Vez ou outra eu confesso: sou antiga. Gosto de coisas que foram coloridas com intensidade, mas meio desbotadas, daquele desbotamento que é conforto de um ambiente muito usado pela felicidade, sabe? Eu me vejo em cadeiras na calçada, foto revelada, café coado, envelope e papel de carta, criança brincando de esconde-esconde, em panelas de bronze e colheres de pau. Eu me vejo em lampiões, roupas de seda, expressões e palavras como: no frigir dos ovos, peleja, pejo. Sou antiga, sou das que sabem o que é carpideira e que não usou, mas sabe o que é ferro com brasa dentro. Eu uso gírias como "tá massa", compreendendo que estou atrasada mas sem saber em relação a quê. Sou tão antiga que ruborizo. Que digo videocassete. Que sinto falta da radiola, do LP, do som tão impuro que varava a alma. Sou antiga a ponto de gostar de ir ao cinema e namorar um filme. Aliás, se for em preto e branco, que alegria me dá. Antiga. Do jeito chato, que admite todas as benesses e confortos do mundo de agora, mas suspira por vozes como da Dalva e Dick Farney e lamenta Vinícius quase diariamente. Sou antiga das que ainda preferem um abraço. E é por isso, pelo gosto pelo encontro real, pelo desejo de ter nos olhos o rosto amigo, que estou fazendo as malas. Fazer as malas me faz feliz. Já faz um tempo descobri que sou cigana, bandoleira, irrequieta, e que gosto de chegadas e partidas, mas amo mesmo é a estrada. Percursos. Caminhos. “Mei da rua”, como dizia minha avó. Rodoviária e aeroportos são lugares acolhedores pra mim. Quartos de hotel me agradam. O asfalto se estendendo à minha frente ou as nuvens varadas pelo meu olhar, os espaços em que me faço eu. Sair do lugar, eis o mote. Viajar me faz feliz. A estrada me deixa ser cada vez mais eu, sendo menos. Sem expectativas, sem informações prévias, eu sou quem estou sendo e isso é de uma beleza que me rouba o fôlego. Não tenho boa memória, não sou viajante culta, avetureira nem do tipo que viaja a negócios. Meu negócio é bater perna. Pangolar por aí. Não sou das que lembra nomes de ruas, restaurantes imperdíveis, passeios obrigatórios. Eu gosto de estar nos lugares e ver suas pessoas. Falar com elas. Estar com elas. Eu simplesmente gosto de estar em um lugar que é outro. O prazer da estrada não me vem de arquivar informações ou memórias, mas de saborear o instante. De simplesmente estar lá, nesse canto que é diverso. Nem mesmo boas fotos eu me lembro de fazer. As experiências costumam ficar onde eu gosto que estejam: em mim. Não na memória, insegura e frágil, mas na pele, nas palavras que passo a usar, no jeito de me mover, de reagir às situações, nas ruguinhas ao redor dos olhos que franzi pra ver melhor ou por tanto rir, na forma de andar, de gesticular, nas idéias que vou construindo. Andarilha, gosto de ir e voltar. De passar pelo mesmo lugar, que já não é mesmo, nem mesmo em mim. E de ir aonde eu nunca fui, mesmo quando era outra.
Resumindo: vou lá, ver o Lemú e cair no seu riso amoroso. Vou lá, ver o dr. Paulinho e cair no seu olhar afetuoso. Vou.
Post Scriptum
E de novo o desejo me faz contar as horas. Tão fácil se pergunta quando, tão rápido eu respondo quero. E mesmo com as respostas erradas nós insistimos nas perguntas certas. Você quer, com ponto de interrogação. Há medo nas suas letras, eu sinto. Eu não me demoro a dizer: quero, porque eu sei que não há erro, nosso querer não basta. Não somos nós, os certos. Não somos nós no espelho, no enredo, no final feliz. Não somos, não há futuros em nós. Mas eu vou, há uma plataforma de estação que não precisa de acertos, de amanhãs, de definitivos encontros. Precisa só de dois que - quase - parecem um casal . É só disso que eu preciso: de um quase. Eu anseio por essea estação, esse trem, essa hora. Nossa hora. Eu vou.








