"Eu já esqueci você, tento crer,
nesses lábios que meus lábios sugam de prazer..."
Eu te vi, foi agora a pouco. E o peito doeu. O ventre doeu. De te achar bonito, de te querer em beijos, de te saber em mãos. Como se fosse novo. É, eu te paquerei. Outra vez. E foi aí o sobressalto: tudo era novo pra mim, não lembrava teu rosto, não sei teu gosto, não conheço tua mão. Eu tinha esquecido e não sabia? É mais fácil do que eu cantava, repetindo João em vezes sem fim: seu nome, sua cara, seu jeito sedutor?
"Quem não vê bem uma palavra, não pode ver bem uma alma" diz Pessoa. Nós não nos soubemos ler, antes, porque saberíamos agora? Vou soletrar teu nome e escrevo desejo. Mas em uma língua que não saberás decifrar e tudo cala. À míngua.
Abismo
Há, no Museu da Língua Portuguesa, uma beleza que me leva às lágrimas, sempre. Eu amo as palavras que lá encontro. Que lá me desencontro. Em cada dito a certeza de que os meus grandes dramas e prementes questões são nada ante uma rima direita, uma frase perfeita, um ponto final corretamente colocado. Toda essa fome se faz reconhecido pranto ante a beleza. Não me importo com os sapatos vermelhos, com as estradas vazias, com as esquinas trocadas. Lá, não sei de fotos que não existem, de encontros que não estive, de luas tão cheias de desencanto que me pus Ismália. Lá só há tanto brasil, tanta humana tentativa de estar com o outro e tanto reconhecimento da impossibilidade da empreitada. Lá eu aceito a minha solidão como se pudesse viver com ela. Ou morrer.
seria um dia, ela sabia. um dia, um dia, um dia, o salto repetindo em passos, um dia que não era o hoje, o salto levando-a, sempre, inseguro equilíbrio. seria um dia. enquanto isso, o baralho. cada vez mais estranho, espadas vermelhas, ela se inquietava, em algum tempo foram: copas, ouro, espada e paus, ou era mais uma resposta errada que ela insistia em conhecer? tenta lembrar, mas a estrada a convoca e é dia ante dia, esquece-se, pé ante pé, que ela segue. enevoada lembrança: já esteve em janelas. lembra de ver uma lua, amarela lua, lembra de ver o tempo passando, lembra que era de esperas que se fazia. Apoiava-se na janela. delicado desequilíbrio, olhar espichado no que viria. Agora, ela é quem vai. um dia, um dia, um dia, os passos soando alto, as janelas é que se espicham pra vê-la. as cartas, as cartas que ela não escreveu, as cartas extraviadas, as cartas não dizem nada, as cartas se anunciam em espadas vermelhas e a estrada é quem diz: seu tempo é nunca.











