Um aviso: eu exagero.
Mas não mordo.
A não ser que peçam, claro.
Aproveitem, estou ficando banguela.
A saudade, mais do que dói, assusta. O amor, assim como a piedade, corrompe. Ele não obedece ordens, nem se submete, a não ser por assim o desejar. Estou perdida no hiato entre teu corpo e o meu, na distancia entre o que pulsa e o que é, no indecifrável da palavra que não se pode dizer.
Estou menina. Vulnerável. Estou exposta e solitária, no porto, açoitada pelo vento e encharcada de mar e de anseios. A noite, enegrecida de dores e desejos inconfessos, confunde-se com meus olhos de onde se ausentaram lua e estrelas. Estou imensamente vazia. Plena de espaços. Desejo permanecer te esperando. Mas sigo, porque, para te encontrar, é preciso sair de onde me procuras. É claro, preciso de força. Fortalecida sucumbirei mais rapidamente. Levanto-me. Parto, embora seja o navio que se distancia. Minha raiz é meu percurso. Esculpida numa rocha à beira mar, viajo em interiores. Alimento-me de memórias. Reinventar meus sentimentos é a única forma de preservar a verdade. É como ficção que posso te amar. Vou me enredando, então, na histórias que desaprendi a contar. Vivendo assim, uma história dentro de outra história. Como se fosse possível escolher. Decidir.
Eu invento: resolvi escrever uma história sobre uma mulher. É tão simples, traços no branco são letras e já posso respirar. Riscos de mim, mas insisto: a história de uma mulher. Porque? Porque hoje amanheci pensando nela. Nessa mulher. Uma qualquer, claro. Então, era uma vez. Era uma vez uma mulher. É preciso que se diga: era uma vez é uma coragem. Isso de viver, como disse o Kundera, sem ensaio, sem esboço. Rascunho nenhum. Mas, agora, era uma única vez essa mulher e nenhuma outra. Uma mulher comum. Uma mulher alegre. Uma mulher de filmes, panelas, amigos. É só isso: era uma vez uma mulher que só tem de especial ser uma. Porque já foi tantas, hoje pode ser essa história. Uma mulher comum que escrevia um blog. Pronto, começada a narrativa, a mulher se faz em nuances que já me escapam: era uma vez uma mulher comum que escrevia um blog e resolveu escrever, certa madrugada, um post sobre uma mulher. E, porque tinha coragens, escreveu assim: era uma vez uma mulher comum, uma mulher alegre, uma mulher de livros, panelas e amigos. Que escrevia blogs. Que lia blogs. E que, de repente, deu pra esperar. É isso, o comum também tem sombras. Tem vontades. O comum dessa mulher tem um desejo que pode virar história. Ou dor. Ou pranto que é o jeito do dizer se fazer sal. Essa mulher, a que espera, nada sabia do inquietar-se à janela. Nada sabia do espreitar palavras como se anseia por um olhar. Não sabia que se podia ficar esperando sem saber o quê. Era uma desavisada a moça dos blogs. Ela é das que se perde, antecipo. Das que não cabem em seu corpo e o estendem sempre em direção ao outro.
Então, nos perdemos? Acho que não: eu escrevo sobre uma mulher, uma mulher comum que tem um blog e que escreve sobre uma mulher, uma mulher comum que tem um blog e que não sabia esperar. Aí, um dia. Uma pequena janela de dizeres. Uma frase no meio de outras frases. Uma palavra no meio de outras palavras. Desassossego. Pronto. Ponto. E ela soube. Soube das janelas, das esperas, das palavras que tiram o sono. E, de tanta ansiedade e de tanto saber, fez a única coisa que podia: escreveu. Disse coisas como: quero tergiversar. Ou, talvez, disse: eu espero. São tantas as formas de dizer as únicas coisas que dizemos: eu amo, eu morro. Eu vivo. Eu, viva. Ou ainda: ela, a mulher da história da mulher do blog que é minha. É aí que a mulher que escreve sobre a mulher que escreve, pára. Essa mulher pensa: que enxerida! E se constrange de sua personagem ser assim tão atirada. Mas logo a perdoa: ela também é uma louca. Porque escrever assim é um desnudamento da alma e desnudar-se não é seguro. Eu mesma sou das que flertam com abismos. Das que mergulham de olhos abertos. Das que desenham com estilete na alma. Das que choram em tinta preta.
É mesmo a vertigem das letras que atrai as três: a mulher que espera e escreve blogs, a mulher que escreve a mulher que espera e escreve blogs e eu, que tanta ternura tenho e acordei pensando nelas e encosto meu dedo nas teclas como se pudesse ser uma forma de abraço. Embora eu saiba dos vazios: do querer, do dizer, do viver. A mulher que escreve continua: a mulher que espera se angustia: de tanto saber passa a desconhecer-se. E dói. E ela, a mulher que escreve como quem se debruça na janela, aguarda, pois já não sabe escrever outra coisa. Ela se repete, letra letra faz caminhos que ninguém percorre. A mulher que escreve o post sobre a mulher que espera e escreve, pára, outra vez. Ela também se repete, ela sabe. Também se faz em percursos de paisagem desolada. Revira os olhos, ela é assim, tem manias, pequenas e amáveis manias de mulher gentil. E fica pensando nas dúvidas que ela mesmo criou para a mulher que espera: terá ela se enganado? A mulher na janela tem perguntas que nenhuma das duas pode responder. A mulher que espera porque só poderá saber o que a mulher que escreve lhe permitir. A mulher que escreve porque não tem certezas, só interrogações e uma xícara de café quase esquecida bem perto da mão. Ela quase esquece a outra mulher, a mulher que ela escreve e se lembra do Homem e se pergunta: então, se soubesse fazer poesia? Ela se lembra: Adélia, e é com palpitações que recusa memórias de todo amor feinho. Se soubesse, ela diria como Adélia.
Seu pensamento em um susto volta pra mulher que espera, espera tanto, espera até mesmo a escrita da mulher que escreve. Porque é presa à sua história. Que ainda não é toda, como – aliás – todas as histórias. Não toda, incompleta – se sabe a mulher que espera. A mulher que escreve a mulher que espera também sabe. Também oco. E eu, que penso escolher a história que quero contar mas só sei apontar as entrelinhas do que nem é, sei: fica faltando um pedaço. Reconheço: eu ainda estou aprendendo. Aprendendo a não viver o grande amor da minha vida. Aprendendo a não inventar realidades para que elas não existam. Aprendendo a escrever roteiros diferentes. E aprendendo que eu posso gostar. Estou aprendendo a não segurar na mão, a não recostar no ombro, a não pedir por favor. Estou aprendendo a não caber em uma mão. Aprendendo a não ir. Aprendendo a não agradar. Aprendendo a não escrever cartas de amor. Nem bilhetinhos. Aprendendo a não ter o que dizer. Estou desaprendendo o meu amor. Ou aprendendo o desamor. O certo é que estou na estrada.


