração de tantos vazios estava entulhado de saudades, de quem você era, de quem eu era, de quem nós éramos. Tão cheio que já nem te cabia. Não cabia ninguém. Fechei a porta, por dentro. E usei o incinerador. 

Hoje, eu nem o reconheço, ainda é amplo, mas vazio, paredes nuas, cheirinho de fumaça, nem malas, nem sacolas, nem baús, nem você. Você voltou, displicente, girou o trinco, forçou com o ombro, inquietou-se. Lembro os sonoros “oláaasss” pela fechadura, como convocando o nada a te dar passagem. Trinquei os dentes e deixei vedado. 

Você não entrou e eu conheci a paz. Foi bom, bem vindo o silêncio. Bem vindo o sereno dos dias e a tranquilidade das noites. Enganei-me com o hall. Passei a deixar todo mundo na sala de espera como se fosse esse o lugar de pouso. Não há mais hóspedes, não há inquilinos. Ninguém entra faz tempo. Em algum momento, perdi a chave, mas nem me importei, não precisava dela. 

E hoje, pelas frestas, vejo o oco. 

Niver do Rafa

Que a vida lhe seja generosa, que a terra lhe seja farta e que as pessoas lhe sejam próximas. Que o pensar e o sentir se entrelacem em gozos e que em seu juízo façam som. Que haja riso, muito e sempre. Que haja amor.


sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Ajoelhou...

Há muitas formas de contar uma história. Qualquer história. A nossa história. Em um conto curto e de final aberto. Em uma novela tensa e de final dramático. Pode-se contar em quadrinhos onde nossos ridículos funcionem como motor da trama. Há tantas formas de chegar onde não fomos que eu apenas recosto na janela e escolho dizer: doeu. Naquele dia em que você pôs o vazio no lugar do futuro, doeu. Mas, agora, eu sei, percorrendo meus espaços, que é apenas mais uma vereda em mim. O que não me impede de sussurrar, como se tivesse joelhos mais bonitos do que tenho...



" O senhor poderia me dizer, por favor, qual o caminho que devo tomar para sair daqui?”
“Isso depende muito de para onde você quer ir”, respondeu o Gato.
“Não me importo muito para onde…”, retrucou Alice.
“Então não importa o caminho que você escolha”, disse o Gato.
“…contanto que dê em algum lugar”, Alice completou.
“Oh, você pode ter certeza que vai chegar”, disse o Gato, “se você caminhar bastante.”
“Alice sentiu que isso não deveria ser negado, então ela tentou outra pergunta.
“Que tipo de gente vive lá?”
“Naquela direção”, o Gato disse, apontando sua pata direita em círculo,” vive o Chapeleiro, e naquela, apontando a outra pata, “vive a Lebre de Março. Visite qualquer um que você queira, os dois são malucos.”
“Mas eu não quero ficar entre gente maluca”, Alice retrucou.
“Oh, você não tem saída”, disse o Gato, “nós somos todos malucos aqui. Eu sou louco. Você é louca.”
“Como você sabe que eu sou louca?”, perguntou Alice.
“Você deve ser”, afirmou o Gato, “ou então não teria vindo para cá.”

É isso. Se eu fosse outra, não estaria aqui. Mas estou. Que horas é o chá?
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