quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Apenas Isso

Já é agosto e eu devia colocar a casa em ordem. 
Ou, pelo menos, o corpo.
Sendo menos ambiciosa,  uma parte dele: o coração.

O que você não sabe sobre o meu coração:


- anda dolorido de tanto bater;
- ele não é de papel*;
- tem espaço para puxadinhos e vista para o mar;
- é suburbano e a dona já não tem vergonha**
- já o arranquei tantas vezes do peito que o corte não cicatriza mais e ficou estranho usar decote;
- ele faz batucada nas noites de lua;
- sabe soletrar teu nome e mandou fazer uma tatuagem... torço pra que seja de henna.
- comigo a anatomia ficou louca, eu sou toda coração***

Se eu pudesse ser outra, 
seria tua.


Das palavras que se tornam abismos:
- saudade
- apaixonada
- dormir
- eu lembro
- você quer
- quando
- eu não sabia


Estou quebrando a dieta
tenho fome de lembranças.

Dos livros que saíram da estante para me acompanhar esta semana:
- De Profundis: porque Oscar Wilde sabe bem dizer como nos sentimos abandonados ao amar.
- O Amor é um Cão dos Diabos: porque Bukowski em relembra que sentir é abandonar-se mas não só;
- Baudolino: porque ler Umberto Eco me faz sentir amor por mim mesma;
- Histórias Extraordinárias: porque não sou uma mulher séria e Poe não me deixa mentir
- Morte no Paraíso: porque é bom ser assombrada por Zweig e suas borboletas grandes demais.

Ando sangrando mar.
A espera, descobri, é azul. 


Das palavras que eu queria ouvir de novo:
- fazes-me falta;
- tua doçura
- eu vou com teu gosto na boca
- a cor das pálpebras da moça
- Um beijo (cheio de saudades) (a sério)




Outras Confissões
Hoje acordei míope. Porque, descobri, ainda tenho 18 anos e toda a velhice que havia em mim já não é mais e eu sinto tanta falta de ser velha. Eu quero meus anos todos e quero mais, por favor, senhor relógio, dá-me logo o conforto de ficar de mãos dadas na varanda sem perguntas a não ser se é hora de passar o café.




Tem dias que eu só queria saber que é fácil.
Que chega. Que dá.
Tem dia que eu só queria não saber

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Quereres

Queria, como na canção, rodar as horas pra trás e deixar-me mais um tempo a vadiar no teu dizer. Queria ter essa risada que me distrai ao pé do ouvido. Queria fazer reais os beijos espalhados pelas palavras. Sem nenhum talvez, confesso: queria renovar o estoque de vinho. Queria saber suas mãos, pele, olho. Sua língua, queria sabê-la inteira. Queria tanto que o querer se inscreve no corpo. Que o querer escreve. Assim: quero. Eu queria confessar um amor imenso. Dizer, como quem morre: eu amo você e ter a exata medida do sangue batendo no pulso e sentir como se o segundo seguinte não fosse chegar nunca e a dor fosse a única forma de me saber eu. Queria perder-me em seus olhos e achar que todos os futuros serão nada. Queria acertar meu passo com o seu e suspirar ao ouvir tua voz, teu violão, teu nome. Queria sonhar seu cheiro e reinventar tua barba no meu rosto: macia. Escreveria cartas inocentes e sussurraria obscenidades olhando a lua e pediria, como quem reina: fica. Comigo, mais, aqui. Queria marcar sua passagem, desenhar as trilhas, mapear desejos. Queria te saber de madrugada, pernas enlaçadas ou telefone na mão para indagar: então, dormia? Como se perguntar fosse saber-te, como se todas as respostas fossem sim e o querer bastasse. Queria querer-te. Isso é quase amor, insisto, enquanto arrumo tua mala para partidas que antecipo. Enquanto quero, já renego as solidões que seu amor me oferece. Eu escolho minha vermelha hemorragia à sua antisséptica precaução. Eu preferia que não fosse quase - e doesse. Preferia o ferro em brasa e a carne viva. Eu escolho o sentir tanto que o peito não me cabe e não esta dorzinha fina de arrancar a casca da ferida. Porque, mesmo agora, tua mão feito ninho, teu suor na minha pele e a alegria entre as coxas, eu sei: não era você, ainda. Não era sua mão, seu cheiro, sua voz. Não era sua boca e sua saliva, embora tivesse sabor tão parecido. Não era seu corpo, não era sua hora. Embriagada de tempo, abri com chave certa a errada porta. Talvez você nunca seja. Talvez já tenha sido quando eu não disse o possível eu te amo. Talvez eu tenha errado a esquina. A hora. Talvez eu tenha ignorado o sinal, ignorado os letreiros e descido no ponto errado. Talvez. 

domingo, 31 de julho de 2011

Das Des-Razões Do Amor

Porque a gente ama? É sempre difícil falar de amor. Diz Lacan que é impossível, mas é do cerne do humano e, ainda mais, do âmbito da psicanálise, tratar do que não se pode falar. É impossível falar de amor, talvez, porque dizer do amor é dizer da falta que o estrutura e da entrega que o mantém: "amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer". Não quer porque o que lhe falta não é o mesmo que nos faz incompletos e que supomos que ele anseie. Assim, oferecemos o que sobra ao Outro pensando suturar uma ausência. O amor remete ao vazio e é pelo vazio diariamente convocado.


O amor vem falar do que nos diferencia, do que nos faz únicos: o meu amor sou eu, irrepetível. A falta que se faz amor é constitutiva do ser humano. O amor é pra trás, está lá, na memória, o amor é mais bonito quando acaba, depois que foi. Chegamos atrasados ao nosso amar, é isso. Procuramos nos alcançar e ao que sentimos, mas quando damos nome, quando batizamos o sentir, é aí que o perdemos, porque o que podemos falar não consegue dizer de tudo que é.

E, ainda assim, insisto. Estes dias revi dois filmes que me lembraram o que amo ou, ainda, porque amo. Há dois homens, e eles são – concomitantemente – iguais e tão distintos quanto se pode – aparentemente - ser. Will Kane e Rooster Cogburn, respectivamente Gary Cooper e John Wayne. Ambos já não são jovens, vemos em seus rostos o cansaço de uma vida difícil. Ambos têm uma tarefa a cumprir. Will Kane é um delegado prestes a passara bola que se depara com uma situação conflituosa ressurgida do passado, Rooster Cogburn é um agente federal que aceita o trabalho de procurar e capturar um fugitivo em território indígena. Wiil Kane é um homem ilibado, ético, determinado, impecável e reconhecido por todos como gente boa. Rooster Cogburn é um bêbado, um tanto violento, displicente e com moral frouxa.

Bom, eu preciso falar de Matar ou Morrer, primeiro. Will Kane acabou de casar (e com Grace Kelly, linda, o preto e branco realçam seus traços perfeitos) e entrega o distintivo determinado a se tornar dono de loja em outra cidade pra agradar a esposa. Entretanto, antes de ir-se, recebe a notícia que um pistoleiro que prendeu 5 anos antes foi solto e que ele e seu bando estão chegando à cidade - e não com boas intenções. São 10:40 e o pistoleiro chegará no trem de meio-dia. Daí em diante é uma jornada de solidão. Todos insistem para que Will fuja, mas seus senso de dever não permite. Ele vai sendo abandonado por todos: os ajudantes oficiais, os valentões do bar, os respeitáveis frequentadores da igreja, os amigos... até a recém-esposa compra uma passagem no trem que vai partir. E ele lá, forte, firme, decidido a lutar e morrer pelo que acha certo. A cidade o abandona, mas ele não abandona a cidade (ai, como é lindo este filme que tem uma canção tocante e decorre todo ele em tempo real e apresenta relógios onipresentes). Poucas vezes se conseguiu traduzir a angústia, o desamparo humano tão fielmente como aqui. O rosto de Gary Cooper transmitindo surpresa ante o comportamento dos demais, resignação, coragem, tristeza, ah, como um rosto pode ser todos os possíveis?

O outro homem que me comove tem uma bravura indômita. Ele não tem moral inatacável, muito pelo contrário. Sua comunidade o repudia, mas é ele o indicado quando se pergunta por alguém realmente valente. Rooster é acostumado a abandonar, a mentir, até roubar. Ele não é um mocinho. E, ainda assim, quando é preciso, é com ele que se pode contar. É ele que está sempre lá quando Mattie necessita. Ele tem um olhar severo, mas generoso. Ele sabe admirar a coragem no outro (no caso, na outra). Neste filme, Mattie é uma mocinha com um pensamento fixo: capturar o bandido que matou e roubou seu pai. Pra isso contrata o velho e já baqueado Rooster.  Juntam-se a eles um texano que procura o mesmo bandido – por motivos diversos. Rooster tem comportamentos que não estamos acostumados a ver nos mocinhos, como dizer: "Dispare antes, do jeito que puder, e pergunte depois se o adversário quer se entregar vivo." Rooster e Mattie se respeitam. Admiram-se. Comovem um ao outro. Há horas em que Rooster podia desistir, abandonar Mattie, mas ele não o faz. Ele não a deixa, ele se mantém com ela. Gosto do jeito como se alternam ternura e dureza no olhar que Wayne dedica à pequena Mattie e à sua auto-imposta tarefa. Na memorável cena em que ele prende as rédeas no dente e parte num duelo com quatro pistoleiros, ah, que tocante que é. Quase tanto como os momentos em que ele sacrifica tudo pra carregar Mattie até o médico.

Kane e Rooster são os homens que amo em cada homem que eu amo. Eu amo o andar angustiado de Kane e o gingado insolente de Rooster. Amo o abraço generoso de Kane e a cavalgada solitária de Rooster. Por baixo do tapa-olho, da estrela de latão, por baixo do silêncio eloquente ou da conversa bêbada, estão eles: homens que se sabem comprometidos com algo além deles, além de mim, além do óbvio. Algo que não se consegue definir com precisão mas se reconhece em situações extremas. Eu os amo no seu amor pela sua missão. Pela sua coragem e pelo conhecimento dos seus limites e da necessidade de ultrapassá-los.

Há um poeta inglês do séc. XVII, Lovelace, que termina sua poesia - To Lucasta, going to the Wars, assim: I could not love thee, Dear, so much, Loved I not honour more; que eu entendo assim: não te amaria tanto, querida, não amasse mais a honra (se não for isso, não me corrijam, por favor, rá). É isso que amo nos homens que amo: essa convicção interna, esse núcleo seguro, essa ternura revestida em coragem. Essa independência. Amar estes homens não e fácil, demanda a certeza de que no amor não é matar ou morrer e sim matar e morrer e, pra isso, só mesmo com bravura indômita.  


PS. Meu querido Sérgio escreveu, inteligentemente e com maestria que me falta, sobre esses dois filmes no seu excelente 50 Anos de Filmes. Aqui estão os links: Bravura Indômita e Matar ou Morrer.



sexta-feira, 29 de julho de 2011

Por Todos os Lados..e Outros

Você conhece o Leo? Se anda por aqui e é um tantinho curios@, sim, porque eu já falei dele e do programa Palavra Inquieta. Eu gosto tanto do Leo e um tanto disso é porque nós divergimos em muita, muita coisa. Eu sou prosa, ele, poesia; seu olhar é denso e ponderado, o meu é ligeiro e emocional. Ele tem aquele jeito de quem é sempre ele em qualquer lugar e eu aquela forma de ser qualquer lugar em mim. Ele sabe o mundo em várias línguas, eu uso a minha apenas pra beijar e provocar infantilmente os amigos - já que mal falo cearensês. Ele é fogo; eu, água. Ele, contenção e detalhe; eu, explosão e excesso. Mas comemos pastel na feira, ele lê poesia, eu falo longamente sobre nada e ele ri. Nós rimos.

Exagerada, eu? Magina
Em filmes, então, pensem num desassossego: ele não gosta de nada que eu gosto (oh, yes, ele é exigente). Já eu, que sou boazinha, gosto de gostar do que ele gosta. Foi ele que me fez ver este filme aqui, então não tem obrigadas e salamaleques o bastante pra ele. Hoje, papeando, ele me disse que ia publicar um post sobre um outro filme. Logo me interessei, claro. Gostei tanto - e dada minha característica que vocês já sabem - quis trazê-lo pra cá. Normalmente eu colocaria um trecho e o link, mas ele foi generoso e eu trago todinho aqui. 

[Nem por isso deixem de ir lá, no Salamalandro, vão ver muita coisa boa e, ali, na barra lateral, ainda podem baixar o livro do Leo: Das Infimidades. Lá tem lindezas que nem:
Leio o meu destino
Nas entrelinhas da tua calma
Nas entrelinhas da tua cama
Nas entrelinhas da tua palma]



O Lado Escuro do Coração, por Leo Gonçalves


Dirigido por Eliseo Subiela, El lado oscuro del corazón (1992) é um filme engraçado, com Darío Grandinetti no papel principal falando poemas de Oliverio Girondo, Mario Benedetti e Juan Gelman. Narra a história de um poeta sedutor que transita pelas ruas de Buenos Aires à procura de consolos para sua existência surreal. Encontra várias mulheres nessa jornada. Ao fundo de todas elas, ressoa o último verso deste poema de Oliverio Girondo, com uma pequena adaptação do roteirista-diretor:
                                      

Pouco me importa se as mulheres têm os seios como magnólias ou como figos secos; uma pele de pêssego ou de papel de lixa. Dou uma importância igual a zero, ao fato de amanhecerem com um hálito afrodisíaco ou com um hálito inseticida. Sou perfeitamente capaz de suportar um nariz que tiraria o primeiro prêmio numa exposição de cenouras; mas isso sim! —e nisso sou irredutível— não lhes perdoo sob nenhum pretexto: que no saibam voar. Se não sabem voar, perdem seu tempo comigo.

[Me importa un pito que las mujeres tengan los senos como magnolias o como pasas de higo; un cutis de durazno o de papel de lija. Le doy una importancia igual a cero, al hecho de que amanezcan con un aliento afrodisíaco o con un aliento insecticida. Soy perfectamente capaz de soportarles una nariz que sacaría el primer premio en una exposición de zanahorias; ¡pero eso sí! —y en esto soy irreductible— no les perdono, bajo ningún pretexto, que no sepan volar. Si no saben volar ¡pierden el tiempo conmigo!]

Essa rotina antirrotina de Oliverio Fernandez (o nome do protagonista pode ser uma homenagem a Macedonio Fernandez e ao próprio Girondo) é, de repente, interrompida quando ele finalmente encontra uma que lhe responde: “Voos de instrução: 50 dólares. Voo de cabotagem: 80 dólares. Internacional é 100. A paixão por essa bela puta literata (Sandra Ballesteros) é complicada e imoral. Um caminho difícil. Poetas trilham caminhos difíceis. 

Girondo:

Eu, pelo menos, sou incapaz de compreender a sedução de uma mulher pedestre, e por mais empenho que ponha em concebê-lo, não me é possível nem tampouco imaginar que se possa fazer amor senão voando. [Yo, por lo menos, soy incapaz de comprender la seducción de una mujer pedestre, y por más empeño que ponga en concebirlo, no me es posible ni tan siquiera imaginar que pueda hacerse el amor más que volando.]

Em meio à narrativa fio-condutor, o poeta transita por angústias e vicissitudes próprias de quem se dedica à poesia. Recebe visitas habituais da Morte (Nacha Guevara), uma bela mulher com quem tem conversas bem íntimas. Enfrenta uma vida nômade devido às dificuldades de garantir suas finanças (“sou poeta, e quando preciso de algum dinheiro, me alugo: faço publicidade”). Paga a conta do bar com alguns versos, delira com seu amigo subversivo Gustavo (Jean-Pierre Reguerraz), que vez por outra vai preso por atentado ao pudor com suas esculturas sexuais e protesta: “a arte tem que ir para a rua, não pode ficar presa numa galeria”.

Momento especial é a aparição do poeta Mario Benedetti. Vestido de marinheiro, recita para uma das prostitutas do cabaré seu poema “Corazón coraza” em alemão. “Weil ich dich habe und nicht habe (…) weil die Nacht offene Augen hat”.

Embora feito já nos anos 90, o filme tem aquela aura meio cafona dos anos 80, com efeitos especiais um tanto toscos, moda e linguajar antiquados. Mas nada tira o encanto da poesia que aparece muito bem recitada por Darío Grandinetti.  Isso sem falar nos gostosos boleros que aparecem aqui ali como pano de fundo (“hace falta que te diga/que me muero por tener/algo contigo/es que no te has dado cuenta/de lo mucho que me cuesta/ser tu amigo”).


De um tempo pra cá passei a curtir muito esse tipo de filme. Seja na forma de documentário, de biografia ficcional ou de pura ficção, o filme cujo personagem principal é um poeta tem um apelo todo especial nas bilheterias da minha tv. Desse mesmo gênero tem o novo sucesso nas salas de cinema cult do Brasil, Gainsbourg, o homem que amava as mulheres [Gainsbourg, vie héroïque], de Joan Sfar. E daí para: Uivo [Howl] de Rob Epstein e Jeffrey Friedman, contando um momento da vida de Allen Ginsberg e Pan-cinema permanente, documentário sobre Waly Salomão, dirigido por Carlos Nader. E no gênero ficcional, há o admirável filme de Hal Hartley, As confissões de Henry Fool. Nem sempre esses filmes são de fato poéticos. Mas quando são, tornam-se uma oportunidade de se experimentar um novo suporte e leituras inusitadas para os poemas.

Infelizmente O lado escuro do coração não saiu no Brasil (pelo menos até onde sei). Como a maioria das produções que envolvem poesia, diga-se de passagem. Duvido que alguém o encontre nas nossas locadoras ou nas mostras de cinema. Mesmo assim, não custa pedir para os distribuidores. Diga a eles que se não arranjarem, você irá baixar pelo torrent.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Hoje é Dia de Camilla

Hoje é dia de Camilla. E dia de Camilla é sempre dia de belezas e delicadas surpresas. Dia de intensidade e inteligência. Eu nem lembro bem quando encontrei Camilla, mas lembro que desde sempre ela era isso mesmo: maravilha de mulher. Camilla se escreve com C: café, carisma, conversa. Camilla se escreve com A: afinidade, amizade, admiração. Camilla escreve com jeito, com charme e com uma sabedoria pungente de quem viveu muito e a tudo sentiu. É um prazer e uma honra ter o tempo de Camilla aqui. As borboletas, animadas, festejam: dia de Camilla.


Meu Ano é Hoje, por Camilla Magalhães

Meu ano é hoje. Hoje aprendi a andar de bicicleta sem rodinhas. Hoje entrei no ballet. Hoje construí amizades com um grupo de meninas que me acompanhariam por toda a vida e dividimos do jogo de vôlei juvenil às porradas do balzaquianismo. Hoje tive uma das piores noites da minha vida, e não tenho nem 16 anos. Hoje aprendo que esse dia virou uma quase uma forma de ver o mundo. Hoje tive a felicidade de me tornar professora de inglês, e não tenho nem 18 anos. Hoje larguei as MinasGerais para trás e vim ver o mar. Estou vendo o mar há 11 anos, e não tinha nem 19 anos. Hoje entrei na faculdade de direito e me decepcionei com o direito umas tantas vezes. Hoje conheci uma pessoa que seria um amigo, um chefe e uma inspiração. Voltei a gostar do direito. Hoje percebi que minha mãe confia a mim algumas das mais difíceis experiências pela qual passou, e eu acabei de me formar hoje. Hoje tomei uma decisão e troquei um cargo público por uma vaga no mestrado. Acho que hoje virei uma acadêmica de vez. Hoje conheci o amor e foram tantos maravilhosos hoje. Hoje meu amor morreu, e eu mal tinha 29 anos e sou uma viúva. Hoje uma amiga me fez chorar porque mandou uma linda mensagem no meu blog, hoje uma amiga me fez chorar, porque fez uma declaração pessoal tão significativa, hoje sou passional e sentimental e me apego a momentos com essa cor. Hoje entrei para o coletivo das Blogueiras Feministas, e brinco de não querer dizer minha idade. Hoje sou uma balzaquiana feminista criminalista que perde o ar inúmeras vezes ao dia com o tanto que ainda tenho que aprender hoje. Hoje não tenho vergonha de repetir, onde quer que seja, algumas das idéias e dos valores que me são mais caro.Feminista, garantista, criminalista, humanista, ilusionista, rá! Hoje fiz um post egocêntrico, a convite da Lu, só para dizer que meu ano é hoje: hoje sou tudo que todos os anos me fazem, bem ou mal. E se escolhesse qualquer ano, seria nada mais do que a escolha do agora, desse ano, da soma de todos os anos. Então, é isso, sou isso. Meu ano é hoje. 
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