quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Dói*


Então, dói. Dói muito, sabe. E mesmo que alguém segure minha mão e eu tome sopa, tudo parece muito frio aqui dentro, como se nunca mais fosse haver um riso, um sol, um morno. Dói. Dói muito. E vai continuar doendo, porque eu ainda vou olhar pro lado ao ouvir uma coisa interessante querendo repartir isso com você. Ainda vou esperar sua risada, vou  planejar sua chegada nos fins de semana, vou procurar seu abraço nas noites de Ano Novo, vou precisar seu consolo quando as coisas não derem tão certo, eu ainda vou querer lhe contar que isso ou aquilo e que fiz e sim, deu certo e você, bom, você não vai ouvir, nem ver, nem saber, nem abraçar, você não vai estar aqui pra mim e isso dói. Dói muito.

Então eu me encolho e percebo que sou tão miúda mesmo. É isso: sua ausência me faz pequena. Faz tudo ficar menor: os amanhãs, os sonhos, os encontros, as festas. Só as memórias ficam enormes. Você lembra? era o que eu queria dizer agora e aí riríamos e as lembranças seriam em lista: aquele dia, aquela hora, aquela música, aquele medo, aquele encontro. Tudo com você era tão mais forte. Mas eu não vou mais dizer nada pra você e esse nada é tão enorme e voraz que seca minhas lágrimas e faz o árido no peito. 

Eu finjo. Eu digo: consigo, e vou fazer as coisas que precisam ser feitas, mas pelo canto do olho eu vejo que ainda estou ali, no canto, encolhida, gelada, doída. Eu finjo: lavo um copo, coloco a comida no fogo, abraço alguém. Consolo. Eu minto pra mim mesma: vai ficar tudo bem e a dor doendo. Não vai, não vai ficar tudo bem, você não está mais e dói. Mas alguma coisa ficará bem. Um dia. Que não é hoje, hoje dói.


*Eu queria fazer, de linhas e letras, abraço e presença.
Porque, você sabe, eu te quero tanto bem.


Este post foi escrito pensando na 
minha amiga amada Mari Biddle.
Queria ter um jeito de amenizar sua dor.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Quarto de Hotel

Porque há beleza, também,
em não me fazer tempestade.

Antarctica, né?

Duas noites. Alegria, alegria. Eu sempre me sei no seu sorrir. Eu sempre me escuto na sua voz. Eu sempre me entendo no barulhinho da latinha sendo aberta, da batucada na mesa, da tua respiração mais pesada que a minha. Que importa que você não seja o enfim? eu não quero escrever histórias, quero é comprar passagens. Quero é pegar estrada, quero é quarto sem vista pro mar, sem janela, sem porta, casa muito engraçada feita de cerveja, riso e suor. Quero é cama, pele e música. Quero é seu gosto de cigarro. E sua mão fazendo cócega no meu pé. Quero é você rindo das minhas perguntas e ensinado a mesma coisa vezes e vezes, como se o hábito de inventar desculpas pra ficar perto fosse um objeto antigo que tivéssemos prazer em guardar. Quero é acordar com tua perna pesando na minha, tua barba reescrevendo vontades no meu ombro, tua voz cantada trazendo um Nordeste que é tão meu e tão outro. Quero é fazer do quando, agoras. E fazer, de recifes, portos de ancoragem. Outra vez.

Sombra
Em inocente desinteresse, anuncio: relacionamentos começam onde terminam, em uma recusa de respirar. Amar tira o fôlego. Morrer também. Eu já não faço planos, eles é que me fazem, em juras de desenganos eternos enquanto duram. Eu gosto de mentir. De dizer: hoje, quando eu sei que é nunca. E dizer sempre, quando sei que é agora. Eu escolho a desesperança tatuada de gozos. Tudo acaba, tudo acaba, tudo acaba, enquanto repito isso, isso não cessa. Mas eu respiro e é, de novo, o novo. Não sei o que há no fim do percurso, no meio do labirinto, na margem da estrada, piso em estilhaços de vidro: o espelho que te prendia, e desconfio que isso tudo me leva tão longe quanto se possa estar de alguém, ou seja, bem dentro e bem fundo.

domingo, 7 de agosto de 2011

My Way

Do meu jeito: feliz. 





Noite
E você voltou com suas frases duras, seu olhar direto, seu desejo cru. Você voltou com a ausência de futuros e vazio de promessas, você voltou com sua previsível distância, com o jeito firme de me manter no lugar certo: nos seus braços. Voltou e eu fiquei tão contente que me permiti ir longe com você, tão longe que já nem sei onde eu devia estar. Minha única bússola é teu querer. Perdida, é sempre assim com você: sem rumo, sem orientação, sem regra. Você voltou e eu só queria que você ficasse e você ficou. Você ficou, sinto seu gosto na ponta dos dedos, da língua, dos sonhos. Você voltou e não me pediu nada, você nunca pede, é tudo seu, seu, seu, sempre, tão certo isso de você dizer: abra os olhos, o coração, as pernas. Você voltou e eu nem disse: senti tanto a sua falta.

Madrugada
Moço bonito, é assim que sempre pensarei em você. Moço bonito com seu violão, com sua sede, com seu cigarro no canto da boca. Bonito. Bonito de ver, de ouvir, de ter bem junto. Ficamos sempre a uma passo de alguma coisa, eu só não sei se um passo à frente ou atrás. Sei que queremos nos agradar e nos agradamos sem querer. Gosto do seu jeito sério de me desejar, de me achar, de ser inesperadamente doce. Gosto de não ter nada pra dizer e, ainda assim, ficar a noite toda por perto.  Só pra estar junto. Gosto quando você me pede voz e imagem e me dá matéria e me tira de mim mesma e me faz corpo. Um corpo pra você, moço bonito.




Qualquer Hora
A noite, enorme. A fome, enorme. Não há luas em mim. Nenhuma luz. Um viver maior que eu me oprime e mesmo a beleza só é percebida em memória. Em surpresa, recebo-te na noite. Eu precisava tanto. E vieste. Como um abraço, as boas palavras. Que foram se fazendo calor e intimidade. Leve, tua mão é leve ao pousar na lembrança e brincar de despertar os sentidos. A fala desenha caminhos e o corpo se faz estrada, percorre-me, eu diria se alguma coisa fosse dizer. Mas calo e só quem fala é a fome. Enorme.

Outra Hora
Eu vejo o nada. É ele que acena o impossível e põe luto no peito. O nada é que me revira. Avesso. O nada é que trava o soluço. O nada é que zomba. O nada, eu o sei em tuas sombras. Onde estiveste um pouco antes e onde eu estarei sempre.À procura. Vazia de ti. Desculpe por nada.



Última Hora
E hoje eu vi House e a moça que morria (Amber) disse: raiva não é a última emoção que quero sentir. Nem eu, moça, nem eu. 



Arranquei meus olhos e pus nas tuas mãos.
Doía mais não saber onde fazê-los encontrar os teus.


quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Apenas Isso

Já é agosto e eu devia colocar a casa em ordem. 
Ou, pelo menos, o corpo.
Sendo menos ambiciosa,  uma parte dele: o coração.

O que você não sabe sobre o meu coração:


- anda dolorido de tanto bater;
- ele não é de papel*;
- tem espaço para puxadinhos e vista para o mar;
- é suburbano e a dona já não tem vergonha**
- já o arranquei tantas vezes do peito que o corte não cicatriza mais e ficou estranho usar decote;
- ele faz batucada nas noites de lua;
- sabe soletrar teu nome e mandou fazer uma tatuagem... torço pra que seja de henna.
- comigo a anatomia ficou louca, eu sou toda coração***

Se eu pudesse ser outra, 
seria tua.


Das palavras que se tornam abismos:
- saudade
- apaixonada
- dormir
- eu lembro
- você quer
- quando
- eu não sabia


Estou quebrando a dieta
tenho fome de lembranças.

Dos livros que saíram da estante para me acompanhar esta semana:
- De Profundis: porque Oscar Wilde sabe bem dizer como nos sentimos abandonados ao amar.
- O Amor é um Cão dos Diabos: porque Bukowski em relembra que sentir é abandonar-se mas não só;
- Baudolino: porque ler Umberto Eco me faz sentir amor por mim mesma;
- Histórias Extraordinárias: porque não sou uma mulher séria e Poe não me deixa mentir
- Morte no Paraíso: porque é bom ser assombrada por Zweig e suas borboletas grandes demais.

Ando sangrando mar.
A espera, descobri, é azul. 


Das palavras que eu queria ouvir de novo:
- fazes-me falta;
- tua doçura
- eu vou com teu gosto na boca
- a cor das pálpebras da moça
- Um beijo (cheio de saudades) (a sério)




Outras Confissões
Hoje acordei míope. Porque, descobri, ainda tenho 18 anos e toda a velhice que havia em mim já não é mais e eu sinto tanta falta de ser velha. Eu quero meus anos todos e quero mais, por favor, senhor relógio, dá-me logo o conforto de ficar de mãos dadas na varanda sem perguntas a não ser se é hora de passar o café.




Tem dias que eu só queria saber que é fácil.
Que chega. Que dá.
Tem dia que eu só queria não saber

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Quereres

Queria, como na canção, rodar as horas pra trás e deixar-me mais um tempo a vadiar no teu dizer. Queria ter essa risada que me distrai ao pé do ouvido. Queria fazer reais os beijos espalhados pelas palavras. Sem nenhum talvez, confesso: queria renovar o estoque de vinho. Queria saber suas mãos, pele, olho. Sua língua, queria sabê-la inteira. Queria tanto que o querer se inscreve no corpo. Que o querer escreve. Assim: quero. Eu queria confessar um amor imenso. Dizer, como quem morre: eu amo você e ter a exata medida do sangue batendo no pulso e sentir como se o segundo seguinte não fosse chegar nunca e a dor fosse a única forma de me saber eu. Queria perder-me em seus olhos e achar que todos os futuros serão nada. Queria acertar meu passo com o seu e suspirar ao ouvir tua voz, teu violão, teu nome. Queria sonhar seu cheiro e reinventar tua barba no meu rosto: macia. Escreveria cartas inocentes e sussurraria obscenidades olhando a lua e pediria, como quem reina: fica. Comigo, mais, aqui. Queria marcar sua passagem, desenhar as trilhas, mapear desejos. Queria te saber de madrugada, pernas enlaçadas ou telefone na mão para indagar: então, dormia? Como se perguntar fosse saber-te, como se todas as respostas fossem sim e o querer bastasse. Queria querer-te. Isso é quase amor, insisto, enquanto arrumo tua mala para partidas que antecipo. Enquanto quero, já renego as solidões que seu amor me oferece. Eu escolho minha vermelha hemorragia à sua antisséptica precaução. Eu preferia que não fosse quase - e doesse. Preferia o ferro em brasa e a carne viva. Eu escolho o sentir tanto que o peito não me cabe e não esta dorzinha fina de arrancar a casca da ferida. Porque, mesmo agora, tua mão feito ninho, teu suor na minha pele e a alegria entre as coxas, eu sei: não era você, ainda. Não era sua mão, seu cheiro, sua voz. Não era sua boca e sua saliva, embora tivesse sabor tão parecido. Não era seu corpo, não era sua hora. Embriagada de tempo, abri com chave certa a errada porta. Talvez você nunca seja. Talvez já tenha sido quando eu não disse o possível eu te amo. Talvez eu tenha errado a esquina. A hora. Talvez eu tenha ignorado o sinal, ignorado os letreiros e descido no ponto errado. Talvez. 
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